Monthly Archives: Dezembro 2020

Imagem

O interregno global (e da Lusofonia)

“Obras Escolhidas de Manuel Ferreira Patrício”: Acontecimento Editorial de 2021…

Faça já a sua encomenda…

Mais Livros MIL: https://millivros.webnode.com/

Para encomendar: info@movimentolusofono.org

Até sempre, Celina Pereira, Sócia Honorária do MIL…

Na Sociedade de Geografia, no âmbito do I Congresso da Cidadania Lusófona, organizado, em 2013, pelo MIL…

Até sempre, Delmar Domingos de Carvalho (1939-2020)

É com profunda consternação que comunicamos o falecimento do nosso Sócio Honorário Delmar Domingos de Carvalho, colaborador regular da NOVA ÁGUIA e autor de vários Livros MIL…

Obras de Delmar Domingos de Carvalho publicadas pelo MIL

https://millivros.webnode.com/de-delmar-domingos-de-carvalho/

Para encomendar: info@movimentolusofono.org

16-18 de Dezembro: VII Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade

Link Zoom: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/9732783263

Para mais informações:https://iflb.webnode.com/maio-2020-vi-coloquio-luso-galaico-sobre-a-saudade/

Imagem

O racismo: do metafórico ao literal

Também no jornal Público: “Eduardo Lourenço como mito cultural”

Havia algo que irritava, por vezes profundamente, no “fenómeno” Eduardo Lourenço, sendo que isso (que irritava) não era, de todo, responsabilidade sua. Referimo-nos à “mitificação” da sua obra e pessoa – o que contrastava com a sua genuína humildade, que tivemos o privilégio de testemunhar bastas vezes. Apenas um exemplo: há alguns anos, uma revista (“Ler”, 2008) referia-se a Eduardo Lourenço como “o homem que ensina Portugal a pensar” – esse era mesmo o destaque de capa, em “caixa alta”.

Para quem conheça minimamente o pensamento filosófico português, afirmações como essa só poderiam provocar, no mínimo, um sorriso de condescendência (ou, de forma menos condescendente, um justo esgar de indignação). Acreditamos que Eduardo Lourenço sorriu sempre como esse tipo de referências. Eduardo Lourenço – pessoa particularmente culta – sabia bem que Portugal já bem sabia pensar antes dele…

É verdade que, ao longo da sua obra, fez algumas referências menos abonatórias à filosofia portuguesa. No entanto, no seu livro mais célebre, O Labirinto da Saudade, não deixou de considerar “o famigerado movimento da célebre ‘filosofia portuguesa’ (…) uma reacção, em boa parte justificada, contra o pendor mimetista e o consequente descaso que ele implica de inatenção a nós próprios (…), contra uma imagem da cultura portuguesa, de perfil essencialmente negativa, herdado da Geração de 70, e nunca criticado à esquerda como o deveria ter sido”[1]. Palavras, a nosso ver, muito lúcidas e justas.

É igualmente verdade que, ainda nesse seu livro, Eduardo Lourenço denunciou, aqui a nosso ver de forma mais excessiva, o “irrealismo prodigioso da imagem que os portugueses fazem de si mesmos”[2], “irrealismo” esse que, alegadamente, se consubstancia nos diversos “mitos compensadores da nossa frustração de antigo povo glorioso, como o de um Quinto Império, que terá em Fernando Pessoa a sua expressão mais acabada”[3], o que explicou da seguinte forma (assaz conhecida): “Portugal tem uma hiperidentidade porque tem um défice de identidade real. Como tem um défice de identidade, compensa-a no plano imaginário.”[4].

Ainda assim, não deixou o autor d’ O Labirinto da Saudade de antever nesse nosso alegado “défice” um alcance outro, capaz inclusivamente de fazer com que Portugal se reconcilie, enfim, consigo próprio – nas suas palavras: “À dissolução teórica do Sentido, como ingénuos e impávidos camponeses do Danúbio podemos opor – se não uma certeza à antiga, inalcançável e vã nos tempos que nos cabem – a exigência de um Sentido e, em particular de um sentido ético que nem sucesso económico, nem performance científica, nem sofisticação pensante podem substituir. Não é em vão que a Península é a pátria de Séneca. A Europa não inventou um tipo de humanidade mais exemplar que D. Quixote, loucura cristã para tempos regidos pela regra de ouro da objectividade e da legalidade.”.

Acrescentando, num registo quase épico, senão mesmo (passe a ironia…) messiânico: “É quixotescamente que devemos viver a Europa e desejar que a Europa viva. Com a mesma ironia calma com que Caeiro se vangloriava de oferecer o Universo ao Universo, nós, primeiros exilados da Europa e seus medianeiros da universalidade com a sua marca indelével, bem podemos trazer a nossa Europa à Europa. E dessa maneira reconciliarmo-nos, enfim, connosco próprios.”[5]. Na hora da sua partida, reconciliemo-nos, também nós, com o nosso maior “mito cultural” das últimas décadas. Até sempre, Eduardo. Ainda que nem sempre de acordo, continuaremos a lê-lo.

Renato Epifânio

Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono

www.movimentolusofono.org


[1] Cf. O Labirinto da Saudade: psicanálise mítica do pensamento português, Lisboa, D. Quixote, 1982 (2ª), p. 73.

[2] Cf. ibidem, p. 19.

[3] Cf. Nós e a Europa: as duas razões, Lisboa, IN-CM, 1994 (4ª rev.), p. 20.

[4] Cf. AA.VV., Existe uma cultura portuguesa?, Porto, Afrontamento, 1993, p. 38.

[5] Cf. Nós e a Europa: e as duas razões, ed. cit., p. 37.

Homenagem da NOVA ÁGUIA a Eduardo Lourenço (1923-2020)

A colaboração de Eduardo Lourenço na NOVA ÁGUIA não foi particularmente extensa, mas foi cirurgicamente marcante. Assim, no nº 15, da nossa Revista, em que assinalámos o centenário da Revista “Orpheu”, foi de Eduardo Lourenço o ensaio de abertura: “Orfeu ou a Poesia como Realidade”. Evocação que se estendeu ao número seguinte, com a transcrição da sua Conferência de Encerramento do “Congresso 100 – Orpheu”, em que a NOVA ÁGUIA esteve igualmente envolvida.

Nos números 18º e 20º da Revista, destacamos ainda dois ensaios seus – sobre Agostinho da Silva e António Vieira, respectivamente. Sendo que o texto mais marcante foi, decerto, uma extensa entrevista concedida a Luís de Barreiros Tavares (publicada no nº 16), depois editada em Livro, com a chancela do MIL: Movimento Internacional Lusófono (“Eduardo Lourenço em roda livre”, MIL/ DG Edições, 2016, 73 páginas).

Na hora da sua partida, anunciamos que no primeiro número de 2021 iremos ter uma secção em sua Homenagem, que não será, de resto, a primeira que a NOVA ÁGUIA lhe presta – Eduardo Lourenço recebeu, como estamos ainda todos lembrados, o Prémio Vida e Obra do 1º Festival Literário TABULA RASA. Caso queira contribuir para esta Homenagem, deverá enviar-nos o seu texto até final do presente mês de Dezembro. Entretanto, publicamos aqui um texto inédito de Manuel Ferreira Patrício, a ser incluído na edição das suas “Obras Escolhidas”, que o MIL lançará ao longo do próximo ano…

SAUDAÇÃO AO IRMÃO HUMANO EDUARDO LOURENÇO[1]

 Manuel Ferreira Patrício

Portugal, cuja grandeza frustrada é uma das nossas dores mais dificilmente suportáveis, como se árvore anémica fosse, dá-nos de quando em vez um fruto de grande dimensão e envergadura, imponente aspecto, qualidade suma e delicioso sabor, que atenua a nossa insatisfação histórica. Eduardo Lourenço é um desses frutos, em que até a modéstia da sua compleição física redunda em benefício do seu esplendor espiritual. Ele é, sem dúvida, um gigante cultural do século XX português, mantendo intactas as suas qualidades na segunda década em que já vamos do século XXI. Pode olhar para trás e sorrir contente pelo que fez. Pode o sorriso persistir pelo que continua fazendo, com toda a lucidez e sabedoria. Nós também sorrimos, do mesmo contentamento, onde assoma a consciente gratidão do muito que nos deu ao longo das décadas em que pudemos beneficiar do seu companheirismo humano e da sua infatigável operosidade intelectual, de que ia brotando o ouro que escorria para as nossas consciências e a nossa alma, enriquecendo dia a dia o nosso património espiritual, aliás crítico de si mesmo.

Nós os de Évora, consideramo-lo também nosso. Pela sua amizade e camaradagem com Vergílio Ferreira, nosso evidentemente, pela nossa própria ligação de amizade e cumplicidade cívica e cultural com os seus irmãos António e Adriano, que aqui viveram e trabalharam uns anos, pela ligação à Universidade que estabelecemos com ele, pelo facto de sermos seus leitores e admiradores desde a longínqua década de 60, época em que na Livraria Nazareth ― em 67 ― pudemos adquirir (o Fernando Martinho e eu próprio, professores no Liceu) o livro Heterodoxia-II, que representou um marco de reforço no nosso itinerário intelectual e cívico. Mais tarde, nos anos 70 e 80, trabalhando na Universidade, na Divisão (hoje Departamento) de Pedagogia e Educação, investindo apaixonadamente na formação de professores para o Portugal democrático, que ansiávamos viesse a ser lidimamente livre e culto, intentámos apoiar-nos na sua bússola vital prestando a devida atenção à sua obra Labirinto da Saudade ― Psicanálise mítica do destino português ― destino que continua a fazer-nos figas, empurrando-nos, na hora que corre, mais para o psiquiatra que para o psicanalista. Hoje, a Universidade de Évora trabalha directamente na preparação da edição das Obras Completas de Eduardo Lourenço, o que é honra para todos nós.

Li há poucos dias a extraordinária entrevista que Eduardo Lourenço concedeu à Revista Letras com(n)Vida, conduzida por José Eduardo Franco, impressionando-me a atenção minuciosa e de quente inteligência fria (de sabedoria…) prestada ao momento presente da Europa, do Ocidente, do Oriente, do Mundo, todos nós com o pé no fio da espada na tentativa de nos mantermos erectos e vivos, de escaparmos. A hora de A Tentação do Ocidente, de André Malraux, já passou, a hora de A Decadência do Ocidente, de Oswaldo Spengler, também, a decadência da Europa é um facto, a decadência dos Estados Unidos da América anuncia-se por si mesma e na ascensão da antiquíssima China, que julgaríamos ter morrido e renasce. Um novo mundo vem aí. Com o olhar estóico que me parece ser o seu, Eduardo Lourenço diz serenamente o que vê, anuncia o que vai vir. Não diz, como o imperador Septímio Severo, que foi tudo e nada vale a pena. O seu olhar escatológico é outro e a mim serena-me. É talvez o olhar do seu cristianismo suave e tingido da liberdade de pensar e ser desde a casca ao cerne. Não somos nós quem vai para o futuro, é o futuro que vem para um novo presente.

Eduardo Lourenço, querido irmão humano da família de François Villon, esteja connosco para festejarmos juntos essa chegada.


[1] Maio de 2013.