Monthly Archives: Novembro 2018

Também no jornal Público: Saudação ao novo Ministro da Educação do Brasil

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Já tem sido mil e uma vezes denunciado (nomeadamente, por José Pacheco Pereira), mas nem por isso é excessivo insistir: os nossos “media”, em geral, tendem a noticiar sobretudo o que parece confirmar as “narrativas” que eles próprios criam. Exemplo paradigmático disso tem sido, na Europa, o fenómeno do “Brexit” – narrativa: os britânicos enganaram-se (ou foram enganados, conforme as versões); logo, noticia-se sobretudo o que pareça confirmar esse “engano”.

Sobre esse e outros fenómenos falámos longamente com o novo Ministro da Educação do Brasil, Ricardo Vélez-Rodriguez, que participou em dois eventos em Lisboa, recentemente promovidos pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, que ambos integramos: XII Colóquio Tobias Barreto, sobre “Historiografia e Hermenêutica da filosofia luso-brasileira”, e um Congresso sobre “O krausismo ibérico e latino-americano”.

Sem ilusões nem lamentações, Ricardo Vélez-Rodriguez constatou igualmente como o mesmo se tem passado com o Brasil. “Vocês não percebem o que se tem passado no Brasil” – reiterou. Chegou até a dar o seu exemplo pessoal, no que respeita ao fenómeno da (in)segurança: ele próprio esteve na iminência de ser raptado, conjuntamente com a sua filha menor, o que o levou a abandonar o Rio de Janeiro. No plano académico, deu também conta de como projectos filosóficos seus eram sistematicamente boicotados por preconceitos ideológicos.

Não admira por isso que os “media” no Brasil estejam a apresentar Ricardo Vélez-Rodriguez como “um desconhecido”. Em Portugal, pelo menos, não o deveria ser. Ricardo Vélez-Rodriguez é um dos maiores estudiosos da filosofia luso-brasileira, com vasta obra publicada. Sendo que, obviamente, por cá também (quase) ninguém o conhece… Não conseguimos antecipar como será o próximo Governo do Brasil chefiado por Jair Bolsonaro. No plano das relações com Portugal e os restantes países lusófonos, Jair Bolsonaro tem sido completamente omisso. De algo, porém, estamos certos, conhecendo, como conhecemos, Ricardo Vélez-Rodriguez: pelo menos na pasta (fundamental) da Educação, teremos alguém que muito preza as relações culturais luso-brasileiras.

Saudamo-lo, pois, fazendo-lhe desde já o seguinte repto: nos programas de História no Brasil, nos vários graus de ensino, Portugal continua a ser, por grosseiro enviesamento ideológico, mais do que diabolizado, a ponto de se sugerir, nalguns casos de forma muito pouco tácita, que tudo o que existe de mau no Brasil decorre ainda da “herança colonial portuguesa”. Fazemos pois votos para que o seu modelo de um ensino não ideologicamente enviesado leve também à desconstrução desse embuste. Como Ricardo Vélez-Rodriguez bem sabe, o Brasil só terá real futuro quando superar por inteiro esse complexo edipiano em relação a Portugal. O próprio futuro da Lusofonia disso depende. Estamos igualmente certos de que, na sua pasta, Ricardo Vélez-Rodriguez tudo fará para a promoção da convergência, a todos os níveis, entre os países de língua portuguesa.

Renato Epifânio

Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono

www.movimentolusofono.org

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Mais um Livro MIL, a ser lançado no IV Colóquio do Atlântico…

Ver Programa:

24 de Novembro, no Centro Cultural de Montargil: Homenagem a Manuel Ferreira Patrício.

Na Mesa: Rui Carapinha, Manuel de Assunção, Manuel Ferreira Patrício e Renato Epifânio.
Assistência.

19-24 de Novembro: Co-organização MIL – Colóquio Internacional Luso-Brasileiro: Lusofonia: realidade(s), mito(s) e utopia(s)

Ver Programa:

16 de Novembro, lançamento de mais um Livro MIL: “Presença de Ortega Y Gasset em Portugal e no Brasil”

AA.VV., “Presença de Ortega Y Gasset em Portugal e no Brasil”, coord. de de António Braz Teixeira, Gonzalo del Puerto e Renato Epifânio, Lisboa, MIL/ Instituto Cervantes, DG Edições, 2018, 214 pp.
ISBN: 978-989-54268-1-2
Outras Obras promovidas pelo MIL:
Lançamento: 16 de Novembro, 19h, no Instituto Cervantes, em Lisboa.

Também no jornal Público: “Brasil: mais do que julgar, tentar compreender…”

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Parece realmente bizarro que, nos Estados Unidos da América, a Barack Obama tenha sucedido Donald Trump, e que agora no Brasil a um longo consulado do PT (Partido dos Trabalhadores), liderado por Lula da Silva, suceda Jair Bolsonaro. A lógica da pendularidade histórica decerto que explica em parte o fenómeno, mas não explica tudo. Desde logo porque os EUA e o Brasil são realidades muito diversas. Ainda assim, há algumas similitudes entre estes dois casos.

Recentemente revi, pela enésima vez, o filme “O Caçador”, de Michael Cimino (decerto, ainda hoje, um dos melhores retratos da chamada “América profunda”), e, ao longo do filme, fui-me perguntando: se aquelas personagens tivessem votado nas últimas eleições nos EUA, quantas teriam escolhido Hillary Clinton? Nenhuma delas, concluí (incluindo, saliente-se a ironia, a personagem de Robert de Niro, o herói da história). E não é porque fossem “más” pessoas. Bill Clinton gostava de dizer “it’s the economy, stupid”, mas essas eleições provaram precisamente o contrário. Mais do que questões económicas, foram questões culturais. A maioria “branca” (ou “WASP”) americana fartou-se da infinita agenda reivindicativa das várias minorias.

No Brasil, algo de similar se passou e Jair Bolsonaro, na sua não menos infinita brutalidade, intuiu isso muito bem ao vociferar em plena campanha: “Tudo é coitadismo. Não pode ter política para isso. Coitado do negro, do gay, das mulheres, do nordestino, do piauiense, tudo é coitadismo no Brasil. Isso não pode continuar acontecendo”. Sendo que, no caso brasileiro, houve outros factores, tão ou mais relevantes: o da corrupção e (mais ainda, diria) o da criminalidade. Decerto que em Portugal – um dos países mais seguros do mundo – é difícil de compreender o fenómeno, mas no Brasil há muita gente com medo de sair à rua, sendo que esse sentimento generalizado de insegurança não é um mero fantasma.

Por fim, há um outro factor não, de todo, negligenciável: o da Venezuela. Em Portugal, todos temos acompanhado o que lá se tem passado, sobretudo por causa dos muitos emigrantes portugueses, mas, naturalmente, acompanhamos de longe. Ora, no Brasil, o (contra-)exemplo venezuelano não é igualmente um mero fantasma e causou muita mossa no PT, que sempre defendeu, em todas as instâncias internacionais, o regime de Chávez e de Maduro. Duvidam? Façam então uma sondagem junto dos emigrantes portugueses na Venezuela (aos que já saíram e aos que ainda lá estão) e perguntem-lhes se, em Portugal ou no Brasil, estariam dispostos a votar em partidos apoiantes do cada vez mais decadente regime venezuelano. Não custa adivinhar quais seriam as respostas (maximamente negativas). E, também aqui, não é decerto por serem, em geral, “más” pessoas.

Renato Epifânio

Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono

http://www.movimentolusofono.org