Monthly Archives: Abril 2017

Também no jornal Público: “O falso consenso em torno da Lusofonia”

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Há um falso consenso em torno do conceito de Lusofonia. Aparentemente, não há quem seja contra. Na realidade, porém, se (quase) todos lhe batem palmas e proclamam a sua importância, muito poucos agem de forma consequente.

Na nossa classe política, por exemplo, quem já proclamou que “a nossa Pátria é a Língua Portuguesa”? Decerto, quase todos. Mas quem depois age de forma consequente a uma proclamação dessas? A nosso ver, (quase) ninguém.

Nesse plano, conseguimos sentir maior respeito intelectual por alguém que se afirma abertamente contra a Lusofonia – como, por exemplo, António Pinto Ribeiro (cf. “Para acabar de vez com a lusofonia”, Jornal PÚBLICO, 02.02.13) –, do que por todos aqueles que têm em relação à Lusofonia uma posição hipócrita, batendo-lhe palmas apenas para a fotografia, com reserva mental.

Pela minha experiência nesta área, sou cada vez mais levado a concluir que a grande linha de fronteira entre quem é realmente a favor da Lusofonia e quem é contra, de forma aberta ou dissimulada, passa, no essencial, pela visão que têm sobre a nossa história, em particular, sobre nossa história de expansão marítima.

Assim, quem sobrevaloriza as dimensões mais negativas, como a escravatura, tende sempre a ver na Lusofonia, consciente ou inconscientemente, a mancha de uma espécie de pecado original. Quem, ao invés, enquadra devidamente essas dimensões mais negativas nos costumes da época, tende a fazer um balanço geral positivo, em que a Lusofonia é uma espécie de corolário de toda a nossa história comum, aquilo que, em última instância, lhe dará, retrospectivamente, um sentido maior.

A questão da escravatura é, este respeito, particularmente significativa: continua-se ainda hoje, por ignorância ou má-fé, a absolutizar esta questão quando há muito que se sabe que a escravatura era, infelizmente, uma prática disseminada na época, inclusivamente entre os povos africanos. E a quem faz questão de amiúde recordar a perseguição aos índios na América Latina, pergunto apenas: teria sido realmente melhor se tivessem sido outros povos europeus a terem lá chegado primeiro?

É certo que algumas almas continuam a crer que, se os portugueses nunca tivessem chegado a esse território que veio depois a ser o Brasil, os índios que lá viviam continuariam a viver, até hoje, como até então viviam. Mas essa é uma crença que não resiste, nem por um segundo, a uma visão lúcida da história. Se os portugueses nunca tivessem chegado a esse território que veio depois a ser o Brasil, o que se passaria é simples de adivinhar: o Brasil nunca viria a existir; todo esse território teria soberania espanhola e, olhando para o que se passou ao redor, seria fragmentado em vários países, todos eles de língua oficial castelhana. Quanto aos índios: não teriam decerto uma vida melhor. Apenas, falariam castelhano, em vez de português.

 

Renato Epifânio

Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono

http://www.movimentolusofono.org

22 de Maio, na Fundação António Quadros | Biblioteca Municipal de Rio Maior…

 

29 de Abril, no Porto (Casa-Museu Guerra Junqueiro): próxima sessão do Ciclo 150 anos de Raul Brandão e António Nobre…

Fotos do início do Ciclo “150 anos de Raul Brandão e António Nobre”

Fotos da 2ª sessão:

Também no jornal Público: “Nós, zelotas da lusofonia, nos confessamos…”

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Se, conforme o já oportunamente denunciado, “a peste do politicamente correcto ameaça agora invadir em força a área do pensamento filosófico” (Cf. PÚBLICO, 02.04.2017), ela há muito que invadiu a área da historiografia, particularmente em Portugal.

A recente visita do Presidente da República Portuguesa a uma antiga casa de escravos do tempo dos holandeses, na ilha de Gorée, em frente a Dacar, lugar que foi um entreposto do tráfico de escravos desde o século XV, veio, uma vez mais, demonstrar essa evidência.

Um artigo publicado no jornal PÚBLICO (“Um ‘humanismo’ nada excepcional”, 18.04.2017) é um exemplo eloquente disso mesmo. Alegadamente contra o “nacional-ufanismo que faz escola, sempre alimentado por zelotas da lusofonia e por oráculos do interesse ou da ‘estratégia nacionais’”, o artigo é, com efeito, um exemplo eloquente do enviesamento ideológico da peste do politicamente correcto.

Nós não temos problema algum em enfiarmos essa carapuça – a de “zelotas da lusofonia” –, até porque (ironia das ironias) os zelotas foram, antes de tudo o mais, um movimento de resistência ao Império Romano. Não estamos, porém, seguros de que Marcelo Rebelo de Sousa se sinta à vontade com a mesma carapuça.

Assim sendo, sugerimos que, numa próxima intervenção sobre o assunto, Marcelo Rebelo de Sousa defenda, de forma particularmente enfática, as quatro premissas fundamentais da historiografia politicamente correcta sobre a nossa expansão marítima:

1. A escravatura foi um fenómeno exclusivamente europeu e, em particular, português. Quando os portugueses tiveram a infeliz ideia de começar a dar passeios de barco cada vez mais longos, não havia escravatura em África (nem, escusado seria dizê-lo, na Ásia ou na América).

2. Mesmo na Europa, a escravatura foi um “vírus” que só surgiu com o cristianismo. Na Grécia Antiga, não havia escravatura, porque, evidentemente, a Grécia Antiga “inventou” a Democracia e a Democracia é incompatível com a escravatura.

3. Só, com efeito, o cristianismo tolerou a escravatura. As demais religiões nunca o fizeram. De resto, é mais do que sabido que as demais religiões não têm crenças “bizarras”. Apenas o cristianismo/ catolicismo.

4. A história da colonização portuguesa foi, comparativamente, a pior, no universo das colonizações europeias. Prova disso é o amor que, ainda hoje, os povos colonizados pelos outros países europeus têm pelos respectivos povos colonizadores, ao contrário do que acontece com os povos colonizados por Portugal, que continuam a ter por nós o maior ódio, facto que qualquer pessoa isenta poderá confirmar.

Renato Epifânio | Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono

 

Também no Jornal Público: Agostinho da Silva, “maltratado”?

Escreveu Paulo Trigo Pereira no jornal “Observador” (11.04.2017) um interessante artigo intitulado “Agostinho da Silva: Amado e Mal-Tratado”, onde denuncia, a nosso ver com acerto, que Agostinho da Silva tem sido “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”.

Sendo a denúncia acertada, as explicações que Paulo Trigo Pereira expõe no seu artigo não acertam, de todo, a nosso ver, no alvo. Dito isto, gostaríamos desde já de ressalvar que não pomos minimamente em causa o agostinianismo de Paulo Trigo Pereira, até porque sabemos, por experiência própria, que há muitas formas de ser agostiniano – formas diferentes, muito diferentes, e até contraditórias. Com efeito, Agostinho da Silva consegue, ainda hoje, congregar pessoas das mais diversas proveniências filosóficas, ideológicas, religiosas, etc.

Feita esta (para nós) importante ressalva, vamos então à nossa explicação para o facto de Agostinho da Silva continuar a ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”. No essencial, isso deve-se, a nosso ver, à sua visão do país, bem distante (para dizer o mínimo) da visão defendida quer por parte de certa “inteligentzia nacional”, quer e sobretudo pelas instituições públicas.

Compreendemos que, para Paulo Trigo Pereira, que se assume como um “federalista europeu”, o assunto seja incómodo, mas a verdade é que, ainda em vida, Agostinho da Silva expôs as maiores reservas a uma visão oficial do país que, no essencial, reduzia Portugal à então C.E.E. (Comunidade Económica Europeia). Na altura, sobretudo por isso, Agostinho da Silva foi de facto ridicularizado e posto de parte: era, alegadamente, um “passadista”, um “velho do Restelo”, senão mesmo ainda um “homem do Império”, que não aceitava o que nos foi impingido como o (único) futuro, com os resultados que estão hoje à vista de todos.

Na verdade, desde há muito tempo, Agostinho da Silva defendia um outro futuro para Portugal. Apenas alguns exemplos: num texto publicado no jornal brasileiro O Estado de São Paulo, com a data de 27 de Outubro de 1957, Agostinho da Silva havia proposto “uma Confederação dos povos de língua portuguesa”. Num texto posterior, chegará a falar de um mesmo “Povo não realizado que actualmente habita Portugal, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, o Brasil, Angola, Moçambique, Macau, Timor, e vive, como emigrante ou exilado, da Rússia ao Chile, do Canadá à Austrália” [“Proposição” (1974)].

Por tudo isso, chegou a defender: “não me pareceu que a revolução de 1974, tal como estava a ser feita, conduzisse a alguma coisa em que valesse a pena colocar essas ideias. Pareceu-me que era um pronunciamento militar sem grande largueza política” (in Vida Conversável, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994, p. 53). Face a uma posição como esta, como poderia, de facto, Agostinho da Silva não ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”? A nosso ver, não poderia. Vamos até mais longe. Se for apenas por esta razão, melhor será que Agostinho da Silva continue a ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”. Prova de que, no essencial, continua a ter razão, já mais de vinte anos após a sua partida.

Renato Epifânio | Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono

17 Maio: Colóquio “Fidelino de Figueiredo, Filósofo” (no cinquentenário da sua morte)

 

Prosseguindo a sua missão de não deixar cair no esquecimento as figuras maiores da nossa tradição filosófico-cultural, o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em parceria com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, o MIL: Movimento Internacional Lusófono e a Revista NOVA ÁGUIA, irá promover, no dia 17 de Maio, no Palácio da Independência, em Lisboa, um Colóquio sobre Fidelino de Figueiredo, uma das personalidades que nos legou uma das mais relevantes obras, ao longo de mais de meia centúria: O espirito historico: Introducção à Bibliotheca.- Noções preliminares (1910; 3º Edição de 1920); A critica litteraria como sciencia (1912; 3ª Edição de 1920); Historia da litteratura romantica portuguesa: 1825-1870 (1913); Portugal nas guerras europêas: subsidios para a comprehensão dum problema de politica contemporanea (1914); Historia da litteratura realista: 1871-1900 (1914); Antologia geral de literatura portuguesa: 1189-1900 (1917); Como dirigi a Bibliotheca Nacional: Fevereiro de 1918 a Fevereiro de 1919 (1919); Literatura contemporanea: O sr. Júlio Dantas (1919); Historia da litteratura classica (3 volumes, 1917-1922); Torre de Babel (1924); História de um ‘Vencido da Vida’ – sobre Oliveira Martins (1930); As duas Espanhas (1932); Problemas da ética do pensamento: o dever dos intelectuais (1935); Alguns elementos portugueses na obra de Lope de Vega (1938); Últimas aventuras (1941); A luta pela expressão: prolegómenos para uma Filosofia da Literatura (1944); Estudos de literatura (5 volumes, 1915-1951); Ainda a épica portuguesa: nótulas de auto-crítica (1952); Símbolos & mitos (1964); Paixão e ressurreição do homem (1967).

Foi, para além disso, alguém que estabeleceu pontes: não apenas entre diversas áreas da cultura (como a literatura, a história e filosofia), como ainda, em particular, entre as culturas portuguesa e brasileira. Como escreveu Cleonice Berardinelli, uma das suas mais insignes discípulas: “Chegou ele (Fidelino de Figueiredo) a São Paulo em 1938, para assumir a cadeira de Literatura Portuguesa, precedido da fama de uma obra já realizada e de uma vida que se poderia dizer ‘pelo mundo em pedaços repartida’, perseguido por um regime político a que não podia submeter-se dada a forma como respeitava o homem e o direito à livre expressão (…). Sua imensa cultura, sua extraordinária sensibilidade, sua reflexão profunda foram-nos rasgando horizontes que desvendavam um novo mundo de conhecimentos em que podíamos penetrar por sua mão. Era este o segredo do nosso destemor em acompanhá-lo: a mão em que nos apoiávamos confiantes, mão de amigo, mão de pai. Porque nos adoptara como filhos”. (Cf “Mestre dos Mestres”, in A Missão portuguesa, São Paulo, UNESP, 2003). Por tudo isso, iremos, no dia 17 de Maio, ouvir António Braz Teixeira, Filipe D. Santos, Joaquim Pinto, Luís Lóia, Manuel Ferreira Patrício, Mário Carneiro e Rui Lopo, que abordarão as diversas facetas da sua vida e obra. No final, nós próprios falaremos sobre alguns estudos recentes sobre o seu pensamento, dando desde logo destaque ao mais recente número da Revista NOVA ÁGUIA, que, tendo republicado o seu conto “No Harém”, publica ainda dois ensaios: um sobre um dos conceitos mais nucleares no seu pensamento (o de “imagem-força”), o outro sobre o seu alegado “orientalismo”.

Renato Epifânio

Para mais informações:

5 de Maio, na Associação Caboverdeana de Lisboa…