DA REPÚBLICA: CEM ANOS DEPOIS

1. República significa, “tão-só”, coisa pública: res publica. É por isso, “tão-só”, que,passados cem anos sobre a alegada implantação da República, tenhamos que concluirque ainda não vivemos num regime realmente republicano.
2. Para que vivêssemos em República, ela teria que existir: enquanto res publica,enquanto “coisa pública”, enquanto “coisa comum”. Ora, isso é coisa que, de facto,não existe. A nossa sociedade está demasiado fracturada para se poder dizer que algoverdadeiramente a une, para podermos dizer que ela é uma real Comunidade.
3. E o que une uma Comunidade enquanto tal? Desde logo, uma História, uma Cultura,uma Língua. Ora, se é certo que, mal ou bem, ainda que cada vez mais mal do que bem,todos nós falamos a mesma Língua, cada vez menos partilhamos a Cultura que subjaza essa Língua, nem, muito menos, a História na qual ela, ao longo dos séculos, se foiconstituindo.
4. Para que viéssemos a ser uma República, importaria pois, desde logo, reassumir isso– em última instância, essa Pátria comum. Por isso, de resto, gostava de dizer SampaioBruno, um dos nossos mais insignes (e, por isso, mais incompreendidos) republicanos,que “a Pátria é um princípio de solidariedade colectiva” e que “se a República seimplantasse em Portugal (…), Portugal, porque reaparecesse um vínculo colectivo,voltaria a ser uma Pátria”. Como igualmente gostava de dizer Teófilo Braga, é “osentimento de Pátria o elo da nossa coesão nacional”.
5. Nada, contudo, disso verdadeiramente existe. E por isso não há também coesãonacional, ou o que hoje em geral se designa por solidariedade social. Porque se perdeuesse sentimento da Pátria – mais imediatamente, da República, da “coisa pública”,da “coisa comum” – cada um, por regra, trata apenas da sua vida, roubando da “coisapública” o mais que puder. Como em toda a regra, há sempre excepções. Felizmente,ainda muitas.
6. Face a tudo isto, torna-se ridículo discutir a questão da República enquanto antíteseou contraponto da Monarquia. Os nossos maiores Reis sempre foram os primeirosdefensores da “coisa comum”, da “coisa pública”, ou seja, sempre foram os maioresdefensores da República. De resto, na medida em que se assume, de facto, a Repúblicaenquanto esse “vínculo colectivo”, o Poder será necessariamente mono-árquico. OPoder e o Regime.
7. Só, pois, tornando-se primeiro republicano o nosso regime poderá vir a tornar-se denovo monárquico. Coisa que, de resto, já não era, há muito, há cem anos atrás…
* In A VIA LUSÓFONA: UM NOVO HORIZONTE PARA PORTUGAL, Lisboa, Zéfiro,2010, pp. 119-120; republicado in NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O
SÉCULO XXI, nº 6, 2º semestre de 2010, p. 80.

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