Daily Archives: Agosto 29, 2008

SOBRE A ACTUALIDADE DA IDEIA DE PÁTRIA: NOVE NOTAS & UM NOVO PARADIGMA PARA PORTUGAL

Intróito:

O homem não é, ou não é apenas, uma “pura abstracção”, mas um ser concreto, universalmente concreto, um ser que, de resto, será tanto mais universal quanto mais assumir essa sua concretude, a concretude da sua própria circunstância. Dessa circunstância faz axialmente parte a “pátria”, isso que, segundo José Marinho, configura a nossa “fisionomia espiritual”. Nessa medida, importa pois assumi-la, tanto mais porque, como escreveu ainda Marinho, foi “para realizar o universal concreto e real [que] surgiram as pátrias”.

1. A questão da actualidade e da importância

Antes da questão da “actualidade”, dever-se-á discutir a questão da “importância”. Se não considerarmos importante a “ideia de Pátria”, fútil será discutir a sua “actualidade”. Se a ideia de Pátria não fosse importante, como para nós é, o facto dela não ser uma ideia actual, como manifestamente não é, não seria para nós motivo de lamento, mas de regozijo.

2. Porque é importante a ideia de Pátria?

A importância da Pátria denota para nós a importância da Cultura. O que “une” os portugueses, se é que ainda algo “une”, é isso: a pertença a uma mesma Pátria, ou seja, a uma mesma Cultura histórica. Se ela não existisse, de facto, nada haveria que realmente “ligasse” os portugueses. Decerto, não é essa uma Cultura unívoca. O seu sentido histórico pode ser discutido. A nosso ver, aliás, só se devem discutir assuntos importantes e, nessa medida, a Pátria pode e deve ser discutida.

3. Porque não é actual a ideia de Pátria?

A nosso ver, para além de algumas razões conjunturais, a ideia de Pátria deixou de ser actual pela extremação do individualismo contemporâneo – e por isso caracterizou José Marinho a nossa época como a “época da cisão extrema”. Também por isso, a política, cada vez mais, parece reduzir-se a uma mera gestão económica, sem qualquer Horizonte. Não que essa gestão económica não seja importante. Simplesmente, não é isso o que faz de um conjunto de pessoas uma real comunidade. Para que isso aconteça, o elo não pode ser apenas económico – tem que ser, sobretudo, cultural. Sem esse elo maior, de resto, qualquer sociedade se desagrega, em particular uma sociedade materialmente pobre, como a portuguesa.

4. Porque, não sendo uma ideia actual, deverá de novo sê-lo?

Trata-se, em última instância, da sobrevivência de Portugal. Se o que liga os portugueses é apenas o Estado, se tudo se resume à questão dos impostos e das reformas, se a ideia de Pátria passou de vez à História, então vale mais, desde já, fechar a porta e apagar a luz. E integrarmo-nos, de vez, na Espanha. Viveríamos, materialmente, bem melhor…

5. Fundamento (a Cultura) e Firmamento (União Lusófona).

Por tudo isso, dizemos: o Fundamento maior de Portugal é a Cultura. Geográfica, económica e politicamente, Portugal é um absurdo. À luz dessa visão axialmente cultural do país, o nosso Firmamento, o nosso Horizonte último, só pode ser a União Lusófona, ou seja, a religação com todos os outros países com quem Portugal tem mais afinidades linguísticas e culturais, ou seja, com todos os outros países lusófonos, obviamente numa relação já por inteiro pós-colonial.

6. Portugal e Europa.

Nós somos a “Turquia do Ocidente”. Tal como a Turquia não é, de facto, um país europeu, Portugal também não é, ou é apenas numa pequena parte. Tal como a Turquia, tendo uma parte europeia, é sobretudo uma pátria asiática, a pátria lusa, tendo também uma parte europeia (a nação portuguesa), estende-se por África, pela América, pelo Oriente…

7. O caminho do Horizonte.

É do interesse dos próprios países de expressão portuguesa a promoção da Lusofonia.
Vimos e vemos isso em Timor, bem como em todos os países africanos de expressão portuguesa.
A Lusofonia é para todos esses países, sem excepção, o garante da independência e da coesão nacional.
Por isso são os próprios governos desses países que promovem a língua lusa, por mais que, paralelamente, alguns deles, insistam numa retórica anti-portuguesa, de modo a alimentar a má-consciência de alguns e, sobretudo, a desviar as atenções…

8. A semente a germinar.

Essa ideia já deu lugar à CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), idealizada por Agostinho da Silva, logo nos anos cinquenta, mas esta, tal o seu modelo, não nos levará longe. Provavelmente, não poderia: apesar de ter sido criada já nos anos 90, foi ainda criada sob o trauma da descolonização, reflectindo, por isso, na sua génese, os complexos dos ex-colonizadores e dos ex-colonizados. Havia, para além disso, uma dessintonia: o país ex-colonizador vivia por esse tempo a sua provinciana paixão europeísta; os países ex-colonizados, apesar da queda do Muro de Berlim, ainda seguiam a miragem de uma “união internacional dos povos”. Havia, já não há: nem paixão europeísta, nem miragem internacionalista. É, pois, tempo de lançar de novo à terra (ou, mais exactamente, ao mar) a semente da União Lusófona…

9. Um exemplo para o resto do mundo.

Dir-se-á que esta ideia de Nação e de Pátria está, a priori, condenada ao fracasso, dada a lógica trans-nacional do sistema económico dominante: como é hoje usual dizer-se, “o capital não tem Pátria”. Reconhecendo que a resistência a esse capitalismo trans-nacional só se pode fazer num grande Bloco, num grande Movimento inter-nacional, direi que a União Lusófona poderá ser, para nós, esse Bloco. No seu conjunto, os países dessa futura União Lusófona têm força suficiente para promoverem um outro tipo de sistema económico. E serem um eventual exemplo para outros países, para outros Blocos. Nunca fui um daqueles que acham que é a Portugal que cabe “salvar o mundo”. Nem a União Lusófona o fará. Mas pode tornar-se um exemplo de um mundo alternativo. Um exemplo contagioso…

Tese, Antítese e Síntese: por um novo paradigma de Portugal

Tese – Paradigma do 24 de Abril:

Tenho da História uma visão hegeliana. Por isso, considero que todos os regimes que caiem merecem cair. O Estado Novo não foi excepção. A 24 de Abril de 1974, estava em inteiro colapso. Por isso, caiu. E, com ele, o seu paradigma de Portugal: um Portugal que mantinha um império colonial completamente anacrónico, sem qualquer perspectiva de Futuro.

Antítese – Paradigma do 25 de Abril:

Todas as revoluções são, por natureza, antitéticas. A revolução de 25 de Abril de 1974 também não foi excepção. Por isso, se o Estado Novo defendia um Portugal do Minho até Timor, o paradigma saído da revolução defendeu exactamente o contrário: daí que Portugal tenha virado as costas às suas antigas colónias (com as consequências imediatas que se conhecem e que ainda hoje se fazem sentir), tornando-se apenas em mais um país da Europa.

Síntese – Paradigma do 26 de Abril:

Passado todo este tempo (mais de 34 anos), em que os traumas dos ex-colonizadores e dos ex-colonizados já cessaram (senão por inteiro, pelo menos em grande medida), urge um novo paradigma, que faça a devida síntese: recuperando essa visão maior não já de Portugal mas do Espaço Lusófono, em Liberdade e Fraternidade, à luz da qual Portugal, não virando as costas à Europa, recentre de novo o olhar no azul. Não o azul tingido (e, por isso, fingido) da bandeira da União Europeia, mas o azul vivo (este sim, verdadeiro) do Mar…

* Publicado in: NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI, 1º semestre de 2008, nº 1.