MIL: Movimento Internacional Lusófono

Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 30 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.
SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa) NIB: 0036 0283 99100034521 85; IBAN: PT50 0036 0283 9910 0034 5218 5; BIC: MPIOPTPL; NIF: 509 580 432
Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

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Também no jornal Público: “Uma visão curta da nossa história”

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No dia 29 de Junho do corrente ano, realizou-se na SEDES: Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, um debate promovido pela PASC: Plataforma de Associações da Sociedade Civil – Casa da Cidadania, que o MIL integra, sobre as razões da nossa crise, debate presidido pelo General Garcia Leandro e que teve como principal orador Nuno Garoupa, até há pouco tempo Presidente do Conselho de Administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos. No debate, tive a oportunidade de expor, ainda que de forma breve, uma convicção que cada vez mais tenho: a razão maior da situação a que Portugal chegou deve-se à crescente quebra do sentido comunitário entre os portugueses, à quebra de ligação com o próprio país, explicável, desde logo, por um enviesado (passe o eufemismo) auto-conhecimento histórico.

Aproveitando a presença de Nuno Garoupa, referi depois o exemplo da série de reportagens publicadas na altura no jornal PÚBLICO, “Racismo em português: o lado esquecido do colonialismo”, da autoria de Joana Gorjão Henriques (JGH), precisamente como um contra-exemplo de como se deve promover o nosso auto-conhecimento histórico, manifestando até a minha perplexidade pela Fundação Francisco Manuel dos Santos ter patrocinado essa série. De forma elegante, Nuno Garoupa deu a entender (essa foi, pelo menos, a forma como entendi as suas palavras) que também não havia apreciado a série, mas que na altura já não havia nada a fazer, dado que havia contratos assinados a respeitar.

Manifestamente, esse não foi o caso de Diogo Ramada Curto (DRC), que no suplemento “Ípsilon” do mesmo jornal (19.08.2016, pp. 27-29), assina um longo panegírico à série de reportagens entretanto reunidas em livro, onde procura defender a visão da autora da acusação, que o próprio DRC verbaliza (o que por si só é sintomático), de esta ser “uma visão parcial – por enfatizar unilateralmente o legado racista dos portugueses”. Acusação que, escusado seria dizê-lo, só peca por defeito. Com efeito, o que se diria, por exemplo, de uma visão da Grécia Antiga que fizesse da questão da escravatura (que também aí existiu) o alfa e o ómega? Decerto, não se diria apenas que era uma “visão parcial”. JGH, porém, pretende reduzir toda a nossa história da expansão marítima à câmara de horrores do tráfico de escravos, o que está muito para além da mera “parcialidade”.

Para ser imparcial, JGH teria desde logo que comparar a nossa colonização com as outras colonizações europeias. Por fim, teria que questionar essa visão, tão ingénua quanto falsa, que apresenta África como um paraíso antes da chegada dos portugueses. É que o racismo e a escravatura não foram um exclusivo europeu, muito menos português – havia racismo e escravatura entre os africanos quando os portugueses lá chegaram. Mas compreende-se que um facto tão banal como este seja escamoteado: ele por si só destrói a visão de JGH. Uma nota final: diz-se que a História serve também para nos fazer compreender o presente. Pois bem: à luz da visão de JGH, não se compreendem de todo as (singulares) relações de afectividade que existem entre os povos lusófonos. Se a visão de JGH fosse verdadeira, os povos colonizados pelos portugueses só poderiam ter por nós o maior ódio. Não é esse o caso – ou é?!

Renato Epifânio
Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono
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Saudação MIL ao Brasil pelas Olimpíadas de 2016

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Saudamos todo o povo brasileiro pelos memoráveis Jogos Olímpicos realizados no Rio de Janeiro, em Agosto deste ano. Depois de tantos maus augúrios, que mil e uma vezes anteciparam a catástrofe, não podemos deixar de nos regozijar com a boa organização de um evento que juntou milhares de atletas de todo o mundo, nas mais diversas modalidades.

Como em todos os restantes países lusófonos, também no Brasil há quem prefira pôr a parte (e o partido) acima e à frente do todo – tendo por isso “torcido” para que tudo corresse o pior possível.

Felizmente, salvo um ou outro pequeno incidente – que sempre ocorrem em eventos desta complexidade e magnitude –, o balanço final não pode deixar de se considerar muito positivo, para mais num país que vive – como todos sabemos – uma grave crise social, económica e política. Obviamente, essa crise não se resolveu com as Olimpíadas, mas ter-se-ia agravado ainda mais se estas não tivessem corrido bem.

Durante quase um mês, todos os olhos do mundo estiveram centrados no Brasil. Se os Jogos Olímpicos tivessem sido uma catástrofe, como mil e uma vezes se antecipou, a imagem do Brasil para o resto do mundo teria ficado irreversivelmente manchada. Com o sucesso destas Olimpíadas, o Brasil volta a ser, aos olhos do mundo, um país de futuro, em que vale a pena continuar a confiar.

Salientamos que esta foi a primeira vez que umas Olimpíadas se realizaram no espaço lusófono. Apenas das Olimpíadas já não terem o mesmo simbolismo de outrora, elas continuam a ser um evento mediático sem paralelo. Nunca no passado tantas pessoas por todo o mundo tiveram, ao mesmo tempo, a oportunidade de ouvir a língua portuguesa, falada ou cantada. Isso, por si só, é digno de ser salientado. Por isso, o sucesso destas Olimpíadas não foi apenas algo de benéfico para o Brasil – foi igualmente algo de muito benéfico para toda a Lusofonia.

Uma palavra final relativa à importância do desporto. Apesar das Olimpíadas já não conseguirem suspender guerras e de muitas modalidades se terem, pelo menos em parte, mercantilizado, o desporto continua a ser um dos motivos maiores de celebração do que a humanidade tem de melhor. Por isso, consideramos que uma das vias de aproximação dos diversos povos de língua portuguesa deveria ser essa, através da realização regular de grandes eventos, que juntassem atletas de todos os países e regiões do espaço lusófono.

MIL: Movimento Internacional Lusófono

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Nestes últimos tempos, as notícias que nos chegam do espaço lusófono são quase sempre negativas – em particular, dos chamados PALOPs, Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa: em Moçambique, há um clima de regresso à guerra civil; em Angola, apesar da recente libertação de Luaty Beirão e seus companheiros, continua-se muito longe de um verdadeiro Estado de Direito; na Guiné-Bissau, a crise política parece tornar-se crónica; em São Tomé e Príncipe, as últimas eleições presidenciais foram boicotadas pelos candidatos perdedores na primeira volta, etc. Como quase sempre, Cabo Verde tem sido a excepção que confirma a regra.

Volta e meia, porém, há notícias que nos enchem a alma – eis um exemplo recente: «O Conselho de Ministros de Timor-Leste aprovou a doação de dois milhões de euros a Portugal para apoio no combate aos incêndios que atingem o país e ajuda às vítimas, informou o governo timorense. Em comunicado, o governo de Timor-Leste precisa que 1,25 milhões de euros se destinam “a apoiar as autoridades portuguesas no combate aos incêndios” e 750 mil euros “são para socorro directo às populações afectadas”. O primeiro-ministro timorense, Rui Maria de Araújo, convocou a reunião extraordinária do Conselho de Ministros, por considerar “alarmante” a situação em Portugal.».

Decerto, haverá quem em Portugal reaja de forma menos positiva a uma notícia como esta – desde logo, alegando que Timor-Leste é um país muito mais carenciado do que Portugal. Outros ficarão até indignados. Como posso testemunhar, há portugueses que não compreendem de todo a afeição que os timorenses continuam a ter por nós, considerando inclusive que isso decorre ainda de uma insuficiente “descolonização das mentes”. Para tais pessoas (que existem, reitero), a forma como, por exemplo, se comemorou em Timor-Leste a recente vitória de Portugal no Europeu de Futebol não só deve não ser valorizada como, inclusive, deve ser condenada, como se, de facto, a forma efusiva como se comemorou em Timor-Leste a recente vitória de Portugal no Europeu de Futebol fosse um sinal da menoridade política dos timorenses.

Escusado será dizer que a nossa visão é por inteiro contrária. Por isso, consideramos que Portugal deve aceitar, sem qualquer sobranceria, a doação timorense – por mais que, de facto, Timor-Leste seja um país muito mais carenciado do que Portugal. Quanto ao mais, são esses sinais que nos fazem fortalecer a convicção de que a lusofonia é muito mais do que um sonho. Como já foi mil vezes defendido, as comunidades políticas só se constituem historicamente se forem, antes de tudo o mais, comunidades de afectos. A comunidade lusófona está ainda muito longe de ser uma comunidade política (como o relativo fracasso da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, vinte anos após a sua criação, bem o atesta). Mas é já, inequivocamente, uma comunidade de afectos. E isso, por si só, é garantia de futuro.

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Também no Jornal “Público”: “Em Goa algo de novo!”

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Sim, esta vitória também é vossa!

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Não é óbvia a razão pela qual o futebol é, à escala global, de longe o desporto mais popular – à partida, dir-se-ia que um desporto jogado com as mãos, como o andebol, teria mais potencial para isso –, mas a verdade é que é. Eu tenho uma teoria – para além de outras razões, o futebol é o desporto mais imprevisível, aquele em que mais vezes a equipa mais fraca pode vencer –, mas isso agora não importa.

Sendo o futebol à escala global de longe o desporto mais popular – seja por que razão for –, a vitória de Portugal neste Europeu de Futebol é obviamente relevante, mesmo para quem não gosta de futebol. Para mais, tendo a vitória sido conquistada em Paris – onde tantos emigrantes nossos (sobre)vivem.

Que os franceses não tenham tido a decência de ter iluminado a Torre Eiffel com as nossas cores, isso é apenas um incidente sem grande relevância. Já todos sabemos a forma sobranceira como os povos do Norte de Europa olham para Portugal e para os restantes povos do Sul. É (também) por isso que a dita “União Europeia” só poderia existir se os povos do Sul aceitassem esse complexo de superioridade dos povos do Norte (mas adiante, que esta não é a altura para falar sobre o assunto).

Com uma táctica “à grega” – Portugal ganhou em Paris mais ou menos da mesma forma como a Grécia ganhou em Lisboa em 2004 –, a selecção portuguesa ganhou (e este é o ponto que quero aqui salientar) porque foi muito mais do que uma selecção estritamente portuguesa. Sim, estou a falar do brasileiro Pepe (o grande esteio da nossa defesa), bem como de todos os restantes jogadores de ascendência africana: William, Danilo, Renato, Nani e Éder (sim, aquele que marcou o golo no prolongamento quando já ninguém o esperava).

No dia seguinte à nossa vitória nas meias-finais, com o País de Gales, vi uma reportagem televisiva em Timor-Leste. O repórter, com uma sobranceria (ou seria apenas ignorância?) sem limites, denotava alguma perplexidade pelo facto dos timorenses estarem a festejar a vitória portuguesa – “como se fosse também deles”, acentuou. Pois bem: o que quero apenas aqui dizer é que esta vitória foi também vossa! Vossa: do povo timorense, de todos os povos africanos de língua portuguesa, do povo brasileiro, sem esquecer o povo galego e todas as demais comunidades que, pelo mundo fora, para perplexidade de alguns portugueses, falam, com orgulho, a nossa língua.

E a razão para tal é relativamente simples – suficientemente simples para qualquer repórter televisivo compreender. Sem o povo timorense, sem os povos africanos de língua portuguesa, sem o povo brasileiro, sem o povo galego e todas as demais comunidades que, pelo mundo fora, para perplexidade de alguns portugueses, falam, com orgulho, a nossa língua, Portugal há muito que já não existiria. Se Portugal existe ainda, se a língua portuguesa tem uma existência cada vez maior à escala global, isso deve-se também a vós. Por isso, esta vitória é também vossa!

Renato Epifânio

Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono

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O Mar e a Lusofonia

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Para nós, o mar é muito mais do que uma questão geográfica – ou até geoeconómica ou mesmo geopolítica. Havendo também nesses planos muito a fazer, em desejável convergência com os restantes países e regiões do espaço lusófono, quero porém aqui salientar a relação cultural – direi até civilizacional – entre a Lusofonia e o Mar.

Com efeito, se à Lusofonia, como a qualquer outra língua, subjaz uma forma singular de ver e viver o mundo, então diremos que o viver do mundo de forma lusófona tem muito a ver com o Mar. E não apenas nem sobretudo, uma vez mais, por razões geográficas.

Não decorre isso tanto da nossa língua como, sobretudo, da nossa história. Foi e é a experiência histórica da Lusofonia o que nos leva a dizer isso: que o viver do mundo de forma lusófona tem muito a ver com o Mar. Porquê? Porque, a nosso ver, há uma dimensão mais marítima, mais fluída, mais plástica na nossa convivência histórica, desde lodo em comparação com outras histórias europeias.

Falemos, como será inevitável, do nosso império ultramarino. Decerto, não irei dizer que não houve aí uma experiência de colonização e de violência – como se fosse possível haver colonizações não violentas. No entanto, comparativamente, a nossa experiência foi muito mais marítima, mais fluída, mais plástica – e, por isso, mais dada à mistura, à mestiçagem, à partilha.

Mesmo no plano religioso, por exemplo, a forma como os “deuses” africanos sobreviveram na cultura lusófona brasileira, ainda que sob o manto de um catolicismo oficial, denota bem essa propensão – ou maior disponibilidade – para a mistura, para a mestiçagem, para a partilha. Por isso, num texto sugestivamente intitulado “Presença de Portugal”, que corresponde a uma palestra feita a um grupo de amigos, em Maio de 1962, na cidade do Rio de Janeiro, aludiu Agostinho da Silva ao que “no tempo e no espaço, podemos chamar a área de Cultura Portuguesa, a pátria ecuménica da nossa língua”.

Mas haverá já uma Pátria Lusófona? Sabemos que não. Num outro texto (“Proposição”), datado de 1974, falou ainda Agostinho da Silva de um “Povo não realizado que actualmente habita Portugal, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, o Brasil, Angola, Moçambique, Macau, Timor, e vive, como emigrante ou exilado, da Rússia ao Chile, do Canadá à Austrália”. De um povo ainda não realizado – acrescentaríamos apenas. Por isso, dizemos que esse povo está ainda em gestação – do mesmo modo que essa Pátria. Mas há já uma longa experiência histórica comum, base de uma cultura necessariamente mais mestiça, plural e polifónica. E por isso também marítima.

 

Também no jornal PÚBLICO: “A CPLP e o Mar”

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Para além de Portugal, todos os restantes países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) são, dada a sua génese histórica (foram constituídos a partir do mar), países marítimos – daí que disponham de vastas áreas oceânicas sob as respectivas jurisdições, que perfazem no seu conjunto mais de 7,5 milhões de km2.

O Conselho de Ministros da CPLP (de 2 de Novembro de 2007) determinou a elaboração de uma estratégia para os seus Estados membros, potenciando o uso e divulgação da língua, bem como a colaboração ao nível global da política de mares, propondo a “concertação de esforços entre os países da CPLP no sentido da elaboração de uma visão integrada, com vista a promover o desenvolvimento sustentável dos espaços oceânicos sob as suas respectivas jurisdições nacionais, inclusive por meio da cooperação internacional”.

Um ano depois, na Declaração de Lisboa (aprovada na VII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: Lisboa, 25 de Julho de 2008), os Chefes de Estado e de Governo da CPLP endossaram a referida decisão do Conselho de Ministros e “sublinharam o interesse em que deliberações técnicas sobre a matéria possam ter lugar no mais curto prazo possível, com vista a permitir a sua implementação no futuro próximo”.

Como se pode ler ainda em documentos oficiais: “Assim, instaram à realização de uma Reunião dos Ministros, responsáveis pela coordenação dos assuntos do mar a nível nacional, com o objectivo de coordenar posições em fóruns da Comunidade Internacional e acompanhar as acções para a gestão sustentável dos oceanos. Apelaram, ainda, à constituição de um Centro de Estudos Marítimos da CPLP – Plataforma de Partilha de Informação e Conhecimento do Mar, que agregue as unidades de investigação dos centros de estudos universitários dos Estados-membros no sentido da dinamização da produção científica, da constituição de uma rede de informação e da compatibilização de bases de dados.”

Apesar de algumas iniciativas já realizadas entretanto – nomeadamente: Conferências dos Ministros responsáveis pelas Pescas da CPLP, Simpósios das Marinhas dos Países de Língua Portuguesa ou Encontros de Portos da CPLP –, cabe perguntar porque, nestes últimos anos, não se avançou muito mais. A resposta não pode deixar de remeter para o balanço que não se pode deixar de fazer da CPLP, vinte anos após a sua criação. Um balanço igualmente negativo nesta área fundamental – como em várias outras áreas –, como não pode deixar de se concluir.