Arquivo da Categoria: Textos de Reflexão

UM ANO DE NOVA ÁGUIA, UM ANO E MEIO DE MIL

Foi no dia 19 de Maio de 2008. Perante uma assistência de cerca de duzentas pessoas, na Fundação Escultor José Rodrigues, no Porto, realizou-se o primeiro lançamento da NOVA ÁGUIA…

De então para cá, realizaram-se já mais de uma centena de lançamentos. De Norte a Sul do país e não apenas, como é costume, em Lisboa e no Porto. Mas não só. Estivemos ainda na Galiza e em vários locais do Brasil. Mas não só. Enviámos igualmente dezenas de revistas para Timor e, finalmente, conseguimos agendar alguns lançamentos na África lusófona…

Cada vez mais, a NOVA ÁGUIA voa pois por todo o espaço lusófono. A NOVA ÁGUIA e o movimento que em torno dela se gerou, o MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO. Já com quase um milhar de adesões, de todos os países da CPLP, assim, cada vez mais, fazendo jus ao seu nome…

Cada vez mais participado, e visitado, continua também o blogue da NOVA ÁGUIA. A média já excede as 10 MIL visitas mensais e a tendência é para continuar a crescer…

Por último, uma referência ao terceiro vértice do triângulo NOVA ÁGUIA: a colecção de livros que se tem publicado na Zéfiro. Ainda que de forma mais discreta, tem esta colecção igualmente contribuído para que a NOVA ÁGUIA seja já, cada vez mais, reconhecida como uma marca de excelência no nosso panorama cultural e filosófico…

*

Um ano depois do seu nascimento, o MIL organizou, em parceria com a Associação Mares Navegados, a NOVA ÁGUIA e a Associação Agostinho da Silva, o seu primeiro Debate Público, sobre “O Futuro da CPLP”, em que foram oradores Lauro Moreira e Miguel Real. Um debate muito interessante e muito participado, como se pode comprovar pelo vídeo depois publicado no nosso site:

http://movimentolusofono.wordpress.com/2009/01/25/1%c2%aa-conferencia-publica-do-mil-o-futuro-da-lusofonia-notas-e-video-completo/

Em Fevereiro, o MIL emitiu um Comunicado em defesa da Lusofonia no espaço da Galiza:

http://movimentolusofono.wordpress.com/2009/02/10/comunicado-do-mil-sobre-o-uso-da-lingua-galega-na-galiza/

A esse respeito, salientamos a relação próxima que temos estabelecido com representantes da Academia Galega de Língua Portuguesa, com os quais nos reunimos já na nossa sede (Associação Agostinho da Silva).

Em Março, anunciámos a parceria que havíamos entretanto estabelecido com a AMI: ASSISTÊNCIA MÉDICA INTERNACIONAL,de modo a publicitar as suas iniciativas, em particular aquelas que decorram no espaço lusófono”:

http://movimentolusofono.wordpress.com/2009/03/10/o-mil-movimento-internacional-lusofono-estabeleceu-uma-parceria-com-a-ami-assistencia-medica-internacional/

No início de Abril, emitimos um novo Comunicado a denunciar a grave situação que se vive na Guiné-Bissau:

http://movimentolusofono.wordpress.com/2009/04/02/novo-comunicado-do-mil-sobre-a-situacao-da-guine-bissau/

No seguimento desta, encontrámo-nos com o Dr. Francisco Fadul, antigo Primeiro-Ministro e actual Presidente do Tribunal de Contas da Guiné-Bissau. Desse encontro emergiu uma nova Petição, dirigida a todos os lusófonos e governos da CPLP:

EM PROL DA CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO DE DIREITO DEMOCRÁTICO NA GUINÉ-BISSAU

http://movimentolusofono.wordpress.com/2009/04/18/peticao-em-prol-da-construcao-de-um-estado-de-direito-democratico-na-guine-bissau/

Uns dias antes, havíamos igualmente lançado uma petição em “EM PROL DE UMA VERDADEIRA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA [EM PORTUGAL]”, assim procurando complementar posições sobre o espaço lusófono em geral e sobre cada país em particular. Neste caso, sobre Portugal:

http://movimentolusofono.wordpress.com/2009/04/12/peticao-em-prol-de-uma-verdadeira-democracia-representativa/

Igualmente em Abril, a Comissão Coordenadora do MIL foi renovada. Entraram oito novos membros, de modo a emprestar um novo vigor a este projecto. Até ao final do semestre, iremos realizar um outro Debate Público, sobre “Portugal e a Europa”. No segundo Semestre, iremos realizar uma série de conferências de âmbito mais alargado.

Entretanto, continuam os lançamentos da NOVA ÁGUIA, que têm sido momentos privilegiados de encontro da nossa Comunidade e de discussão dos nossos Princípios e Objectivos. O primeiro lançamento do terceiro número foi particularmente participado, já que decorreu no âmbito de um Colóquio realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (“O LEGADO DE AGOSTINHO DA SILVA, QUINZE ANOS APÓS A SUA MORTE”, 03.04.09), em que participaram, entre outros, Adriano Moreira, Amândio Silva, António Braz Teixeira, António Telmo, Fernando Nobre, José Florido, Manuel Ferreira Patrício, Miguel Real, Paulo Borges, Pinharanda Gomes, Renato Epifânio e Valdjiu, dos “Blasted Mechanism”.

A lista actualizada dos lançamentos da NOVA ÁGUIA, bem como das adesões ao MIL, poderá encontrá-la, como sempre, no nosso blogue:

http://novaaguia.blogspot.com/

O primeiro ano do MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO

Como é sabido, o MIL é o movimento cultural e cívico prefigurado no Manifesto da NOVA ÁGUIA – o seu nome foi objecto de uma votação pública nas últimas semanas de 2007. O MIL, já assim baptizado, nasceu pois no princípio de 2008, exactamente no primeiro dia de Janeiro.

O ideário do MIL encontra-se definido na sua “Declaração de Princípios e Objectivos” (no essencial, igualmente prefigurados no Manifesto da NOVA ÁGUIA). Caso o tenham feito de forma responsável, todas as pessoas que aderiram ao MIL fizeram-no porque se reconhecem, em geral, nessa “Declaração”.

Até ao momento, aderiram já ao MIL cerca de oito centenas de pessoas, de todo o espaço lusófono – a proporção é: 3 quintos de portugueses, um quinto de brasileiros, o outro quinto de outros países (incluindo de todos os outros países da CPLP). A esse respeito, saliento, nesse último quinto, um número significativo de adesões oriundas da Galiza (ver coluna esquerda do nosso blogue, onde aparecem os diversos órgãos da NOVA ÁGUIA e do MIL).

Decerto, há várias formas de olhar para este números: é sempre possível ver o copo meio cheio ou meio vazio. Façamos, a esse respeito, mais um pouco de História.

Logo aquando da primeira leitura oficial do Manifesto da NOVA ÁGUIA, a 10 de Outubro de 2007, no Porto, durante um Congresso de Filosofia, foi visível que, precisamente por ser um Manifesto forte, ele não era aceite por todos (e estávamos, por assim dizer, perante uma assistência “amigável”). Já se sabe: quem marca uma posição, gera oposição.

Depois, enviámos convites a muita gente e houve várias recusas. Lembro-me, por exemplo, de pelo menos uma pessoa ter recusado o convite, muito amavelmente, dizendo-nos que não se revia na linguagem “proto-identitária” do Manifesto. Nada de extraordinário: há muita gente que, legitimamente, é avessa a expressões como “sentido histórico da cultura portuguesa”, “nossa vocação”, “destinação colectiva”, etc. Por isso, por exemplo, sempre olharam com desconfiança Agostinho da Silva, Pessoa, Pascoaes (o próprio Eduardo Lourenço, apesar da sua linguagem mais “suave”). Por isso, também, naturalmente, não se reconheceram no nosso Manifesto, pelo menos a ponto de aderirem a este projecto. Sempre encarei isso com naturalidade – para conseguirmos a adesão dessas pessoas, teríamos que descaracterizar de tal modo o Manifesto que este se tornaria outra coisa. E isso, pelo menos para mim, nunca foi opção.

As nossas petições também geraram bastante oposição. Se a primeira, “Por uma Força Lusófona de Manutenção do Paz” não levou ninguém a sair (mas terá, admito-o, levado alguma gente a não entrar), isso aconteceu com a segunda, a respeito do Acordo Ortográfico: houve uma pessoa que se desvinculou do MIL por causa dessa Petição e houve pelo menos uma pessoa que não aderiu ao MIL por causa dela (pessoa, aliás, bem conhecida: Carlos Pinto Coelho, o ex-apresentador do célebre programa televisivo “Acontece”). O mesmo aconteceu depois com a nossa defesa do “Passaporte Lusófono”: houve uma pessoa que saiu por causa dessa Petição. E, por causa dela, continuamos a ser atacados em vários sítios – nomeadamente, em vários blogues de extrema-direita, que nos acusam de nos vergarmos aos “brasucas”, de querermos o país “cheio de pretos”, etc. (como se nós não tivéssemos sempre defendido um Portugal “lusofonamente mestiço”). Por outro lado, na extrema-esquerda, por causa da nossa expressa defesa dos valores da Língua, da Cultura e da Pátria, também já temos sido acusados de “salazaristas” (acusação que apenas pode ter eco em mentes mais idiotas e/ou sectárias).

Poderia aqui referir as muitas pessoas que, ao invés, aderiram ao MIL por causa dessas Petições, mas esse não é ponto. O ponto é que as três petições emanaram da nossa “Declaração de Princípios e Objectivos” (como é facilmente argumentável; eu próprio o fiz até à exaustão). Poderíamos, porventura, não o ter feito. Poderíamos, eventualmente, tê-las formulado de uma forma menos comprometida – no caso da última, por exemplo, foi sugerido (não importa por quem) que se fizesse uma mera denúncia da “Directiva do Retorno” sem qualquer referência ao “Passaporte Lusófono”. Mas o ponto é que nós não somos uma mera associação de defesa de imigrantes (sem qualquer desprimor para estas), nós somos um movimento que se assume como “internacional lusófono”. Logo, essa referência lusófona – mais concretamente, ao espaço lusófono e à cidadania lusófona – tem que aparecer sempre em todas as nossas posições públicas.

Ao longo deste seu primeiro ano de existência, o MIL já demarcou igualmente o seu lugar no espaço público. Algumas das posições que tomámos tiveram uma significativa repercussão nos media e, em geral, na blogosfera, quer em Portugal, quer em outros países da CPLP. Através desses ecos, cimentou-se a singularidade da nossa visão e da nossa voz: no espaço público, somos, cada vez mais, aquela voz que defende a Lusofonia e, de forma coerente e consequente, o reforço dos laços entre os países da CPLP, em todos os planos – cultural, desde logo, mas também social, económico e político.

Essa é pois, em suma, a nossa “marca” – um ano depois, já solidamente definida. Quem, de boa-fé, atentar nos nossos documentos – na Declaração de Princípios e Objectivos, nas Petições e nos diversos Comunicados que fomos emitindo ao longo do ano –, reconhece já bem essa “marca”. A ela, por causa dela, já aderiu muita gente. Por causa dela, muita outra gente (impossível quantificar) não aderiu. Como diria o outro, é a vida…

Renato Epifânio

Poderá comentar este texto em:
http://novaaguia.blogspot.com/2008/12/o-primeiro-ano-do-mil-movimento.html

A ORGANIZACÃO DA DIÁSPORA PORTUGUESA: UM DOS PRINCIPAIS FACTORES DE AFIRMACÃO DE PORTUGAL NO MUNDO

A actual situação de vulnerabilidade das bases económicas e culturais da independência nacional, que se manifesta não só ao nível das estruturas económicas internas, mas também ao nível de afirmação do nosso país no contexto internacional e em particular no contexto europeu, exige dos nossos governantes a realização de uma profunda reflexão visando identificar os factores que possam reforçar a posição de Portugal no mundo face aos desafios da mundialização.

Os responsáveis políticos e os investigadores nacionais têm orientado de um modo limitado e redutor, as suas análises e as suas propostas politicas e estratégicas para os factores de competitividade das estruturas económicas internas, e também para os níveis insuficientes da eficácia administrativa dos nossos sectores público e privado.

Esta visão redutora leva os nossos responsáveis a, consciente ou inconscientemente, esquecer um factor estratégico que já é, de facto, e pode revelar-se ainda mais importante no futuro, extremamente importante para a afirmação de Portugal no sistema de poder ao nível mundial: a diáspora portuguesa, constituída por comunidades que se implantaram e desenvolveram num grande número de países de vários continentes, que se aproximam hoje dos 15 milhões, sendo 5 milhões de portugueses directos, e os restantes luso-descendentes com nacionalidade portuguesa, dupla nacionalidade, ou simplesmente uma ascendência portuguesa.

Pelo elevado seu elevado número, e pela sua cada vez maior importância no contexto social, económico, e político, dos países de acolhimento, as comunidades portuguesas constituem sem dúvida um dos maiores vectores da influência e da afirmação de Portugal ao nível mundial.

É incompreensível em termos políticos e mesmo históricos, que os nossos dirigentes não tenham até agora, «devido a uma cegueira política e ideológica que infelizmente tem afectado, até hoje, partidos e intelectuais», tomado consciência, nem concebido
estratégias adequadas para dar expressão real á grande força de re-dinamização e de
reforço da nação portuguesa que constitui a nossa diáspora.

A nossa diáspora no mundo deve ser orientada e ajudada a organizar-se de maneira inteligente para que ela possa dar uma nova dimensão, não só políticamente, através da participação dos emigrantes na vida política dos países de acolhimento, mas sobretudo ao nível sócio económico, através do estabelecimento de redes de cooperação empresarial e de solidariedade profissional, ao potencial de afirmação e de influência histórica dos portugueses, e ao reforço da portugalidade no mundo.

O poder político e as administrações públicas, nomeadamente as diplomáticas, de que o nosso país dispõe, na situação actual, não tem meios, nem um projecto político à altura para realizar a grande tarefa nacional que é a organização da diáspora portuguesa ao nível mundial.

Face a esta insuficiência – decorrente da incapacidade actual do estado, da administração, e do nosso sistema político – o caminho mais fácil, o mais evidente, é o do fomento da auto-organização da nossa diáspora, mobilizando a sua capacidade de iniciativa e o seu dinamismo, pois os seus grupos mais activos e mais esclarecidos poderão suprir estas insuficiências públicas formando e dinamizando um projecto político e organizativo expressamente adequado para esse efeito.

Um projecto naturalmente virado para defesa dos interesses dos portugueses e de Portugal no mundo, englobando todos os países de expressão portuguesa, e as regiões onde a língua e a memória portuguesa ainda subsiste, como ex. Malaca, Goa, Damão e Diu, Casamança (crioulo português), Indonésia (Flores) Togo e o Benim, sem esquecer a Europa, onde em países como a França e o Luxemburgo a comunidade portuguesa tem grande relevo:
- Malaca, onde cerca de 3 milhões de pessoas falam, cantam, sentem, vivem, e rezam à maneira portuguesa, esquecidos há muitos anos pela pátria longínqua que lhes deu uma identidade, sem escolas ou apoios culturais que lhes permitam não só a continuação evolutiva da língua, como da sua própria expansão nesse canto da Ásia.
- Guiné e Senegal onde a língua portuguesa entrou oficialmente nas universidades;
S. João Baptista de Ajudá, África do Sul, onde começa a despontar a importância nacional da língua portuguesa como forma diferenciada da colonização inglesa com a influência e o apoio de moçambicanos e angolanos, na Africa do Sul o português ocupa já uma posição de relevo nos lugares das línguas oficiais.
- Na Califórnia e na Costa Leste dos Estados Unidos.

Timidamente, demasiado timidamente, o governo central de Lisboa começa a reconhecer o potencial de influencia da nossa diáspora, embora sem ter um projecto político á altura, nem estruturas consequentes de apoio.

Aproveitando os recursos das novas tecnologias da informação e da comunicação, há que promover a criação e a multiplicação de ‘cyber’ espaços e de redes ‘internet’ de contacto, diálogo e solidariedade entre os grupos que constituem a diáspora portuguesa alargada no mundo.
Existem hoje meios instrumentais e técnicos que permitem com facilidade pôr em comunicação e organizar, auto-organizar, as centenas de milhões de indivíduos que falam português e reivindicam a portugalidade no mundo.

Esperemos que este potencial irrefutável possa ser compreendido pelos nossos responsáveis políticos.

José A. Sequeira Carvalho
Bruxelas
Professor ISEG Universidade Técnica de Lisboa

Publicado in NOVA ÁGUIA: O BLOGUE DA LUSOFONIA

O Mundo na Era da Globalização

As tecnologias da informação estão a mudar o mundo – a conjunção da informática com as telecomunicações prenunciam uma nova época.
A fusão das tecnologias do telefone, computador, televisão por cabo e disco vídeo trarão novas formas de comunicação entre as pessoas.

A expansão da democracia é muito influenciada pelo progresso das comunicações a nível global.
O paradoxo da democracia actual é que enquanto se está a expandir por todas as partes do mundo, nas democracias mais maduras os níveis de confiança nos políticos tem vindo a diminuir.
Mas um certo desencanto nos políticos não desencantou os processos democráticos. Hoje, as pessoas que pertencem a organizações voluntárias, ou a grupos de ajuda mútua são vinte vezes superior às que estão filiadas em partidos políticos.
A revolução das comunicações produziu cidadanias mais activas, o que exige uma maior clareza e responsabilização dos líderes políticos.
É necessário democratizar a democracia.

A globalização neoliberal reproduz condições económicas e sociais que tende a aumentar as desigualdades entre ricos e pobres, quer em termos globais, quer nacionais.
O aumento das desigualdades acentua a exclusão social efectiva de grandes sectores da população mundial.
O aumento do trabalho precário nas grandes cidades e nas periferias provoca o aumento do número de pessoas que vive no limiar da miséria.
Em Bogotá isso verifica-se, por exemplo, no crescente número de pessoas que sobrevive rebuscando contentores e lixeiras à procura de materiais recicláveis para venda.

Os países ocidentais exigiram a liberalização mundial do comércio para os produtos que exportavam, mas ao mesmo tempo continuaram a proteger os sectores em que a concorrência dos países em desenvolvimento podia ameaçar as suas economias.
Os EUA e o FMI insistiram sempre em acelerar este tipo de liberalização do comércio, fazendo mesmo depender os seus apoios ao desenvolvimento da aceitação dessa perspectiva.

Nos próximos anos, novas e mais sofisticadas tecnologias na área da informática aproximarão cada vez mais as sociedades mundiais de um “mundo sem trabalhadores”. Redefinir a falta de trabalho deverá ser a questão social mais premente deste século.
Enquanto para alguns um mundo sem trabalho se traduzirá, sobretudo, em liberdade e tempo livre, para outros evoca a ideia de um futuro sombrio com desemprego e pobreza generalizada.
Novas instituições estão a ser criadas pelas pessoas para suprir necessidades que não estão a ser atendidas pelo mercado, ou pelo sector público. E isto se verifica por todo o mundo.

“No Séc. XVIII, a máquina a vapor, provocando a revolução industrial, mudou a face do mundo (…). No entanto, essa máquina apenas substituia o músculo. Com a vocação de substituir o cérebro, o computador está a provocar, sob os nossos olhos, mutações ainda mais formidáveis e inéditas.” (Ramonet, Ignacio, 2002, p.91)

Luis Santos

Bibliografia
. LYON, David – A Sociedade da Informação. Oeiras: Celta Editora, 1992.
. GIDDENS, Anthony – O Mundo na Era da Globalização. Lisboa: Ed. Presença, 2000.
. RODRIGUEZ, César – O Caso das Cooperativas de Recicladores de Lixo na Colômbia,in, SANTOS, Boaventura Sousa – Produzir para Viver. Porto: Ed. Afrontamento, 2002.
. STIGLITZ, Joseph – Golobalização: A Grande Desilusão. Lisboa: Terramar, 2002.
. RIFKIN, Jeremy – O Fim dos Empregos. São Paulo: Ed. Milton Mira de Assumpção Filho, 1995.
. RAMONET, Ignacio – A Guerra dos Mundos. Porto: Campo das Letras, 2002.

Religião

Deixo aqui alguns tópicos que poderão ser úteis para uma reflexão sobre o conceito:

- Quando pensamos etimologicamente em religião como re-ligação, entre o baixo e o alto, entre os homens e Deus, tudo se indicia como se tivesse existido um tempo de separação, ficando como legado a saudade (do re-encontro).

-Não se deve confundir Igreja com Religião. Igrejas há muitas e Religiões também.

-Não se deve confundir Catolicismo com Cristianismo. Cristianismos há muitos – católicos, ortodoxos, protestantes, anglicanos…

-Não se devem, portanto, confundir algumas incongruências católicas ao longo dos tempos (inquisição, venda de indulgências, intolerância religiosa, alianças conservadoras…), com os ensinamentos primordiais de Cristo.

-Falar de Cristianismo é uma coisa diferente de falar de outros sistemas religiosos, como o Judaísmo, Islamismo, Hinduísmo, Taoismo, Animismo, Budismo. (Será que se pode dizer que o Budismo é uma religião?)

-Todas as religiões são concordantes num ponto, embora se lhe refiram de maneira diferenciada: através do cumprimento de determinados princípios e de determinadas práticas é possível, digamos assim, a conquista de níveis de existência mais evoluídos, ou como se costuma dizer entre os cristãos, a salvação da alma.

Para terminar o textinho deixo umas palavras de S. João que me entraram casa dentro, enquanto ia rascunhando estas palavras;

”Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não atrair; e Eu hei-de ressuscitá-lo no último dia. Está escrito nos profetas: E todos serão ensinados por Deus. Todo aquele que escutou o ensinamento que vem do Pai e o entendeu vem a mim. Não é que alguém tenha visto o Pai, a não ser aquele que tem a sua origem em Deus: esse é que viu o Pai. Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Os vossos pais comeram o maná no deserto, mas morreram. Este é o pão que desce do Céu; se alguém comer dele, não morrerá. Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo.»

Evangelho segundo S. João 6,44-51.

Luis Santos

P.S.: Pode comentar este texto em:

http://ceav.blogspot.com/2008/12/o-largo-da-graa.html

Perceberam agora? Foi para isso que a NOVA ÁGUIA nasceu…

1. A questão não está em haver ou não cânones culturais, mas em nos batermos por aquele(s) que consideramos o(s) melhor(es).

2. A natureza tem horror ao vazio (e à anarquia). Havendo ser e tempo, estabelece-se sempre uma ordem, uma diferenciação…

3. Assim também no campo cultural. Há sempre um cânone, uma alta e baixa cultura, um plano superior e um plano inferior…

4. E não vale a pena dizer que esse cânone é meramente circunstancial, meramente histórico. Tudo o que é humano determina-se historicamente – as nossas próprias figurações do divino, as próprias religiões…

5. Assim sendo, a opção não está, pois, em nome de um ingénuo conceito de “igualdade”, não querer discriminar entre alta e baixa cultura. Se nós não o fizermos, outros o farão por nós…

6. Assim sendo, a única opção está pois em nos batermos por aquele que consideramos ser o melhor cânone. Daí, aliás, a NOVA ÁGUIA: das actualmente existentes, que outra Revista dedicaria algum dos seus números a temas como a actualidade da ideia de Pátria e/ou o futuro da Lusofonia?; que outra Revista dedicaria algum dos seus números a figuras como António Vieira e/ou Agostinho da Silva; que outra Revista daria voz, e com destaque, a figuras como António Telmo e/ou Pinharanda Gomes?

7. Perceberam agora? Foi para estabelecer um novo cânone que a NOVA ÁGUIA levantou voo. Nada menos do que isso…

Cinco Princípios para o MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO


I. Para o MIL, a Língua e a Cultura devem ser o eixo de toda a Política, ao contrário do que acontece actualmente, em que a pasta da Cultura é a menos importante de todas.

II. Para o MIL, Portugal deve privilegiar, acima de todas as outras, as relações com os outros países com quem tem afinidades linguísticas e culturais, ou seja, com os países lusófonos, assim aprofundando a actual Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Nessa medida, apoiamos todas as medidas que visem o aprofundamento dessa Comunidade, em prol de uma efectiva União lusófona.

III. Para o MIL, Portugal deve assumir-se, no quadro da União Europeia, como o representante dessa União Lusófona, ou seja, dos cerca de 240 milhões de pessoas que se expressam na nossa língua e não apenas dos 10 milhões que habitam em Portugal.

IV. Para o MIL, essa União Lusófona deveria dar o exemplo de uma outra forma de globalização, assente no comércio justo e não na exploração dos homens e dos recursos naturais.

V. Para o MIL, essa União Lusófona deveria ainda dar o exemplo de uma outra forma de diálogo entre culturas e religiões, contra todos os pretensos “choques de civilização”.

P.S.: Este “post” apenas vincula o seu autor e não deve ser encarado como uma forma de condicionar o debate. Ainda está tudo em aberto: desde logo, o nome do “Movimento” (a votação decorre até às 24 horas de 31 de Dezembro), bem como o articulado do seu ideário. Este é apenas o meu primeiro contributo para essa reflexão conjunta. Procurei tão-só enunciar aqueles que, na minha perspectiva, deveriam ser os axiais princípios desse “Movimento”, da forma mais sintética que me foi possível, e de um modo simultaneamente assertivo e consensual.

Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

O MIL enquanto Movimento, enquanto Dinâmica: muito para além do Acordo Ortográfico…

Quando elaborámos a “Declaração de Princípios e Objectivos” do MIL (Movimento Internacional Lusófono), tivemos como preocupação fundamental apresentar um documento simultaneamente assertivo e aberto. Por isso o nosso apelo a sugestões e críticas não é uma mera figura de retórica…
Uma das críticas que alguns levantaram foi a nossa expressa defesa do Acordo Ortográfico. Sem querer contornar a discussão, ela não me parece, neste momento, muito consequente. O Acordo Ortográfico é já uma inevitabilidade – resta apenas saber quando é que entrará em vigor. Nessa medida, do que se trata, agora, é de realçar as suas virtualidades, prevenindo alguns dos seus potenciais efeitos negativos. Ao contrário do que aqui já se escreveu, não me parece que seja o Acordo que vá eliminar todos os dialectos existentes em todo o espaço lusófono. Do que se trata apenas é de harmonizar a ortografia oficial entre o Brasil e os restantes países lusófonos…
As virtualidades parecem-me óbvias, desde logo no plano externo. Nos palcos internacionais, como na ONU, os documentos não terão que ser mais traduzidos para as duas variantes da língua lusa (o que, convenhamos, é por inteiro absurdo), mas apenas para uma, aparecendo todo o espaço lusófono como um único Bloco…
Através desse Acordo, desde logo, o que o MIL pretende não é senão isso – que os diversos países lusófonos se (re)aproximem, no aprofundamento das suas relações: linguísticas, mas também culturais, mas também económicas, mas também políticas…
O Acordo Ortográfico é apenas o começo desse Movimento, dessa Dinâmica. Tendo o MIL como principal bandeira a “União Lusófona”, estranho seria que não defendesse esse Acordo. Não como fim, mas como princípio. O Acordo que o MIL almeja está para além, muito para além, do plano ortográfico! Haja Vontade…

Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

O que deverá ser o MIL?

Quem algum dia fizer a história da génese do MIL não terá que investigar em nenhum arquivo secreto. Basta ler o que se foi publicando ao longo destes meses neste blogue. Foi tudo sendo feito a céu aberto. Essa é a nossa força, a nossa fra(n)queza…
Com a mesma franqueza de sempre, aqui deixo algumas reflexões acerca do que deverá ser o MIL:

O MIL deve assumir-se como um movimento cultural e cívico, ter como princípio “A Cultura Primeiro” e assumir como seu o lema da NOVA ÁGUIA: “Para um Novo Portugal, uma Nova Comunidade Lusófona e o Novo Mundo”.
Ter como princípio “A Cultura Primeiro” não significa defender “apenas a Cultura” ou que “só a Cultura nos interessa”.
Seguindo o bom exemplo de Agostinho da Silva, defendemos que a Cultura começa pelo Direito à Alimentação, à Saúde, à Habitação, enfim, pelo Direito a uma Vida Digna.
Por isso, aliás, a nossa Declaração de Princípios e Objectivos toma posição sobre muitos desses fundamentais Direitos do Homem (mais ainda, sobre os Direitos de todos os seres viventes…).
Mas é essa visão cultural – sobre o país e sobre o mundo – o nosso sinal distintivo.
Ao contrário de todos aqueles, cada vez mais, no país e no mundo, que subordinam tudo à Economia – “It’s the economy, stupid!” – nós defendemos que todas as decisões que afectam a vida dos portugueses se devem sustentar numa visão cultural do país.

Por isso, aliás, assumimos como maior bandeira a “União Lusófona”, no aprofundamento da actual CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Se subordinássemos a Cultura à Economia, ou à Geografia, ou mesmo à Política, decerto não o faríamos. Geográfica, económica e mesmo politicamente, estamos muito mais próximos de outros países do que dos outros países da CPLP. Assumindo, contudo, uma visão cultural do país e do mundo, tudo se inverte…

A meu ver, é essa visão que faz falta a este país. Actualmente, temos uma Esquerda que, ainda refém das culpas que teve da descolonização que fez, com todas as guerras civis que gerou, vive ainda a sua provinciana paixão europeísta, virando por completo as costas ao mar, à nossa vocação atlântica… Do outro lado, temos uma Direita que, ainda refém das culpas que teve na colonização que sustentou, acha que a nossa vocação atlântica se cumpre no seguidismo em relação à Administração Norte-Americana…
Não há pois nenhuma voz que, publicamente, defenda uma efectiva reaproximação a todos os outros países lusófonos. Essa voz seremos – poderemos ser – nós…

Como já aqui defendi, o facto de essa voz não ter ainda surgido deve-se também a uma questão geracional. Falo desde logo por mim: tenho 34 anos, tinha menos de 3 meses quando se deu o 25 de Abril. Não pendem sobre os meus ombros as culpas e os traumas das esquerdas e das direitas que nos têm (des)governado…

Agora é pois a hora de surgir essa voz. Uma voz liberta dessas culpas e desses traumas, tão liberta que nem sequer pretende acusar alguém. A História foi o que foi. É tempo de, finalmente, olharmos para o Futuro…

A meu ver, o MIL deve pois ser, sobretudo:
1. Um Movimento que assuma, aberta e descomplexadamente, posições públicas: nos jornais e nas revistas, nas rádios, nas televisões, etc.
2. Um Movimento que organize (através dos seus Núcleos) e divulgue (através da Revista NOVA ÁGUIA e do seu blogue) iniciativas relativas à promoção dos laços lusófonos.
3. Um Movimento que seja reconhecido institucionalmente como um interlocutor “incontornável” sempre que se discuta alguma medida relativa à CPLP, à Lusofonia, à Cultura…

Não, ressalvo uma vez mais, que os nossos Princípios e Objectivos se esgotem aí. Simplesmente, a lógica da discussão pública de ideias é a que é… Quando se discutem leis laborais, por exemplo, os “media” vão procurar saber a opinião dos sindicatos; quando se discutem leis ambientais, os “media” vão procurar saber a opinião das associações ambientalistas, etc.

Ainda que tenhamos posições sobre todos esses temas, o que importa é que venham ter connosco sempre se discuta alguma medida relativa à CPLP, à Lusofonia, à Cultura…

Por agora será suficiente. Depois, talvez, devamos ir mais longe…

Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

“A Cultura Primeiro”

O Fundamento de Portugal é a Cultura.
Geográfica, económica e politicamente, Portugal é um absurdo.
Sem essa visão axialmente cultural do país, mais vale defender a nossa plena dissolução na Europa ou em Espanha. Como já aqui defendi, viveríamos bem melhor…

Ao assumir como princípio “A Cultura Primeiro”, o MIL relembra pois o (único) Fundamento de Portugal.
E assume-se, por isso, como uma Voz necessária, tanto mais necessária porquanto essa Voz não existe, publicamente, de forma estruturada.
No plano político, nomeadamente, não há nenhum partido que assuma essa visão cultural do país: à esquerda, porque se continua a considerar, apesar de toda a retórica, que Cultura é o que vem da Europa, em Paris de particular (não por acaso, o Manuel Maria Carrilho, tido como o grande ministro da Cultura do pós-25 de Abril, tinha como modelo o Jack Lang…); à direita, porque se continua a defender, igualmente apesar de toda a retórica, que tudo deve ser decidido, em última instância, pelo Deus-Mercado…

Ao defender que a Língua e a Cultura devem ser o eixo de toda a Política, ao contrário do que acontece actualmente, em que a pasta da Cultura é a menos importante de todas, não vamos certamente defender que o orçamento da Cultura passe a ser financeiramente maior do que o da Saúde ou o da Segurança Social. Não é disso, como é óbvio, que se trata. Trata-se apenas de defender que todas as políticas sectoriais se devem subordinar a essa visão axialmente cultural do país…

Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

O caminho do Horizonte…

Porque o Fundamento de Portugal é a Cultura (ver texto anterior: “A Cultura Primeiro”), o seu Firmamento, o seu Horizonte último, só pode ser a União Lusófona, ou seja, a religação com todos os outros países com quem Portugal tem mais afinidades linguísticas e culturais, ou seja, com todos os outros países lusófonos, obviamente numa relação já por inteiro pós-colonial.

Como, contudo, chegar aí?

O Acordo Ortográfico é um bom princípio, até do ponto de vista simbólico – nos fóruns internacionais, como na ONU, os documentos não terão que ser mais traduzidos para as duas variantes da língua lusa (o que, convenhamos, é por inteiro absurdo), mas apenas para uma, aparecendo todo o espaço lusófono como um único Bloco…

Através desse Acordo, desde logo, o que o MIL pretende não é senão isso – que os diversos países lusófonos se (re)aproximem, no aprofundamento das suas relações: linguísticas, mas também culturais, mas também económicas, mas também políticas…O Acordo Ortográfico será apenas, na nossa perspectiva, o começo desse Movimento, dessa Dinâmica.

Outro passo que se poderia dar, a curto/ médio prazo, seria a criação de um Parlamento Lusófono, com deputados eleitos, tal como acontece para o Parlamento Europeu…

Esse Parlamento, por sua vez, poderia eleger o “Presidente da Comunidade/ União Lusófona”, que seria o sumo representante de todo o espaço lusófono em todos os fóruns internacionais…

Fica a ideia, o Horizonte…

Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

A respeito da “pesada herança” colonial…

Longe de mim negar ou sequer minimizar todos os crimes que se cometeram ao longo da vigência do Império Colonial Português.
Não precisei de ler “O livro negro dos Descobrimentos”, ou qualquer outro, para ter noção de todos esses crimes. Bastou-me o conhecimento prévio de uma das mais axiais leis históricas: sempre que dois povos em diferentes graus de desenvolvimento se encontram, o mais desenvolvido tende a dominar o menos desenvolvido. Foi assim, desde logo, na Península Ibérica, entre os romanos e os “lusitanos”, foi depois assim em África, entre os portugueses e os diversos povos africanos, foi assim, em geral, no resto do mundo…
Reconhecer isso não invalida, contudo, a pertinência do projecto de um estreitamento de relações entre os povos lusófonos. Bem pelo contrário.
Nem sequer uso o argumento de que a colonização portuguesa foi, em geral, menos cruel do que as outras colonizações europeias.
O meu argumento é apenas este: é do interesse dos próprios países de expressão portuguesa a promoção da lusofonia.
Vimos e vemos isso em Timor, bem como em todos os países africanos de expressão portuguesa.
A Lusofonia é para todos esses países, sem excepção, o garante da independência e da coesão nacional.
Por isso são os próprios governos desses países que promovem a língua lusa, por mais que, paralelamente, alguns deles, insistam numa retórica anti-portuguesa, de modo a alimentar a má-consciência de alguns e, sobretudo, a desviar as atenções. Areia para os olhos! Iluda-se quem quiser…

Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

A respeito da ascendência cultural…

Como já aqui escrevi, ter como princípio “A CULTURA PRIMEIRO” não significa defender “apenas a Cultura” ou que “só a Cultura nos interessa”. Muito menos abdicar de ter uma intervenção cívica, inclusive no plano político.
Significa perceber é que no plano da Cultura que, em primeira instância, tudo se joga.
Como escrevi há pouco num comentário, quem tem a ascendência na Cultura acaba, mais cedo ou mais tarde, por ter a ascendência em tudo o resto: Política, Economia, etc.
Basta olhar para a História, para a nossa própria…

Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

A respeito da Petição MIL…

A petição que lançamos hoje, “Por uma Força Lusófona de Manutenção de Paz”, foi muito discutida na Comissão Coordenadora do MIL: Movimento Internacional Lusófono.
Pode haver quem estranhe que a primeira grande campanha do MIL passe pela constituição de uma força (lusófona) policial e militar, ainda que expressamente de “manutenção de paz”.
Não era o que estava previsto: a primeira grande campanha que tínhamos programado seria relativa ao Acordo Ortográfico.
Mas, entretanto, aconteceu o que aconteceu em Timor…
E nós não podíamos, simplesmente, assobiar para o lado, fazendo de conta que não se passava nada.
Por isso enviámos, logo na terça-feira, um comunicado a todos os “media”, por isso lançamos hoje esta petição.
Responde ela a um problema concreto, oferendo uma solução de grande alcance, para prevenção e resolução de outros casos que possam ocorrer no futuro. Assim nos ouçam! Pela nossa parte, não ficaremos (nunca) calados. Que muitas MIL vozes se juntem à nossa…

Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

Troca de mails a respeito da Petição MIL “Por uma Força Lusófona de Manutenção de Paz”

Olá Renato,

Li a petição, mas discordo: como S. S. o Dalai Lama disse, a violência só provoca mais violência, além de ser difícil prever as consequências dela.
Existem, na história, muitos exemplos da acção não-violenta, ou civil, sem uso de arma qualquer. Os exemplos de “tropas de paz”, em Ruanda, Somália, etc., parecem-me falhados.
Porque não “mandar” civilistas, diplomatas, etc.? A guerra da causa justa não existe. Nem a violência!

Amor e Paz,
Andre

Caro Andre

Deixemo-nos de lirismos.
O que é que acontece aos professores e restante pessoal “civilista”, incluindo o das ONGs, sempre que há um conflito armado?
São evacuados!
Para que os professores e restante pessoal “civilista”, incluindo o das ONGs, possam estar em Timor, é preciso que se reúnam as condições mínimas de segurança.
Uma coisa não exclui a outra, ao invés, uma coisa implica a outra.
Ninguém mais do que o MIL pretende que a presença em Timor de professores e restante pessoal “civilista”, incluindo o das ONGs. Como se diz na nossa Petição: “Os recentes acontecimentos trágicos em Timor-Leste deixaram uma vez mais evidente que existe a necessidade imperiosa de uma força policial e militarizada de manutenção de paz que, no quadro da ONU, possa agir no espaço da CPLP com a eficácia, imparcialidade e compreensão da realidade local que outras forças não lusófonas, naturalmente, não podem ter. Sem que isso exclua, obviamente, uma mais ampla acção no plano cívico e cultural, que deve mesmo ser reforçada.”
Por isso…

Abraço MIL
Renato

Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

A Petição MIL e o problema do aquecimento global…

Obviamente, não obrigamos ninguém a assinar a petição. Não obrigamos ninguém sequer a definir a sua posição a sua mesma.
Quem quer continuar em cima do muro, por nós, pode ficar…
Já quem contesta a petição, é bom que não seja intelectualmente desonesto.
Já mais do que uma pessoa veio contestar a nossa petição porque, alegadamente, ela não resolvia os graves problemas sociais e económicos de Timor, como, desde logo, o desemprego. Qualquer dia ainda ouvirei dizer que a petição não defronta o problema do aquecimento global…
Como já aqui escrevi:
1. Timor precisa de forças policiais e militares estrangeiras para garantir condições mínimas de segurança no seu território. Isso é reconhecido pelas próprias autoridades timorenses.
2. Do que se trata, nessa medida, é, tão-só, de decidir que tipo de forças devem lá estar a realizar essa missão. Neste momento, estão lá forças australianas, sobretudo, com os resultados que se conhecem. O MIL defende que lá devem estar, sobretudo, forças lusófonas.
3. Do que se trata, enfim, é apenas de garantir as condições mínimas de segurança de modo a que o mais importante se possa fazer depois: é dito expressamente na petição que o envio dessas forças lusófonas não exclui “uma mais ampla acção no plano cívico e cultural, que deve mesmo ser reforçada”.
4. Não vale pois dizer que, em vez de forças policiais e militares, se deviam enviar professores. Pois o que é que acontece aos professores e restante pessoal “civil”, incluindo o das ONGs, sempre que há um conflito armado? São, de imediato, evacuados!
5. O envio de forças policiais e militares para garantir condições mínimas de segurança não é pois concorrencial com o envio de, por exemplo, professores. É antes condição prévia! Será que é assim tão difícil de perceber isto?

Sábado, 1 de Março de 2008

O único argumento possível contra a petição MIL…

Fora a posição do pacifismo estreme (respeitável, mas, a meu ver, contestável), só há um argumento para (uma portuguesa ou um português) não assinar a Petição MIL “Por uma Força Lusófona de Manutenção de Paz”: considerar que Portugal não deve reforçar os laços com outros países lusófonos, mas, tão-só, apostar na integração europeia.
Curiosamente, esta perspectiva é comungada tanto por algumas correntes de Esquerda como por algumas correntes de Direita. Estas últimas por razões rácicas: por defenderem um “Portugal branco”, europeisticamente “branco”. Aquelas, mais polidas (ou, tão-só, mais hipócritas?), por razões ditas “civilizacionais”.

Sábado, 1 de Março de 2008

Comentário a um comentário do Clavis…

“Na verdade, o âmbito e acção de tal força poderia ser muito mais amplo do que a mera intervenção em Timor. Poderia ser o elo e a presença no mundo de um novo tipo de presença, mais justa e paritária, a erupção de uma nova potência que nada tem a ver com os intereses egoístas e economicistas das potências do passado.”

Não podia estar mais de acordo. Aliás, como já aqui escrevi:
Reconhecendo que a resistência ao capitalismo trans-nacional só se pode fazer num grande Bloco, num grande Movimento inter-nacional, defendo que A União Lusófona poderá ser, para nós, esse Bloco.
No seu conjunto, os países dessa futura União Lusófona têm força suficiente para promoverem um outro tipo de sistema económico. E serem um eventual exemplo para outros países, para outros Blocos…
Nunca fui um daqueles que acham que é a Portugal que cabe “salvar o mundo”. Nem a União Lusófona o fará. Mas pode tornar-se um exemplo de um mundo alternativo. Um exemplo contagioso…

Domingo, 2 de Março de 2008

A Árvore e a Floresta…

É sempre possível discordar de um ou outro ponto da nossa Petição. Há, por exemplo, quem já tenha advertido que a Petição é demasiado minuciosa. Há quem ache, ao invés, que ela é demasiado vaga: que devia, nomeadamente, quantificar o número de efectivos a serem enviados para Timor (como se a Petição fosse apenas sobre Timor…).
É sempre possível ver apenas a Árvore e não a Floresta. Eu próprio não me reconheço por inteiro em alguns pontos da Declaração de Princípios e Objectivos do MIL, que resultou de um esforço de compromisso entre todos os membros da Comissão Coordenadora.
Mas nem por isso deixarei, ainda e sempre, de dar a cara pela Floresta…
Frontalmente! Quem me conhece sabe que tenho o gosto da polémica e que, por isso, até aprecio a divergência, quando ela é igualmente frontal. O que já aprecio menos é a indefinição…

Quinta-feira, 6 de Março de 2008

A Aposta em Agostinho…

Tornou-se hoje um lugar comum dizer que o futuro de Portugal – o futuro da sua língua, da sua cultura – será o que o Brasil for… Ora, quem de nós mais, melhor personifica essa ligação ao Brasil? Sem qualquer dúvida, Agostinho da Silva.
Para além disso, Agostinho da Silva é aquele que mais, que melhor nos liga, na medida em que é aquele que mais, que melhor faz a ponte entre as diversas correntes do pensamento português contemporâneo – nomeadamente, entre a corrente dos discípulos de António Sérgio (por mais que os seus discípulos já não se reconhecem no seu Mestre) e a dos discípulos de Leonardo Coimbra.
Nessa medida, promover a obra de Agostinho da Silva não é apenas promover a obra de um eminente filósofo. É, também, promover o diálogo entre as diversas correntes do pensamento português contemporâneo. É, ainda, promover a nossa ligação ao Brasil (mais amplamente, a todo o espaço lusófono) e, nessa medida, o nosso próprio futuro…

Quinta-feira, 6 de Março de 2008

Provocação à Petição MIL…

Provocação: sendo o MIL um movimento cultural e cívico, porque lança uma Petição de alcance político?

Resposta: a Petição MIL tem, antes de tudo, uma motivação cultural, na acepção simultaneamente mais ampla e profunda. A própria CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), sendo uma criação política, é, antes de tudo, um projecto cultural. Se a CPLP não avança é, de resto, porque se perdeu essa perspectiva. À luz de uma perspectiva cultural do(s) país(es) e do mundo, faz todo o sentido apoiar o reforço da CPLP, em todos os planos. Faz todo o sentido assinar a nossa Petição!

Quinta-feira, 13 de Março de 2008

Fazer a CPLP por baixo, a partir das pessoas…

Ontem, na Assembleia Geral da Associação Agostinho da Silva, discutiu-se obviamente a importância da NOVA ÁGUIA e do MIL: Movimento Internacional Lusófono.

Defendi o que sempre tenho defendido: a NOVA ÁGUIA e o MIL vão dar uma projecção muito maior à Associação Agostinho da Silva, muita maior ainda do que esta já teve em 2006, aquando das Comemorações do Centenário do Nascimento de Agostinho.

Desde logo porque este é um projecto simultaneamente mais amplo e profundo. Ao ser um projecto que não está apenas centrado na figura de Agostinho, temos connosco muitas pessoas que de outro modo não estariam. Depois, porque não se trata de celebrar pessoas, mas ideias…

Ontem alguém teve uma frase luminosa a respeito deste projecto: o que nós estamos a fazer é a CPLP por baixo, a partir das pessoas…

É disso mesmo que se trata! E já temos connosco mais de 450 pessoas de todo o espaço lusófono. Que outras tantas se juntem a nós…

Quinta-feira, 13 de Março de 2008

Breve reflexão acerca do MIL…

O MIL: Movimento Internacional Lusófono tomou, até ao momento, posição sobre três questões:
1. O reforço da CPLP, através da criação de uma “Força Lusófona de Manutenção de Paz” (teor da petição que lançámos), a propósito do que aconteceu em Timor (objecto também de um primeiro comunicado).
2. A ratificação do Acordo Ortográfico (que só não foi objecto de uma Petição porque, entretanto, o Governo Português, finalmente, desbloqueou a sua posição).
3. A defesa dos direitos dos tibetanos face à ocupação chinesa (aí não lançámos petição alguma; limitámo-nos a apoiar uma Petição já existente).

Já nos incitaram a tomar posições sobre outros temas. A esse respeito, defendo que o MIL deve ser prudente e não cair na tentação de tomar posição sobre tudo, sob pena da sua voz se banalizar. Mas, obviamente, há espaço para a discordância. Quem achar que o MIL deve tomar posição pública sobre um qualquer tema, deve enviar-nos uma mensagem nesse sentido, de modo a que a Comissão Coordenadora do MIL possa depois tomar uma decisão.

Quanto às três referidas questões, houve também espaço para a discordância:
- houve quem tivesse achado a iniciativa mais consensual a referente ao Tibete; ao invés, houve quem tivesse achado que o MIL não se devia ter pronunciado, dado o Tibete estar fora do espaço lusófono.
- houve e há quem seja contra o Acordo Ortográfico.
- finalmente, há pessoas que, tendo aderido ao MIL, não assinaram a nossa Petição.

A esse respeito, expresso a minha opinião pessoal:

A medida mais consensual que o MIL tomou foi a petição “Por Força Lusófona de Manutenção de Paz”. A esse respeito, recordo a resposta de Amândio Silva, da Comissão Coordenadora do MIL: “Se isso visa o reforço da CPLP, não vejo como (um membro do MIL) possa ser contra”. Também, pela minha parte, continuo a não ver…

Quanto ao Acordo Ortográfico, defendo-o pessoalmente mas não o considero tão decisivo. O reforço da CPLP, grande objectivo do MIL, poder-se-ia fazer, em teoria, sem o Acordo. Mas já que finalmente chegámos a ele, o MIL não pode deixar de o apoiar, com a ressalva que o Acordo que defendemos está muito para além do plano ortográfico – como já escrevi a esse respeito: “O Acordo Ortográfico pode ser, a esse respeito, um bom princípio, até do ponto de vista simbólico – nos fóruns internacionais, como na ONU, os documentos não terão que ser mais traduzidos para as duas variantes da língua lusa (o que, convenhamos, é por inteiro absurdo), mas apenas para uma, aparecendo todo o espaço lusófono como um único Bloco… Através desse Acordo, desde logo, o que o MIL pretende não é senão isso – que os diversos países lusófonos se (re)aproximem, no aprofundamento das suas relações: linguísticas, mas também culturais, mas também económicas, mas também políticas… O Acordo Ortográfico será apenas, na nossa perspectiva, o começo desse Movimento, dessa Dinâmica.”.

Finalmente, considero que a posição do MIL relativamente ao Tibete, não tendo sido despropositada, foi a que, por razões óbvias, menos teve a ver com a nossa Declaração de Princípios e Objectivos. O MIL, fazendo jus ao nome, deve sobretudo preocupar-se com o que se passa no espaço lusófono. Ainda que não só. Só assim cumpriremos a nossa vocação universalista…

Sábado, 15 de Março de 2008

A segunda PETIÇÃO MIL

Foi há poucas horas lançada mais uma Petição MIL: a segunda.

A primeira “POR UMA FORÇA LUSÓFONA MANUTENÇÃO DE PAZ”, esta “EM PROL DE UMA MAIS RÁPIDA IMPLEMENTAÇÃO DO ACORDO ORTOGRÁFICO”.

As razões, uma vez mais, são óbvias: defendendo o MIL o reforço dos laços entre os países lusófonos, em todos os planos, não podíamos deixar de defender o Acordo Ortográfico. Ainda que, como decorre da nossa “Declaração de Princípios e Objectivos”, o Acordo que defendemos entre os países lusófonos tenha um alcance muito mais vasto. Mas este Acordo Ortográfico pode ser um bom princípio para esse mais vasto Acordo…

Realçamos que esta é a primeira petição on-line que defende expressamente o Acordo Ortográfico – contra, já há várias….

Exortamos todos os membros do MIL a subscrever esta Petição. Mas, obviamente, ninguém está obrigado a fazê-lo, tal como aconteceu com a anterior.

O MIL é um Movimento que reúne já quase meio milhar de pessoas. Há já, por isso, muitas sensibilidades entre nós…

Esperamos, uma vez mais, que este blogue seja o espaço onde todas essas sensibilidades se exprimam com inteira liberdade.

Mesmo aqueles que estão contra o Acordo: há uns minutos, por coincidência, estive a ouvir uma entrevista ao Vasco Graça Moura, um dos mais fervorosos adversários do Acordo Ortográfico. Dos vários argumentos que enunciou, só um me pareceu relevante: os legítimos interesses das Editoras Portuguesas. Mas se o Acordo Ortográfico é, como dever ser, uma Política de Estado, cabe ao Estado compensar as Editoras para os prejuízos imediatos…

Domingo, 16 de Março de 2008

O MIL, A CULTURA E A POLÍTICA

Algumas pessoas têm questionado o cariz alegadamente “político” das duas Petições MIL: “POR UMA FORÇA LUSÓFONA MANUTENÇÃO DE PAZ” e “EM PROL DE UMA MAIS RÁPIDA IMPLEMENTAÇÃO DO ACORDO ORTOGRÁFICO”.
Respondo por mim: ambas as Petições, tendo implicações políticas, radicam numa visão estruturalmente cultural do país e do mundo.
É por ter uma visão estruturalmente cultural de Portugal que defendo o reforço dos laços com todos os outros países lusófonos.
Desconfio, de resto, daqueles que separam em absoluto Cultura e Política.
Mais: rejeito, a priori, toda a pretensa Política não radicada na Cultura. A Política ou é Cultural ou não é…

Segunda-feira, 17 de Março de 2008

O Horizonte, o Caminho e o Acordo Ortográfico…

Conforme expressamente se afirma na nossa “Declaração de Princípios e Objectivos”, o MIL tem um Horizonte: a “União Lusófona”.

Esse Horizonte, por si só, define o nosso Caminho – o aprofundamento da CPLP, o reforço dos laços entre os países lusófonos, em todos os planos: cultural, económico e político.

Naturalmente, entre aqueles que aderiram ao MIL (neste momento, já quase meio milhar de pessoas) há várias sensibilidades. Há aqueles que querem ir mais depressa e aqueles que preferem ir mais devagar. O que é legítimo e até benéfico – desde que, obviamente, isso não ponha em causa o Caminho do MIL.

Até ao momento, houve apenas uma pessoa que “desaderiu” do MIL. Fê-lo por causa da nossa defesa do Acordo Ortográfico.

Poderia não tê-lo feito: é possível apoiar o aprofundamento dos laços entre os países lusófonos sem defender o Acordo Ortográfico. Como já aqui escrevi: “O reforço da CPLP, grande objectivo do MIL, poder-se-ia fazer, em teoria, sem o Acordo. Mas já que finalmente chegámos a ele, o MIL não pode deixar de o apoiar, com a ressalva que o Acordo que defendemos está muito para além do plano ortográfico.”.

Se, entre os nossos aderentes, há alguém que não defenda o Acordo, isso, por si só, não é pois motivo para sair. O único motivo será o de recusar o nosso Caminho, o nosso Horizonte…

Quarta-feira, 19 de Março de 2008

O triângulo: Associação Agostinho da Silva (AAS), NOVA ÁGUIA e MIL

Por decisão da respectiva Direcção, depois anunciada em Assembleia Geral, a Associação Agostinho da Silva (AAS) assumiu-se com a sede sul da NOVA ÁGUIA e como a sede nacional do MIL: Movimento Internacional Lusófono.

Estas três entidades (AAS, NOVA ÁGUIA e MIL) formam, pois, um triângulo.

Como é óbvio, esse triângulo manter-se-á enquanto houver vontade de ambas as partes. A NOVA ÁGUIA e o MIL não vinculam todos os sócios da AAS. Pode pois acontecer que, no futuro, uma outra Direcção que não a actual queira questionar esse vínculo. A minha posição está registada em Acta: não vinculando este projecto todos os sócios da AAS, faz todo o sentido que a AAS o apoie: desde logo, porque este é um projecto expressamente inspirado no ideário de Agostinho da Silva; finalmente, porque este é um projecto que irá dar uma projecção à AAS que esta nunca teve, mesmo aquando das Comemorações do Centenário de Agostinho da Silva, que decorreram em 2006. De resto, isso já se traduz em números: a AAS não chega à centena e meia de sócios; este projecto aproxima-se já do meio milhar de adesões…

O vínculo da NOVA ÁGUIA e do MIL é ainda mais forte. O MIL é, aliás, uma entidade gerada no seio da NOVA ÁGUIA, o movimento cultural e cívico prefigurado no nosso “Manifesto”. E por isso se assume a NOVA ÁGUIA como “o órgão do MIL”.
Ainda assim, a distinção faz sentido.
A NOVA ÁGUIA (blogue e revista) é um espaço de discussão, polifónico, que valoriza maximamente a pluralidade de perspectivas.

O MIL é um movimento de opinião, mais programático, com uma “Declaração de Princípios e Objectivos”, que assume posições públicas bem determinadas, através da sua Comissão Coordenadora, a uma só voz. Daí o facto de haver pessoas que colaboram na NOVA ÁGUIA sem estarem vinculadas ao MIL…

Segunda-feira, 31 de Março de 2008

Fim de Ciclo?…

Na passada semana, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, perante uma plateia de cerca de meia centena de pessoas, defendeu o Professor Joaquim Domingues que estávamos a chegar ao fim de um ciclo histórico, ao fim do ciclo histórico iniciado com o Marquês do Pombal.

Como sintomas de um novo ciclo emergente, indicou dois exemplos. Apenas dois, a saber:

- o “surpreendente grau de adesão” às Comemorações do Centenário do Nascimento de Agostinho da Silva.
- o “surpreendente grau de adesão” ao Projecto da NOVA ÁGUIA e do MIL: Movimento Internacional Lusófono.

Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

A respeito das 2 Petições MIL…

Um mês e meio depois, a primeira Petição MIL, “POR UMA FORÇA LUSÓFONA DE MANUTENÇÃO DE PAZ”, aproxima-se finalmente do meio milhar de assinaturas. A outra, lançada mais recentemente, “EM PROL DE UMA MAIS RÁPIDA IMPLEMENTAÇÃO DO ACORDO ORTOGRÁFICO”, ainda não chegou a metade desse valor.

Sob esse prisma, dirão alguns que estas duas petições foram um relativo insucesso. Considero essa análise curta, muito curta. Vejamos as coisas por outro prisma, mais largo.

Antes de mais, importa salientar que ambas as Petições foram lançadas no respeito pela nossa Declaração de Princípios e Objectivos, em particular, pelo Horizonte que nessa Declaração se prefigura: a cooperação lusófona, em todos planos (daí a primeira petição); a assunção de uma única língua para todo o espaço da Lusofonia (daí a segunda petição). Seja ou não essa “visão estratégica” uma visão popular, nós não a mudaremos…

Depois, ambas as Petições geraram um muito interessante debate neste Blogue: a respeito da primeira Petição, muitos salientaram que ela não perderá a actualidade; se ela já não irá a tempo de produzir efeitos em Timor, a constituição de uma FORÇA LUSÓFONA DE MANUTENÇÃO DE PAZ, a constituir-se, como aliás está consagrado nos estatutos da CPLP, ainda virá a ser muito útil. O futuro o dirá, quando voltar a acontecer algo de similar num qualquer outro país lusófono…
Quanto à segunda, a controvérsia foi bem maior, como de resto, pessoalmente, já esperava: há várias pessoas que, tendo aderido ao MIL, consideram que a Convergência Lusófona não passa necessariamente pela implementação do Acordo Ortográfico. Estão no seu direito, como nós estamos no nosso: o MIL não podia deixar de ter posição sobre o Acordo e, a tê-la, não podia deixar de ser, por coerência, a favor. Ainda que, como sempre aqui tenho dito, o Acordo que o MIL almeja está muito para além do plano ortográfico…

Finalmente, ambas as Petições fizeram-nos crescer bastante. Como se pode verificar na última página deste Blogue, ambas as Petições foram noticiadas em mais trinta jornais, sites, blogues, etc. Muita gente ficou a conhecer o MIL por causa delas e, em virtude disso, registámos um acentuado crescimento nas nossas adesões.

Eis, pois, em suma, o que mais importa: continuar a crescer, na fidelidade a nós próprios…

Terça-feira, 1 de Julho de 2008

Foi você que pediu um “passaporte lusófono”?

A Polónia anunciou hoje que não irá ratificar o Tratado de Lisboa. O que significa que, depois da Irlanda, ele recebeu o segundo “prego”, ficando definitivamente crucificado. Para mais, a Polónia não é a Irlanda. É um país demasiado grande para se esconder debaixo do tapete, como o Directório Europeu quis fazer com a Irlanda…

Não é preciso ser adivinho para perceber que o processo da União Europeia irá fatalmente regredir. Esta sempre foi uma construção artificial, em grande medida motivada pelo trauma da II Guerra Mundial, por um particular clima económico favorável, com a paternal assistência norte-americana…

Portugal não irá deixar de seu um país europeu por isso. Somos o mais antigo país europeu e não precisamos de, provincianamente, querer provar essa condição a toda a hora…

Precisamos antes de pôr de novo os olhos no mar, retomando os laços com o mundo lusófono. Eis o caminho que o MIL preconiza, conforme se pode ler na nossa Declaração de Princípios e Objectivos…

Uma das medidas que nessa Declaração de Princípios e Objectivos se enuncia é o “passaporte lusófono”, idealizado por Agostinho da Silva, com vista a, gradualmente, permitir a livre-circulação no espaço lusófono.

Agora que a União Europeia está a começar a regredir, não acham que é altura de se começar a avançar para esse objectivo?

Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

Mudança de Paradigma, de Horizonte…

O que pretendemos com esta nova Petição MIL – “Contra a Directiva do Retorno e em prol do Passaporte Lusófono” –, tal como com as outras duas, em particular com a primeira (“Por uma Força Lusófona de Manutenção de Paz”), é, nada menos de isso, propor um novo Paradigma para Portugal. Um novo Paradigma, um novo Horizonte…

Portugal tem que reencontrar a sua razão de ser, ou seja, o sentido histórico da sua cultura, tal como ele foi prefigurado pelos nossos maiores pensadores, nomeadamente, por Agostinho da Silva.

Reencontrando esse sentido histórico, o caminho só pode ser esse: religarmo-nos, progressivamente, aos outros povos lusófonos, fazendo, em última instância, da Lusofonia em espaço único…

Não que para isso tenhamos que deixar de ser europeus. Portugal é o mais antigo país europeu. É pois ridícula esta obsessão de fazermos, a todo o instante, prova da nossa condição de europeus. Se alguém a tem que fazer, não somos, decerto, nós…

O que não podemos é, contudo, ficar reféns dessa Europa-Fortaleza, fechada em si própria, e assim renegar esse nosso sentido histórico de abertura ao mundo, em particular, ao mundo lusófono…

Obviamente, para muita gente, esquecida que está ou ignorante que é desse sentido histórico, o que o MIL propõe é demasiado temerário, demasiado ousado…

Olhem então para a Grã-Bretanha, por exemplo: acham que ela vai alguma vez renegar a sua singularidade (em todos os planos, nomeadamente no da sua política externa) para se anular numa Europa pretensamente una?…

Segunda-feira, 14 de Julho de 2008

Ainda sobre a nova Petição MIL…

É muito fácil arranjar argumentos para não subscrever a nova Petição MIL: quando se fala do “passaporte lusófono”, logo alguns levantam o fantasma de uma invasão*.

Quem, contudo, ler com atenção (e com boa-fé…) o texto da Petição poderá verificar que a proposta é gradualista. De resto, ainda no próprio texto da Petição se diz que “o MIL compreende e aceita que os fenómenos migratórios tenham que ser regulados”.

Nessa medida, e concretizando: cada vez mais, no espaço europeu, a política de imigração passa pelo estabelecimento de quotas. Pois bem: o que propomos, à luz desta Petição, é que essas quotas sejam preferencialmente preenchidas por imigrantes lusófonos…

Mas, obviamente, é bem mais fácil fazer caricaturas: também não se costuma dizer que o Agostinho da Silva era contra o trabalho?…

* Curiosamente, algo de similar aconteceu com a primeira Petição: na altura, houve algumas almas que acharam que nós queríamos (re)invadir Timor…

Terça-feira, 15 de Julho de 2008

Ainda sobre a nova Petição MIL (II)

Para além de querermos ver o país invadido pelos nossos irmãos lusófonos ou de querermos invadir os nossos países-irmãos da CPLP, outra acusação que já aqui nos fizeram é de termos uma linguagem “proto-identitária”: por falarmos no sentido histórico da nossa Cultura, da nossa destinação, da nossa vocação, etc., etc., etc. E também a de querermos “impor” a visão dos nossos grandes pensadores – nomeadamente, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva – a todo o povo português, o qual, alegadamente, não tem que estar refém do que os nossos antepassados fizeram e/ ou pensaram…

A esse respeito, três breves notas:

1. Acusar a NOVA ÁGUIA e o MIL de terem uma linguagem proto-identitária é tão bizarro como, por exemplo, acusar o PCP de ter uma linguagem proto-marxista. Não é defeito, é feitio…
2. Falaremos e continuaremos a falar do sentido histórico da nossa Cultura, da nossa vocação, da nossa destinação, etc., etc., etc. Sem querer impor nada a ninguém, tanto mais porque essa destinação (e daí a diferença com o termo destino) é um caminho largo, uma “via aberta”, para usar uma expressão cara a José Marinho.
3. Decerto, os portugueses de hoje podem renegar por inteiro o que os melhores de ontem fizeram e/ ou pensaram. Mas o que acontece a todo aquele que renega o melhor de si? Melhor, com certeza, não fica…

Segunda-feira, 28 de Julho de 2008

José Ramos-Horta, Presidente da CPLP?

A VII Cimeira da CPLP cumpriu-se.
Portugal parece, enfim, perceber o seu potencial geo-estratégico.
O Brasil já o tinha percebido há muito, os outros países africanos também, cada vez mais. Há a excepção de um ou outro, ainda refém de alguns complexos coloniais. Nada que o tempo não cure de vez…

A Presidência Portuguesa quis fazer, e muito bem, desta Cimeira a “Cimeira da Língua”. Daí a importância dada ao Acordo Ortográfico que, pela voz de Luís Amado, nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros (para quando o Ministro da Lusofonia?), pode mesmo entrar em vigor já em 2011. Ou seja, já daqui a três anos, como o MIL, (ir)realisticamente, defende na sua Petição…

Também se deram alguns passos na facilitação de “vistos”. Ainda estamos bem longe do “passaporte lusófono”, mas o caminho faz-se caminhando…

Para que a CPLP ganhasse outra projecção, a nível internacional, falta contudo, a meu ver, uma voz, um rosto. Alguém que, enquanto Presidente da CPLP, a pudesse representar nos grandes fóruns internacionais…

A escolha não é óbvia, mas, ao ouvir hoje uma entrevista a José Ramos-Horta, actual Presidente de Timor, ocorreu-me a ideia de que ele seria uma boa escolha. Por várias razões:
- é uma pessoa com prestígio internacional (foi, não o esqueçamos, Prémio Nobel da Paz);
- é um diplomata, bem conhecido nos fóruns internacionais, nomeadamente na ONU;
- não é nem português nem brasileiro (o que, para evitar suspeitas neo-imperialistas, é uma vantagem);
- não é branco nem preto e as suas feições são simultaneamente ocidentais e orientais.

Fica (mais um)a ideia…

Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

MANIFESTO “NOVA ÁGUIA” REESCRITO AO AGRADO DE ALGUMAS PESSOAS…

1. A “Pátria” não existe. É uma mera invenção para as massas ignorantes.

2. Não existe, igualmente, qualquer “vocação histórico-cultural da comunidade lusófona”. Todas as “vocações” são irredutivelmente individuais. Todas as pretensas “vocações” colectivas são fascizantes.

3. Não existe, de resto, qualquer “comunidade lusófona”. A língua que as pessoas falam não afecta o pensar (pois que a língua é um mero instrumento do pensar) nem, muito menos, caracteriza a identidade de cada um.

4. Aliás, a “identidade” de cada um também não existe.

Sábado, 4 de Outubro de 2008

Troca de mails a respeito do MIL e da Europa…

O que defendemos é que Portugal deve reforçar os seus laços com os outros países lusófonos. Isto sem renegar a nossa condição europeia. Para o bem e para o mal, sempre fomos e sempre seremos europeus…
Quanto ao actual modelo político da União Europeia, a minha opinião pessoal é que ele não vai resistir muito mais tempo aos “ventos da História”. Mas isso só o futuro o dirá…

A questão do modelo político da Europa, como o de todos os outros modelos políticos, é o articular da melhor forma o Uno com o Múltiplo, para mais sendo o Múltiplo tão forte…

Com o alargamento efectuado da União Europeia a muitos países da Europa de Leste, que ainda não cessou (a Turquia é outra questão…), acentuou-se, por contraponto, uma dinâmica pró-Directório Europeu. Que não é um mero fantasma: hoje mesmo, o actual Presidente da União Europeia, o sr. Sarkozy presidiu a uma “cimeira” com os seus homólogos inglês, alemão e italiano…

Ora, eu não aceito que a Europa seja governada pela França, Inglaterra, Alemanha e Itália. Se é esse o modelo político para o qual se caminha, eu digo não…

Defendo, ao invés, uma Europa em que todas as Pátrias façam ouvir a sua voz. Ainda que em prejuízo de uma quimérica “voz comum”, nomeadamente no plano externo. Pela própria natureza das coisas, nunca a Europa terá uma política externa verdadeiramente comum…

Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

Alguns esclarecimentos

.
Em resposta a alguns comentários/ pedidos de esclarecimento que aqui têm sido publicados, ou que me têm chegado por e-mail, ou, ainda, que me têm sido colocados pessoalmente, tenho a esclarecer que:

1. O MIL continuará a ser o que é: como se diz no ponto 1 da sua Declaração de Princípios e Objectivos, um “movimento cultural e cívico (que visa mobilizar a sociedade civil para repensar e debater amplamente o sentido e o destino de Portugal e da Comunidade Lusófona)”. Ou seja, o MIL não será refundando nem como movimento político, nem como movimento ético-espiritual, nem como qualquer outra coisa. Sem que isto implique, obviamente, que qualquer um de nós renuncie às suas crenças ético-espirituais e/ ou às suas convicções políticas.

2. Nessa medida, o MIL não renega nenhuma das posições públicas que tomou. O último comunicado que emitiu (sobre a actual situação na Guiné-Bissau) foi, de resto, aprovado na última reunião da Comissão Coordenadora do MIL. Não só não renega como continuará a tomar posições públicas sobre todos os assuntos que lhe parecerem relevantes no quadro da sua “Declaração de Princípios e Objectivos”.

3. Para que o MIL não se torne, contudo, apenas num movimento “inter-naútico”, estamos a agendar uma série de encontros na nossa sede (Associação Agostinho da Silva), para debate dos temas que nos pareçam mais adequados. Estes encontros terão ainda a vantagem de propiciarem um maior conhecimento mútuo das pessoas que a este projecto já aderiram. Ainda que isso já venha acontecendo nos múltiplos lançamentos da NOVA ÁGUIA…

4. Nesse mesmo sentido, iremos igualmente em breve enviar a todos as pessoas que aderiram entretanto a este projecto um inquérito, de modo a auscultar a sua opinião.

5. Por fim, um esclarecimento mais de ordem pessoal: não mais farei apelos públicos a quaisquer “recentramentos nos debates”. Ao contrário do que algumas pessoas julgam, não tenho vocação para censor… Dito isto, continuarei fiel ao apelo que aqui fiz: neste blogue e no âmbito deste projecto, só discutirei questões que, a meu ver, lhe digam directamente respeito.

Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Por um “patriotismo lusófono-universalista”

.
Fazendo uma análise mais fina sobre as duas respostas do “Inquérito aos membros do MIL” relativas à questão da Pátria, parece-me que o conceito que, à luz dos resultados, mais facilmente poderá ser aceite por todos será o de “patriotismo lusófono-universalista”.

Sem o querer impor a ninguém, será esse o conceito que doravante usarei nos meus textos mais relativos ao MIL…

O Estandarte da Paz

A Língua Portuguesa vive finalmente em paz.

Parece que foi desta que o povo mártir de Angola pôde organizar a sua vida sem a preocupação das nefastas guerras que se arrastavam há mais de quarenta anos, sendo agora necessária a maior rapidez na desminagem do território, de forma a poupar vidas inocentes, e na reorganização do país, para que se vença de uma vez o triste cenário da miséria e da fome.

E se, em relação a Angola a notícia não podia ser melhor, o mesmo se dirá sobre a independência de Timor, o mais jovem país do mundo, o oitavo membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que tudo fazendo para não chegar atrasado ao novo século, venceu a guerra civil e a ocupação indonésia, e poderá, agora, num espírito de fraternidade democrática, concentrar as energias na melhoria das más condições de vida do seu povo.

Tenhamos igualmente esperança que os recentes conflitos ocorridos na Guiné-Bissau possam ser ultrapassados e que o povo guineense possa também em paz continuar a construção democrática que se iniciou também com a independência do país.

A história que eu quero contar aqui começou, quando em resposta a uma carta minha, o Professor Agostinho da Silva (um dos autores pioneiros da ideia de uma Comunidade de Povos de Língua Portuguesa) me referiu uma Livraria que havia em Setúbal, a Livraria Uni Verso, onde se organizavam uns encontros culturais, subordinados a variadíssimos temas: poesia, literatura, história, física… Salvo erro, designavam a Livraria por “Casa de Estudos” e promoviam o que chamavam de “Estudos Gerais”.

Setecentos anos atrás, o rei D. Dinis transferia, de Lisboa para Coimbra, a primeira Universidade Portuguesa e iniciava o “Estudo Geral”. Também nesta altura e, ao que parece, inspirada por um tal abade Joaquim de Flora, a Rainha Santa Isabel, iniciou a prática em Portugal do Culto Popular do Espírito Santo. No Domingo de Pentecostes, abriam-se as prisões, dava-se de comer a quem tinha fome e coroavam-se as crianças e os pobres como imperadores do Mundo, num simbolismo que se devia alargar ao resto do ano e do mundo. Entrávamos, então, conforme pensavam, na Terceira Idade do Mundo, a Era do Espírito Santo, aquela que ligaria o Céu e a Terra.

Através dessa Livraria fui dar com o reavivar desse Culto Popular que em alguns lugares de Portugal, como Sintra, Tomar e, sobretudo, nos Açores, mas também no Brasil e em Comunidades Portuguesas dos EUA, são cultos vivos, desde há muito. Foi o Professor Agostinho da Silva, mas também o poeta e ensaísta António Quadros quem “apadrinhou”, em Setúbal, tal ritual. E é, assim, que se cruza toda a história de Portugal, indo quase até às origens da nacionalidade, mais propriamente ao centro do reinado de D. Dinis, onde no seio da Ordem de Cristo, aquela que sucedeu à Ordem do Templo, se começaram a pensar “Os Descobrimentos”.

E justiça à Ordem seja feita, pois que foi, sobretudo, de expansão da fé cristã que se tratou, e não de simples comércio como querem alguns. Tanto que tivemos, uns anos mais tarde, o Infante D. Henrique, figura de proa da Expansão, Mestre da Ordem, que haveria de dar expressão ao Projecto. Ele e todos os outros. Se depois a coisa virou negócio, isso já é contar só uma parte da história, porventura aquela que terá menos interesse, porque muito de humanas luxúrias e invejas se trata. No fundo, o que mais interessava (e interessa) é o que está do lado de lá da existência humana, o que mais, então, se procurava e se queria colocar no centro do mundo.

É também por ele, D. Dinis, que hoje falamos Português. Foi ele que no século XIII oficializou a Língua Portuguesa. É ela o principal marco da nossa identidade. Foi através dela que pudemos testemunhar o discurso de Xanana Gusmão a assinalar um Timor Leste independente, ou as recentes declarações de paz que promoveram o reencontro entre todos os angolanos, a pôr fim a uma guerra civil que só peca por chegar com algum atraso.

Mas digamos, desde já, que se foi D. Dinis que instituiu a Língua Portuguesa, tendo-se depois espalhado pelo mundo, por países e comunidades, tal como a conhecemos hoje, da mesma forma ela aqui chegou, proveniente de outras raízes (celta, galaica, romana, grega, árabe), constituindo-se Portugal como seu utilizador e mediador.

Parece agora, finalmente, ter chegado o tempo de se falar a Língua Portuguesa sem a obsessão da guerra. É, por fim, chegada a Hora, de se agarrar no estandarte da paz que jaz aí estendido no chão. Talvez seja esse o nosso destino: levar paz e religião ao mundo. O Projecto precisa de continuar.

Foi bom, foi mau? Deveria ter sido assim, deveria ter sido assado? Daqui em frente terá de ser melhor? Sem dúvida, e quem souber que o diga, sempre sem esquecer o respeito e o amor que merece cada qual e, por extensão, cada Língua.

Decerto que hoje Portugal transborda das suas fronteiras pela Língua Portuguesa. O nosso país será hoje muito mais, do que simplesmente o seu espaço físico entre o continente e as ilhas, deste ocidental canto europeu. Eu diria que Portugal se relaciona hoje com o mundo, sobretudo, em três frentes principais:

Primeiro, na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, onde se afirma a Língua uma razão de Ser. Segundo, na União Europeia, mantendo todo um diálogo necessário com as grandes potências económicas, sem nos desligarmos de toda esta materialidade de ponta que se define, antes de mais, pelo grande desenvolvimento científico e tecnológico. Terceiro, numa relação ainda algo incipiente, mas não menos importante, na constituição de um bloco Ibero-sulamericano, onde mais uma vez nos surge a extrema importância da proximidade linguística.

Será, sobretudo, pela afirmação da nossa Língua no mundo, mas obviamente no respeito por todas as outras que nos deveremos empenhar.

Luís Santos

Economias Locais: a visão de E. F. Schumacher

Quando em 1955, o economista E. F. Schumacher viajou até à Birmânia como consultor económico não sabia que estava prestes a produzir uma das suas mais importantes obras; “Economia Budista”. Nessa obra sublinhava a importância do “bom trabalho” no desenvolvimento económico e – especialmente – que “a produção de recursos locais para satisfazer necessidades locais era a forma mais racional de vida económica”.

Depois da sua viagem à Birmânia, Schumacher faria muitas outras viagens por outros países do Terceiro Mundo procurando-os convencer a desenvolverem economias auto-suficientes, advogando que estas deviam ser erguidas em torno daquilo que chamaria de “tecnologia intermédia”, uma classificação que agrupava tecnologias amigáveis, acessíveis e ecológicas.

Para Schumacher, a produção local é a melhor forma de conhecer a história ecológica e humana por detrás da manufactura de cada produto industrial ou agrícola. Só assim terá o consumidor verdadeiras hipóteses de saber que tipo de matérias-primas, de que forma foram extraídas ou produzidas, como foram processados os subprodutos ou desperdícios da sua produção e, sobretudo, que tipo de recursos laborais e de que forma de condições foram aquelas que estiveram na base da sua produção. Esta Localização da produção é o oposto exato das Deslocalizações de produção para países do Extremo Oriente que afastam dos consumidores a produção e que permitem as condições laborais e ambientais barbaras que se praticam em países como a China e o Vietname e que estando na base dos baixos custos de produção, não seriam possíveis se os consumidores desses mesmos produtos tivessem que conviver com as consequências ecológicas e ambientais dessa produção, nem se tivessem conhecimento direto – por amigos ou familiares – das condições laborais e humanas que a produção desses bens implica.

Adicionalmente, se a produção é Local, os produtos não precisam de ser transportados a longas distâncias consumindo combustíveis fósseis, poluindo a atmosfera e aumentando as emissões de CO2. Adicionalmente, uma região que utilize a sua força laboral na produção do essencial dos bens que consome está também mais blindada contra as oscilações da economia mundial e contra crises económicas globais como aquela que galopa hoje descontroladamente pelo mundo.

Enquanto cidadãos, o economista alemão acreditava na possibilidade de cada consumidor assumir uma atitude moral nos seus padrões de consumo. O ato de consumir não se esgota assim na mera satisfação de uma necessidade – real ou forjada pela publicidade – mas numa escolha criteriosa que responsabiliza social e ecologicamente todos os agentes económicos. Por isso, o modelo de Economia Local, implica um elevado nível de consciência cívica e de informação.

Cada comunidade local deve procurar bastar-se nos produtos mais básicos como alimentos, vestuário e energia e depender de importações apenas complementarmente e em produções mais especializadas. Por regra, toda a produção que implica volume físico dilatado deve ser local, e todo o bem ou equipamento que exige um elevado nível técnico ou um alto grau de especialização, pode ser produzido localmente, e exportados os seus excedentes. Uma comunidade que se consiga organizar localmente, serve de exemplo para as vizinhas e deixa propagar o seu exemplo contaminante pela região onde se insere. Importa assim fundar uma primeira comunidade seguindo estes moldes, não instaurar o modelo súbita e genericamente em toda uma região ou país, de forma segura e consistente, num único local ou município e depois deixar florescer esse exemplo.

Qualquer sistema económico depende do diálogo harmónico de três factores: terra, trabalho e capital. Por terra, entenda-se além do território, também os recursos naturais que a produção exige, como as matérias-primas, a energia e o espaço físico necessário para a cultura agrícola ou para a instalação da fabrica ou do armazém. O Trabalho é o esforço necessário para fazer a matéria-prima mudar de estado e forma, tornando-se no bem ou serviço consumido. Por fim, o Capital consiste na capacidade organizativa dos dois recursos anteriores: Terra e Trabalho, na energia polarizadora desses recursos e na disponibilidade mobilizadora de ambos. Só o Capital poderá organizar a produção e possibilitar a distribuição dos bens produzidos, sendo assim um aspecto sempre importante de qualquer atividade económica. Compreender esta arquitectura trilateral é essencial para desenvolver Economias Locais prosperas e estáveis.

O elemento primário desta trilogia é a Terra. Sendo primário a uma Economia Local, este elemento deveria ser realmente propriedade de alguém? A terra deve pertencer à comunidade que nela habita, não a um indivíduo em particular, porque só assim poderá realmente participar no desenvolvimento da Economia Local. Não quer isto dizer que somos contra a propriedade privada. Quer dizer que somos contra a propriedade privada da terra e que defendemos neste contexto o conceito de “não propriedade” ou “propriedade comunal” como a que ainda subsiste nalgumas aldeias portuguesas e que era comum nos “bailios” medievais portugueses. O modelo é hoje usado nos EUA sob a forma das “Community Land Trusts” que a E.F.Shumacher Society tem promovido e apoiado.

Nos EUA, as “Community Land Trusts” são empresas não lucrativas com um quadro de diretores democraticamente eleito. As suas terras resultam de ofertas e aquisição e são alvo de um plano de desenvolvimento que se rege pelas necessidades de consumo locais. Os edifícios construídos sobre essas terras comunais são propriedade privada, mas não o solo sobre o qual foram construídos e se forem vendidos, o seu valor deve ser oferecido à “terra comunitária” (Land Trust) ao valor dispendido apenas na sua construção. O proprietário pode assim conservar o produto do trabalho aplicado sobre a terra, mas não a própria terra, que permanece sempre nas mãos da comunidade.

Nos Estados Unidos há perto de 150 “terras comunitárias”. Sobrevivendo em relativa prosperidade, pela sua escassa área, estas parcelas de solo comum ainda não lograram cumprir a totalidade das suas promessas e dependem ainda da sua expansão e do apoio devoto de muitos entusiastas.

O Capital é o segundo elemento determinante da trilogia económica schumacheriana. O economista admite ao Capital o papel de simples ferramente de obtenção de crédito e de facilitar trocas numa comunidade. Oferecendo o controlo da emissão de moeda a uma coligação de Bancos (o modelo do FED, nos EUA) ou a um Banco Central, mais ou menos governamentalizado (Europa), estamos a criar um sistema onde o grandes emprestadores são favorecidos em relação aos pequenos e a favorecer a concentração bancária excessiva que esteve na raiz do quase colapso do sistema financeiro na presente recessão mundial: concentrar a Banca, pela via das fusões e aquisições sucessivas, criando um pequeno número de mega-bancos, é introduzir um imenso factor único de falha no sistema, porque quanto maior fôr a escala mais difícil será a um governo salvar o banco da falência e maior será o impacto do seu colapso na Economia real. A centralização bancária favorece também a centralização e a aparição de monopólios noutros sectores da economia, já que os grandes bancos preferem emprestar a grandes empresas, de escala semelhante à deles e assim tornam-se inimigos das pequenas e médias empresas e sobretudo, das empresas que apenas têm uma escala e um mercado local, já que favorecem as de vocação exportadora e globalizadas, ou seja, aquelas que pela sua essência, lhes são semelhantes.

Um dos cernes da proposta económica shumacheriana é precisamente o combate a esta concentração e a este monopólio do Capital. Democratizando o Capital pelo estabelecimento de moedas locais, opostas e complementares a moedas nacionais e favorecendo o estabelecimento de bancos de pequena dimensão que as emitam e financiem o consumo e a produção locais.

Nestes três factores de produção falta abortar o mais importante: o Trabalho. Sem a dignificação do trabalhador, com horários e retribuições humanas e razoáveis será impossível assegurar uma economia local minimamente estável.

Nas novas Economias Locais antecipadas por Schumacher, os bens consumidos na região, serão essencialmente produzidos na mesma região, sempre seguindo formas de produção sustentadas, na perspectiva ecológica, social e respeitando os valores e identidades culturais locais. Esta combinação só pode ser alcançada através da injecção de doses massivas de inovação e criatividade no tecido económico local e recorrendo invariavelmente a tecnologias intermédias, de pequena escala física e de capital e capazes de serem implementadas recorrendo apenas aos recursos energéticos locais. Quando os trabalhadores têm acesso a baixo custo à terra e dispõe de Capital a juros baixos podem criar os seus negócios e empresas locais, de pequena e média escala. Esta aproximação entre a propriedade e a produção significa que a riqueza produzida será distribuída de uma forma muito mais equitativa. Neste esquema o papel do consumidor não pode ser passivo ou acrítico, escolhendo apenas o produto que é mais barato, mas aquele que é mais “económico” agindo como um consumidor que escolhe segundo a sua própria consciência cívica e ecológica. E é nosso dever moral apoiar as empresas locais, em que a propriedade seja dos seus próprios trabalhadores em regime comunal (terra e edifícios) ou cooperativo, porque esta é a forma que melhor garante uma distribuição equitativa dos rendimentos do trabalho.

A construção de economias locais sustentáveis é crucial para a sobrevivência do Homem sobre a Terra. Só elas podem oferecer o tipo de pegada ecológica que protege o clima (pela sua escala), o património ecológico local e as especificidades culturais locais.

No livro “As Cidades e a Riqueza das Nações”, Jane Jacobs defende que a melhor estratégia para o desenvolvimento económico é apostar industrias capazes de produzir produtos que são atualmente são importados, e transformar matérias primas produzidas localmente, através do Trabalho local. Estas industrias locais são exatamente o oposto das atuais fabricas das multinacionais que abrem e fecham de um dia para o outro, deslocando-se pelo mundo fora ao sabor dos custos de mão-de-obra mais baixos. Inversamente, as empresas locais são mais resistentes aos caprichos da Globalização e estabelecem fortes ancoras locais de desenvolvimento, emprego e progresso.

Uma economia local verdadeiramente autónoma exige a fundação de novas organizações que a possam apoiar. Estas organizações não podem ser governamentais, têm que brotar da comunidade e alimentarem-se da sua dinâmica e do seu voluntarismo. Falamos de associações de consumidores e produtores, cooperando umas com as outras, as primeiras promovendo a partilha de informação sobre um consumo moderado, ético e local, as segundas agregando produtores e recolhendo benefícios da gestão em escala, organizando a produção e partilhando a distribuição e o armazenamento. Estas organizações terão apenas escala local, mas poderão formar confederações nacionais para efeitos de contacto, partilha de “boas práticas” e para manutenção de trocas que possam completar especificidades e necessidades locais. Estas entidades – privadas, porque detidas por indivíduos – trabalharão na comunidade e para a comunidade, respeitando o solo, a terra e usufruindo dos recursos naturais e energéticos de forma sustentável.

A construção deste novo edifício não será fácil nem rápida. Obriga a uma alteração radical dos nossos comportamentos e implica uma modificação profunda dos nossos padrões de consumo: consumir menos e melhor, no sentido em que cada escolha de consumo deve respeitar critérios éticos e deixar de consumir tantos bens materiais e mais bens culturais. Os Homens devem renegar o papel de consumidores passivos onde os neoliberais os querem encaixar e passar a ser co-produtores e criadores de riqueza material e de conteúdos culturais. A instauração de Moedas Locais, de quintas comunitárias, de fundos de capital comunitários, de micro-empresas detidas pelos próprios empregados e de alianças entre empresas locais, todos estes instrumentos poderão ser usados, rua a rua, de grupo de amigos para grupo de amigos, de cidade em cidade, gradual mas seguramente até alcançar todo o país.

Fontes:

http://www.smallisbeautiful.org/local_currencies/2004_conference_report.html
http://www.smallisbeautiful.org/
http://en.wikipedia.org/wiki/E._F._Schumacher
http://www.sustainablelivingsystems.org/Building%20a%20Local%20Economy-%20adapt%20fr%20S.%20Witt.doc
Local Currencies in the Twenty-First Century:
Understanding Money, Building Local Economies, Renewing Community;  Susan Witt and Christopher Lindstrom of the E. F. Schumacher Society

Mandado de despejo aos mandarins do mundo. Fora!

“Balanço patriótico:

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, – reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta”

- Guerra Junqueiro, “Anotações”, Pátria [1896], Porto, Lello & Irmão, s. d., p.185.

“Das feições de alma que caracterizam o povo português, a mais irritante é, sem dúvida, o seu excesso de disciplina. Somos o povo disciplinado por excelência.

[…]

Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos dito, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem? As poucas figuras que de vez em quando têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira coisa que fazem? Organizam um partido… Caem na disciplina por uma fatalidade ancestral”

- Fernando Pessoa, “A Doença da Disciplina”, in Elogio da Indisciplina e Poemas Insubmissos, s.l., C.E.P, s. d., pp.5 e 7 [grafia actualizada].

O perturbante aumento da actualidade das palavras de Guerra Junqueiro, 112 anos depois, agudiza ainda mais a mesma actualidade das de Pessoa. Entram no lombo como bandarilhas. Os portugueses deixaram de fazer jus aos seus antepassados lusitanos, deixaram de ser o “estranho povo” “que não se governa, nem se deixa governar”, referido pelo ditador romano Gaius Julius Caesar. Perderam a insubmissão que primeiro lhes recortou fronteiras e depois lhes rasgou todas as fronteiras, tornando-os viajantes do mundo. Hoje, não só se governam, no desenrascanço da sobrevivência quotidiana, como sobretudo se deixam governar, por toda a espécie de lobbys político-económicos e culturais, nacionais e trans-nacionais. Governam-se deixando-se (mal) governar, espoliados de memória e aspiração, tempo e energia, inquietação e reflexão, espoliados social, política e economicamente. Escravos do trabalho que têm e não têm, não possuem tempo senão para trabalhar ou procurar trabalho, sempre ao serviço dos seus donos, as forças político-económicas trans-nacionais, os seus títeres nacionais e as obscuras forças mentais e pulsionais que avassalam o mundo por fora e por dentro de cada consciência.

Se este diagnóstico se quadra a Portugal, que dizer das demais nações lusófonas? Serão os seus estados e sociedades mais justos e as suas populações mais conscientes, em termos individuais e colectivos? Serão as suas vidas mais isentas de servilismo perante as grandes potências político-económicas e mentais da globalização triunfante e os seus agentes nacionais?

Neste quadro, recordo o melhor que ouvi na primeira conferência pública organizada pelo MIL, em 24 de Janeiro, sobre o futuro da CPLP. Foi Miguel Real, ao afirmar que a Lusofonia só faria sentido se dela resultasse um “choque cultural” à escala mundial, uma transformação profunda do modo de conceber e realizar o sentido da existência humana no mundo. Na verdade estas palavras encarnam a essência daquilo a que Camões, António Vieira, Pascoaes, Pessoa e Agostinho da Silva chamaram Portugal e comunidade lusófona: o contributo para uma profunda transformação mental e cultural do próprio homem, com a consequente expressão numa nova civilização a nível planetário, universal e trans-lusófona. Estas palavras encarnam a essência da proposta consagrada na Declaração de Princípios e Objectivos do MIL.

Todavia, perante a situação mental, cultural e sócio-político-económica das nações lusófonas, cabe perguntar: como? Será que a sua mera aproximação, nos quadros da CPLP ou noutros, contribuirá realmente para isso? Ou, pelo contrário, essa aproximação, mantendo-se tudo como está, não virá apenas alimentar e reforçar a opressão a que os povos lusófonos estão neste momento sujeitos pelos agentes nacionais, culturais, políticos e económicos, do sistema mundial dominante? Será possível esse “choque cultural” no quadro das actuais ideias e práticas, sem uma profunda transformação de cada nação lusófona e de cada lusófono? Não duvido, tenho a certeza de que não. Como tenho a certeza de que, pensando o contrário, não estaremos senão a forjar uma ficção ideal com a dupla função de nos consolar da realidade adversa e de sancionar a recusa da sua transformação. Com isso nos arriscamos a que os esforços feitos no sentido da aproximação lusófona sirvam antes os actuais senhores do mundo, que actualmente tão bem movem as peças lusófonas no xadrez mundial.

Com efeito, de que “choque cultural” planetário, de que “Quinto Império” seremos o embrião se continuamos tão disciplinadamente submissos, como os burros de carga de que fala Junqueiro, carregando nos esfalfados lombos todos os donos do mundo e, pior, a nossa esperança reduzida ao quotidiano fardo de palha e a nossa ideia de que de outro modo não pode ser? Que objectivos do MIL se cumprirão sem um profundo questionamento da nossa passividade individual e colectiva, sem uma profunda transformação das nossas ideias e práticas, sem uma radical exigência de maior justiça social e económica, de maior responsabilidade cívica e política, de maior despertar mental e cultural nas nações de língua portuguesa? Onde estão as propostas nesse sentido, semelhantes às da secção portuguesa do MIL? Onde estão, nos crescentes aderentes ao MIL, as iniciativas de debate da Declaração de Princípios e Objectivos, solicitadas há mais de ano e meio? Onde estão outras iniciativas, além dos lançamentos da “Nova Águia”? Onde está a criatividade? Para que se adere ao MIL? Apenas para dizer que se pertence a qualquer coisa, assinar petições e postar num blogue?… E ficar à espera?

Sim, Pessoa, tens razão: “Portugal precisa dum indisciplinador”. Não, Pessoa, não tens razão: Portugal precisa que os portugueses deixem de, como também escreveste nesse mesmo texto, estar “sempre à espera dos outros para tudo”. Portugal precisa que cada um de nós se indiscipline, se não submeta, se insurreccione. Primeiro contra si mesmo e depois contra tudo o que oprima. Portugal precisa que cada um de nós se empine e lance ao chão a mente estúpida, conformista e balofa que nos governa, logo seguida de todos os que nos montam. Portugal precisa que cada um de nós se inquiete e desperte, tornando essa inquietação e esse despertar contagiantes, desde a nossa vizinhança a todo o mundo.

Só então, homens de pé e não burros de carga, teremos autoridade para erguer a voz e bradar, apontando o caminho de saída:

Mandado de despejo aos mandarins do mundo. Fora!