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Depoimentos Vídeo sobre a Lusofonia

Depoimento de António d’ Orey Capucho sobre a Lusofonia
Presidente da Câmara Municipal de Cascais

Depoimento de Miguel Real sobre a Lusofonia
Professor e Ensaísta

Depoimento do Professor João Duque sobre a Lusofonia
Presidente do ISEG e Professor Universitário

Da ideia de Pátria ao sentido de Portugal e da Comunidade Lusófona

I – Cada pátria é um lance em devir do e no infinito, imponderável e metamórfico jogo do mundo. Um lance do modo como esse jogo se joga pelos indivíduos e povos em comunidade de terra e céu, língua e cultura, história e trans-história. Um lance onde se entrelaçam os lances do modo individual e comunitário de viver o in-ex-istir (o ser em e a partir de) em união-cisão no fundo sem fundo e absoluto de tudo, a matriz primordial e lúdica que a cada instante se re-vela (se manifesta ocultando-se) na totalidade do universo e no imo de todo e cada ser. Um lance onde se entrelaçam e entrelançam os modos individuais e comunitários de viver a ilusão e a realidade, o visível e o invisível, a liberdade e a necessidade, o trabalho e a vacância, a alegria e a dor, a paz e a guerra, o amor e a morte, o tempo e a eternidade.

II – Cada pátria procede do modo como indivíduos e povos jogam o e se deixam jogar pelo jogo do mundo, radicando por seu intermédio no fundo ignoto a partir do qual a cada instante se descobre e inventa a realidade. Cada pátria, povo, língua e cultura é uma irradiação de energias criadoras, uma atmosfera espiritual e psicofísica que se expressa e recria nos homens, nos seres visíveis e invisíveis, nas forças do céu e da terra, na natureza e na paisagem, na convivência de todos entre si e com a totalidade do in-ex-istente. Cada pátria, povo, língua e cultura é uma potência em devir e metamorfose contínuos, tal como tudo quanto in-ex-iste, modulando-se na dinâmica trama da interdependência universal em função do modo como nela a cada momento se plasmam as energias do espírito e da matéria mediante a acção individual e colectiva processada pelo sonho, imaginação, pensamento, sentimento, palavra e actos físicos. Cada pátria, povo, língua e cultura assume assim vários níveis de manifestação e inscrição no lúdico e dinâmico corpo do mundo, desde os mais interiores e subtis da atmosfera rarefeita em que mais intimamente consiste e se enraíza nas visões, aspirações e inquietações dos indivíduos em comunidade, aos mais exteriores, densos e grosseiros das condições materiais de existência e da organização sócio-económico-política. Estes níveis interagem, embora os mais subtis, desde que operativamente consciencializados, subordinem os mais grosseiros, tal como na relação entre as dimensões profundas da mente e o corpo físico dos indivíduos humanos. Uma meditação, uma oração, um poema ou um pensamento, desde que invoquem e manifestem o, ou irrompam a partir do, fundo primordial de tudo, podem ser mais decisivos para o destino de uma pátria, povo, língua e cultura do que todos os decretos, constituições, movimentos, reformas ou revoluções aparentes, se estas não ultrapassarem o domínio da exterioridade e não modificarem o íntimo núcleo das consciências e das vidas.

III – Cada pátria, povo, língua e cultura, mais um poder ser e um devir criador do que uma essência ou id-entidade definida e definitiva, assume todavia, ao longo do tempo, figuras simbólicas singulares que re-velam e prefiguram o curso e o sentido do seu íntimo modo de jogar o jogo do mundo. Essas figuras são os símbolos e metáforas fundamentais de uma cultura, o modo pelo qual nela se expressa o seu âmago inefável, o “não sei quê” da sua atmosfera e da sua alma, o profundo cerne pelo qual se articula com a relação mais íntima que indivíduos e comunidades entretêm com a totalidade e o seu fundo absoluto. Essas figuras não só emergem nas grandes obras da cultura popular e erudita e nos próprios homens que as criam e recriam, mas também nas acções individuais e colectivas, com nome ou anónimas, visíveis ou invisíveis, patentes, entremostradas ou ocultas no corpo em devir da história do mundo. Certos homens, mais sensíveis – por natural empatia ou pontual distracção das ocupações-distracções quotidianas – a essa vida latente das coisas e da comunidade mais próxima onde se inscrevem, dão-lhes privilegiada voz e protagonismo: podem ser os chamados loucos, inspirados, poetas, profetas, pensadores, artistas, heróis, educadores, guias, bem como, em momentos excepcionais de aproximação da vida colectiva à sua oculta intimidade, o homem comum e o povo anónimo do qual aqueles são inseparáveis.

IV – O lance de cada pátria, povo, língua e cultura no infinito jogo do mundo entrelaça-se e entrelança-se nos lances de todas as demais pátrias, povos, línguas e culturas, entrelaça-se e entrelança-se nos lances de toda a comunidade humana e cósmica. Cada pátria está ligada a todos os homens, a todos os seres e a todo o universo na dinâmica trama da interdependência universal e nos múltiplos níveis da sua constituição, do mais grosseiro ao mais subtil.

V – Porque no fundo sem fundo e matriz lúdica do mundo o nada-tudo poder ser é mais real, amplo e rico do que o ser isto ou aquilo, enquanto possibilidade já de-terminada e actualizada, o lance de cada pátria no infinito jogo do mundo é mais fecundo pelas possibilidades que entreabre do que pelas que realiza, aquelas que realiza são mais fecundas pelas possibilidades que entreabrem e as mais fecundas das possibilidades realizadas são as que entreabrem a possibilidade de se reconhecer o fraterno entrelaçamento de todas as pátrias, povos, línguas e culturas, bem como de todos os homens e seres, no imenso corpo em devir do jogo do mundo e no fundo sem fundo da sua matriz primordial. A esta luz, o mais fecundo sentido de cada pátria, e logo a sua mais elevada missão, é contribuir para essa visão da totalidade e do infinito em cada fenómeno, ente e aspecto parcial da realidade, ou seja, para a gestação, em cada indivíduo, de uma consciência iluminada e solidária, planetária e universal.

VI – O lance mais fecundo do aspecto do jogo do mundo chamado Portugal, cultura e comunidade lusófona, o lance mais fecundo da sua lusitana i-lusão (ou, etimologicamente, do seu jogar-se criador/decriador, em que todo o lance decria e recria o que resulta do anterior), é precisamente a saudade da matriz primordial e o sentido da dinâmica e fraterna totalidade nela inscrita, a saudade/sentido desse espaço sem limites onde a cada instante se constela a totalidade em devir do in-ex-istente e se entrelaçam todas as pátrias, povos, línguas e culturas, todos os seres e todos os mundos. Essa saudade – do e no eterno instante que transcende passado, presente e futuro – , é não só memória-desejo, mas simultaneamente vislumbre e comunhão desse âmago festivo da manifestação onde, sem sacrifício da sua superabundância criadora, nenhuma das potências e figuras do jogo do mundo se separam e todas fraternamente se adunam: Império do Espírito Santo, Ilha dos Amores, Quinto Império. Estes os símbolos e metáforas fundamentais da nossa cultura e da sua íntima energia criadora, simultaneamente os mais singulares e os mais universais, revelados, recriados e protagonizados por algumas das suas figuras humanas mais paradigmáticas, elas mesmas simbólicas: Dinis e Isabel, o povo que viveu e vive, até hoje, o culto popular do Espírito Santo, Luís de Camões, Bandarra, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Raul Leal, Natália Correia, Agostinho da Silva, entre muitos outros, conhecidos ou não.

Império do Espírito Santo, Ilha dos Amores, Quinto Império, a Saudade que é a sua alma e espírito mais profundos – não do passado nem do futuro, mas do sempiterno instante da Presença-Ausência total – , eis a nossa vocação e possibilidade mais funda e, por isso, mais autêntica, aquela que nos pode investir como autores conscientes de um destino aberto, aquela que nos elege para que a possamos eleger.

VII – Movidos pela saudade/sentido do primordial e festivo âmago da totalidade em devir, Portugal e a comunidade lusófona, em fraterna colaboração com todas as pátrias, povos, línguas e culturas onde a mesma ou semelhante vivência e vidência desponte, têm uma imensa tarefa e responsabilidade em relação a toda a humanidade e comunidade cósmica. A tarefa de se porem ao seu serviço, o serviço do bem do mundo, ou seja, de todas as possibilidades de aumento da fraterna consciência do todo e do seu íntimo fundo sem fundo, convertendo isso em vida plena e renovada, pela libertação de tudo o que, material, social, cultural, psíquica e espiritualmente, oprime os homens e os seres. A nossa tarefa é aprendermos o que de melhor nesse sentido cada cultura descobriu e descobre, aprofundá-lo, praticá-lo, conjugá-lo e partilhá-lo com todas as culturas e povos. Só assim reduziremos o atraso em que de há muito estamos relativamente à evolução da consciência do sentido de Portugal e da comunidade lusófona, de Camões a Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva: converter-nos num espaço espiritual e mental, cordial e físico de pontes, transições, mediações, diálogos e intercâmbios entre povos, culturas, civilizações, ideologias, religiões e irreligiões, entre Norte e Sul, Ocidente e Oriente, passado e futuro; converter-nos numa pátria alternativa mundial, que dê exemplo de ser livre do comum egoísmo nacional e nacionalista veiculando ideias, valores e práticas tão universais e benéficas que todos os cidadãos do mundo nelas se possam reconhecer, independentemente das suas nacionalidades, línguas, culturas, ideologias e religiões. Uma pátria-mátria-frátria que esteja sempre na primeira linha da expansão da consciência, da defesa dos valores humanos fundamentais e das causas humanitárias, da sensibilização da comunidade internacional para todas as formas de violação dos direitos humanos e dos seres vivos e do apoio concreto a todas as populações em dificuldades. Uma pátria alternativa mundial que promova uma globalização distinta da que hoje triunfa e morre, arriscando arrastar consigo o planeta: não a da ignorância, da ganância e da opressão, mas a da sabedoria e do amor, da liberdade e da criatividade. Uma pátria trans-patriótica, que realize e cumpra a sua superior possibilidade no encaminhamento das consciências individuais para a realização do bem universal.

VIII – Para tal há que refundar Portugal. Porque o Portugal que (mal) sobrevive institucionalmente existe para cumprir outros fins e funções: a integração no sistema que planetariamente falha, porque só triunfa à custa da felicidade dos povos e dos indivíduos e da regressão das suas faculdades superiores de conhecer, amar e criar; porque só triunfa à custa da possibilidade de continuar a existir. Há que criar uma nação alternativa, fiel ao sentido da pátria-mátria-frátria profunda e universal que no mais íntimo dos nossos corações reside. Essa é a tarefa das novas confrarias que devem ser os núcleos do Movimento Internacional Lusófono espalhados por Portugal e por todo o mundo: associações de consciências livres, fraternas e solidárias, que antecipem desde já, nas suas intenções, actividades e vidas, o novo Portugal, a nova comunidade lusófona e o novo mundo a que aspiram.

Novas confrarias, de irmãos servidores do bem comum, que, libertas dos regimes e instituições do passado, podem desfraldar hoje uma nova bandeira: branca e imaculada como o espaço livre e incriado que a tudo engloba; no centro a esfera armilar, símbolo da totalidade, da perfeição e do abraço cósmico; ao centro da esfera armilar o escudo português com as cinco quinas, símbolo da renovada continuidade do impulso que nos funda e de muito mais, a promessa e potencialidade do Quinto Império, símbolo e realidade da consciência plena, fraterna e universal.

Valete, Fratres !

Saúde, Irmãos !

DO FUTURO DA LUSOFONIA (Rui Martins)

1. O que é a “Lusofonia”?

Antes de nos dedicarmos ao tema “O Futuro da Lusofonia”, é preciso, antes do mais, procurar saber o que é hoje a “Lusofonia”…

A “Lusofonia” não pode ser descrita como a classificação que reúne todos aqueles que falam uma forma ou variante da língua portuguesa, essa descrição castradora e redutora não explica nada e, na sua esterilidade, esgota o significado da palavra. Ainda que nos possamos deixar seduzir pela pura interpretação etimológica do termo, não o devemos fazer porque tal implicaria desprezar o facto de que cada palavra tem uma alma própria e que a alma da palavra “Lusofonia” extravasa em muito o seu simples valor enciclopédico.

2. Introdução

A Lusofonia e o seu espaço não se esgotam nos oito países membros da CPLP. Existem ainda lusófonos em locais tão diversos como Goa, Malaca, Flores e na nossa muito próxima geográfica e emocionalmente, irmã Galiza. É esta dispersão que nos deve levar a encarar a Lusofonia como uma “herança” dos povos que comungam a língua portuguesa, mas como uma promessa de futuro.

É impossível separar a Lusofonia da inclinação messiânica patente na mentalidade portuguesa. Desde cedo, provavelmente ainda antes da própria nacionalidade, com Sertório e Viriato, se podia localizar no ânimo destas gentes na sua luta desigual contra a maior potência da sua época, uma certa teimosia de carácter que contradizia a crua rudeza dos factos. A energia que alimentava esta resistência vinha do mesmo fundo messiânico que, depois, reencontramos em Fernão Passos, no seu panegírico a D. João I e, depois em António Vieira, Fernando Pessoa e, em tempos mais recentes, em Agostinho da Silva. Esta energia messiânica, propulsou os marinheiros, exploradores e navegadores da Expansão portuguesa pelo mundo fora, cravando sementes de Lusofonia nos locais onde o império ultramarino se foi estabelecendo e, quando estas partes do Império ganharam autonomia e independência a Lusofonia ganhou um novo vigor e dinamismo. Ao escolherem a independência e, simultaneamente, a língua portuguesa como matriz unificadora, estes países africanos, o Brasil e Timor deram ao português uma nova relevância e importância.

A Lusofonia é a encarnação moderna de outros mitos de antanho, que atravessaram o corpo mítico da alma portuguesa desde o dito Milagre de Ourique e que no passado eram reconhecidos como “Quinto Império” ou “Império do Espírito Santo”. A Lusofonia, assim como a União Lusófona que poderá ser a sua mais plena e pura evolução consiste assim na forma contemporânea que esses mitos assumem hoje.

A forma que a Lusofonia vai assumir no mundo é – acreditamos – bem diversa dos impérios universais que dominaram no passado a Terra. Não estamos mais em momento de ver o mundo ser dominado por uma grande superpotência, como a Inglaterra do século XIX ou dividido por dois grandes eixos, como o Estados Unidos e a União Soviética. O século XXI é a época das potências médias, como a Índia, a China e o Brasil… A Rússia, cerne fundamental da antiga União Soviética, está esgotada e em erosão demográfica acelerada e os EUA entraram num profundo e duradouro de declínio, consumidos a partir do interior por uma crise económica profunda e por uma guerra esgotante no Iraque. A China, tida por muitos como a grande potência do século, não tem ainda a força económica e militar capaz de justificar esse papel, e começa, também ela a dar sinais de um lento, mas progressivo declínio… O mundo será pois das potências médias e do delicado equilíbrio estabelecido entre elas, o que devolverá ao diálogo e à negociação um papel inédito na História do Homem. Não havendo assim uma única ou um par de superpotencias, o “Quinto Império”, expressão suprema da Lusofonia não poderá ser material, militar ou mesmo económico. Terá que ser uma construção mental, um arquétipo revivificado de eras passadas, exactamente como anteviu Vieira na sua “História do Futuro”: “É conclusão, e de fé, que este Quinto Império de que falamos, anunciado e prometido pelos profetas, é o Império de Cristo e dos cristãos (…) contudo, a sentença comum dos santos e recebida e seguida como certa por todos os expositores é que (…) é Império da Terra e na Terra (…) espiritual no governo, espiritual no uso, nas expressões e no exercício.” A mesma noção foi depois recuperada por Fernando Pessoa: “Não há separação essencial entre os povos que falam a língua portuguesa. Embora Portugal e o Brasil sejam politicamente nações diferentes, contêm, por sistema, uma direcção imperial comum, a que é mister que obedeçam.” e, mais adiante: “Acima da ideia do Império Português, subordinado ao espírito definido pela língua portuguesa, não há fórmula política nem ideia religiosa, (…) Condições imediatas do Império da Cultura é uma língua apta para isso, rica, gramaticalmente completa, fortemente nacional.”

3. A “Lusofonia” e as demais “-fonias” do Mundo

Poderíamos depurar e dissecar o significado de “Lusofonia” comparando-o com outras designações da mesma classe, como as palavras que são usadas para descrever a utilização da língua inglesa ou francesa, mas, de facto, não podemos usar “Lusofonia” da mesma forma que podemos falar de “anglofonia” ou “francofonia”. Se estes termos designam sobretudo diferenças técnicas e operativas quase puras, em que o factor económico é fundamental para que alguém se mantenha na esfera destas duas grandes línguas universais, já a carga emocional da “Lusofonia” – o falar português – é muito mais profunda e cultural do que a mera partilha da mesma língua da antiga potência colonial.

4. Saudade, Saudade do Futuro e Pós-Saudade

A Utopia da Lusofonia é a transposição para o futuro da “Saudade”, um sentimento muito lusófono e especialmente intenso nos portugueses cujo impacto negativo tem arrastado gerações a um encravamento no imobilismo e ao seguidismo servil dos últimos séculos. Mas a Saudade não é apenas um termo que se esgota no passado. A Saudade é também uma ponte mental e linguística para o futuro. Assim, “saudade do Futuro” ou “Pós-Saudade” e “Lusofonia” ou “Quinto Império”, ou ainda, “União Lusófona”, são, de facto, sinónimos e manifestações da mesma realidade. Sendo “Pós-Saudade”, a Lusofonia é um sentimento colectivo inclinado para o futuro. A expressão física da Lusofonia vai passar necessariamente pela sua transmutação de um organismo cultural e transnacional, numa instituição social e política, mas também transnacional, erguida a partir do protoplasma constituído pela língua portuguesa e pela comunhão dos seus falantes, protoplasma esse que julgamos reconhecer na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) cujo desenvolvimento deve ser para todos aqueles que crêem no futuro da Lusofonia e na mais completa expressão da “alma portuguesa”, uma primeira prioridade.

5. Da Diversidade do “Espírito da Lusofonia”

Pelas suas raízes culturais e linguísticas, a Lusofonia é profundamente diversa das formas de imperialismo económico, militar e político que brotaram dos países de matriz cultural germânica. Pela sua diferença é uma forma de sociedade menos paternalista e neocolonial do que os impérios que hoje utilizam o processo da “Globalização” para fazer afirmar o seu poder no mundo. Nenhum país da Lusofonia tem hoje a expressão militar, económica ou demográfica suficientes para que isoladamente possa influir significativamente nos destinos do mundo. Nenhum dos seus países é uma ameaça militar ou territorial para nenhum dos seus vizinhos. Nenhum país lusófono acolhe na sua matriz cultural e religiosa os radicalismos hoje em dia infelizmente tão comuns e viçosos em tantos países do terceiro e do segundo mundo. Pela característica comum a todos os povos lusófonos que é da sua capacidade miscigenadora, tão evidente no Brasil, em Angola e até em Portugal, os países desta futura “Comunidade Lusófona” serão capazes, como mais nenhuns de federar, de unificar pelo exemplo da coexistência religiosa e étnica outros países. Primeiro, semeando o exemplo, e colhendo o fruto deste, entre os países latinos e da bacia do Mediterrâneo, e expandindo pacificamente e voluntariamente esta “Comunidade Lusófona” até uma “Comunidade Latina”, cumprindo o sonho de Agostinho da Silva, depois, por fim, este núcleo trans-continental, unindo todos os povos de fala castelhana e portuguesa estará pronto para alavancar o próximo voo: o de formar uma União Mundial, coesa, diversa e pacífica, que encerre definitivamente o triste e sangrento capítulo bélico da História Humana e que, assim, enfim, permita que o Homem alcance a sua mais plena realização, que é a realização do Eu, pela supressão do mesmo, a favor do bem comum, da realização e do cumprimento da plena criatividade humana sem o dispêndio de energias e recursos preciosos e sempre escassos em atividades belicistas e fratricidas, como aquelas que consomem tanto tempo e recursos a tantos países deste nosso turbulento mundo.
Uma das maiores forças da Lusofonia e um critério que ela detêm quase em absoluta exclusividade com outras línguas universais é a natureza da sua dispersão que resulta muito menos de uma colonização massificada ou de um imperialismo militar ou até de uma explosão demográfica, mas muito mais de uma diáspora migrante que lançou os esporos da Lusofonia e os implantou pelo mundo fora. A sobrevivência da língua e da cultura Lusófonas em locais tão inesperados e inadequados ao seu desenvolvimento, como as pequenas comunidades portugueses nos países do primeiro mundo de expressão anglófona ou germanofóna, entre goeses, em Malaca, na Malásia, ou nas Flores e na Índia profunda, exprime a sua resilência e instinto de sobrevivência.

6. Portugal e o Brasil: Papel respectivo na “liderança” da Lusofonia

Portugal, pela história e pelo seu património, é a matriz mental e geográfica do português. Mas poderá ser ainda hoje considerado como a referência absoluta da língua? Sendo imparciais, tanto quanto nos é possível sê-lo a partir da nossa própria nacionalidade, temos que admitir que hoje, o Brasil, pelo gigantismo da sua geografia, pelo número simples da sua população e até, e sobretudo pelo dinamismo da sua economia tem todas as condições para se assumir como líder deste movimento pan-lusófono que julgamos reconhecer no destino coletivo dos povos lusófonos. Por “liderança”, significa que agora, encerrado o capítulo dos “impérios mundiais”, devemos procurar no Brasil, a nova capital de um império lusófono que se estenda de Díli a Lisboa? Não o cremos… os tempos não o permitem mais… Hoje em dia, assistimos à deprimente e lenta agonia do melhor e mais poderoso exército da história mundial nos pobres subúrbios de Bagdade e Mossul, e este exemplo devia ensinar-nos que não poderemos ver “tropas brasileiras” ocupando a Praça do Chiado ou os Jerónimos, não tanto, quanto veremos pára-quedistas angolanos ou portugueses tomando o Palácio do Planalto… Temeremos então o dito “colonialismo económico”? A monumentalidade dos índices brasileiros (número de energia gerada, de petróleo extraído, de cana de açúcar, etc) pode indiciar que aqueles que receiam esta forma renovada de império têm razão para o temer… mas de que serve o predomínio económico sem as devidas bases culturais ou sociais? E nada faz antever na sociedade brasileira uma vontade para o expansionismo ou para o intervencionismo. Bem pelo contrário, tradicionalmente o Brasil sempre teve nesse cenário – internacional e diplomático – um perfil excessivamente modesto e inadequado para a importância demográfica e económica que o país já tem na cena internacional.

7. A Força da Dispersão

Poucas línguas no mundo são faladas por gentes tão diversas e tão dispersas geográfica e culturalmente falando como o português. A praticamente única extensão geográfica do português no mundo é um resultado direto da História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa e, como tal, um testemunho vivo do passado secular de Portugal. Consequentemente, a própria Lusofonia carrega em si mesma o peso deste passado já que os velhos conflitos entre colonos, colonizadores e colonizados trespassam ainda muitas das realidades políticas e sociais dos países lusófonos e servem de canga que impede o seu maior aprofundamento. Apesar deste peso morto, a Lusofonia não tem – nem de perto – a mesma carga histórica negativa que transportam a francofonia ou até a anglofonia. E mesmo onde ela ainda existe – consequência das guerras de Libertação, é mais ténue e foi já reduzida pelo passar do tempo e pela reaproximação motivada pelos fluxos migratórios.

Sérgio Buarque da Holanda, nas “Raízes do Brasil” ao abordar a herança lusa do Brasil, inventa a expressão “territórios-ponte” e encontra assim a âncora fundadora do papel de Portugal futuro no mundo. Foi para espalhar esses “territórios-ponte” que a presença portuguesa no Marrocos se limitou sempre à posse de algumas praças-fortes. Foi para aplicar esse modelo que se invadiu Ceuta e que não havia então projetos para expandir a partir daí, pelo interior marroquino fora a “terra portuguesa” em África. Foi para lançar essas estacas pelo mundo que a presença portuguesa no Oriente se caracterizou sempre pelo controlo de algumas centenas de feitorias dispersas e de dezenas de cidades-chave como Diu, Goa, Malaca e Macau e nunca ambicionou – como ambicionaram e cumpriram ingleses e russos – à posse de países e continentes inteiros. E quando os projetos portugueses no Oriente se abastardaram – fruto das influências de Maquiavel e do norte da Europa – e se delinearam fátuos e irrealistas planos para conquistar o “império da terra” na Índia ou para ligar as duas costas de África ou para ocupar todo o reino de Marrocos, por isso quando tais e tamanhos abastardamentos à missão universal de Portugal foram cumpridos, pagámos, e pagámos bem com a perda da nossa independência nacional, com a perda de numerosas e excelentes gentes em lutas desproporcionais e absurdas até bem dentro do século XX. Entre todas estas tentativas de quebrar o mandato imerso na missão portuguesa dos Descobrimentos, apenas o Brasil se salvou… Só nele, se constituiu um imenso “império de terra”, pelo sertão dentro e por bandeira fora. Ou não… A ocupação portuguesa do Brasil foi uma espécie de “navegação por terra”, sempre à vista do último entreposto conhecido, batendo a sertania, vencendo a natureza ou o índio mais desconfiado em busca de riquezas e aceitando o desafio imposto pela aventura. Esses “navegadores da terra”, que foram os bandeirantes, não eram os líderes de expedições militares organizadas e massivamente municiadas a partir da longínqua e enfraquecida metrópole, mas aventureiros que sozinhos penetraram no sertão e ergueram a majestosa fronteira que é hoje o Brasil.

Foi para formar estes “territórios-ponte” que o destino de Portugal o levou ao processo dos Descobrimentos e da Expansão ultramarina. Quando Portugal e os seus governantes tentaram transformar essa rede dispersa e leve de feitorias e entrepostos comerciais num império convencional e “pesado”, Portugal tornou-se naquele “anão com braços de gigante procurando abraçar o mundo” de Pessoa, que, nesse esforço vão e inglório se haveria de esgotar e comprometer a sua missão histórica. O império ultramarino não se fez para espalhar pelo mundo uma multidão de colónias impossíveis de defender, mas para plantar sementes que possibilitariam mais tarde a aparição de uma nova forma de entidade política a partir do florescimento destes “territórios-ponte” unindo continentes, etnias e culturas tão diversas não pela força das armas nem do império da economia (com “e” pequeno). É por este impulso quase secreto e subterrâneo para o estabelecimento de pontes entre povos, servindo de intermediário comercial e preocupando-se quase nunca com o seu senhoreio, e quase sempre com a defesa das rotas e dos entrepostos comerciais que se diz que Portugal foi o responsável pela primeira Globalização. Se antes as comunicação e os escambos entre os mais diversos e longínquos povos do mundo eram a excepção, a partir da Expansão portuguesa tornaram-se a regra. E esta regra assentou no plantio organizado de uma rede fina, mas longa, de estabelecimento, de interdependências comerciais unindo povos, religiões e civilizações que anteriormente mal se conheciam. E porque concebeu Portugal este conceito de “territórios-ponte” e não qualquer outra potência europeia? Desde logo porque Portugal é ele próprio, no contexto europeu um “território-ponte”, um dos Estados mais antigos e de fronteiras historicamente melhor delimitadas, mas assente num dos extremos do subcontinente, longe dos centros mediterrâneos que a governaram na Antiguidade e novamente longe dos centros norte-europeus que hoje a regem. Periférico por excelência, Portugal soube contudo captar a si diversas e sucessivas vagas de invasores e migrantes que se foram submetendo, camada após camada a um substrato meio misterioso que alguns fazem radicar na tradição atlante e outros em raízes semitas ou norte-africanas (cabilas). Esta essência periférica da alma portuguesa fez com as suas formas de ver o mundo e de o integrar no quadro de pensamento individual fossem sempre propícias ao estabelecimento de laços comerciais e de intercâmbio cultural e civilizacional com outros povos, não os procurando submergir por debaixo de dilúvios de fogo e aço, como sempre procuraram fazer os demais povos colonizadores do norte da Europa, mas buscando sempre as demais culturas procurando cumprir ditames de ordem religiosa, em primeiro lugar, como implicavam os mandamentos mentais da época, mas procurando sempre a satisfação da vontade de conhecer novas gentes e mares e de procurar lucro através de mecanismos de troca que tinham que inevitavelmente prosperar apenas em condições de Paz e não de guerra constante. Por isso, é que o domínio português procurou sempre ser uma presença pacífica: não só porque faltassem os meios humanos e materiais para manter um tal controlo pela força, mas porque este tipo de controlo iria inevitavelmente prejudicar o bom desenvolvimento das relações culturais e comerciais com as populações locais.

Encontramos uma outra chave para a compreensão do problema de saber porque foi em Portugal que se procuraram estabelecer “territórios-ponte” no carácter étnico dos portugueses como uma das populações mais miscigenadas da Europa. Esta rara característica, identificada pelo professor Luís Adão da Fonseca, ao descrever Portugal como “um país de transição”, formatado e gerado pela justaposição e cruzamento de povos e culturas diversas e mais miscigenado e “impuro” que qualquer outra nação europeia. Só uma nação de “rafeiros” poderia erguer esse milagre continental que é o Brasil, senão vejamos a dispersão que condenou a América espanhola à irrelevância política… Só um país como Portugal, que vê cruzar na sua alma, a transcendência judaica, a contemplação berbere, a valentia germânica e a organização prática latina, com mais alguns múltiplos vestígios poderia deitar a semente desta portugalidade que se chama hoje “Portugal”, mas que se poderia chamar “Mundo” ou “Quinto Império-União Lusófona”, não fosse o sacrifício da generosidade cometido pelo sacrifício do “Infante Santo” em Tânger, pelo pecado da intolerância religiosa de Dom João III e pela teimosia cruel de sacrificar tantas gentes na defesa impossível de um império de Timor a Arzila, passando por Diu e pela Ilha de Moçambique, uma tarefa ciclópica e impossível de cumprir com sucesso e que esgotando Portugal e os portugueses, haveria de levar à perda da independência, após Dom Sebastião e ao trágico e castrante divórcio entre as elites detentoras do Poder e o Povo, registado desde 1640 e ainda muito visível nos dias de hoje.

8. A Anglofonia: A maior ameaça à sobrevivência e afirmação do português no futuro

Se a ameaça à sobrevivência da Lusofonia não reside nem na sua enorme dispersão geográfica nem na escassez da sua demografia, onde esta ela então? Esta, tão somente, na Internet e no próprio processo da “globalização”… Uma e outra assentam no emprego da língua inglesa como língua franca dos negócios ou da busca e escambo de ideias e informação no ciberespaco. Como sucedeu antes, por exemplo, com Roma ou com quase todas colónias europeias, se o uso de uma língua franca ou “de negócios” se generalizar o suficiente acaba por absorver as línguas locais, que se transformam em línguas mortas, exatamente como o latim fez esquecer o ibero e como o inglês, o francês e ate o português fizeram esquecer – por sua vez – o latim…

Se hoje em dia, um cibernauta precisa de dialogar ou contactar com outro que não domine a sua língua nativa, recorre inevitavelmente ao inglês. E a quantidade espantosa de conteúdos que hoje já existem em inglês no ciberespaco, na Wikipedia ou dispersos em centenas de milhões de outras fontes, torna difícil que se possa contornar a inevitabilidade do uso do ingle na Internet. Neste aspecto, as tentativas gaulesas para contrabalançar a influência do inglês tornam-se quase patéticas…

Mas sendo o inglês a língua dos mercadores e dos cibernautas terá que ser também a língua do nosso futuro? Não necessariamente… Existem já hoje conteúdos em português suficientes para assegurar um numero razoável de retornos em qualquer busca feita em qualquer motor de busca… E a Wikipedia assim como a Blogoesfera Lusófonas são das mais ricas e dinâmicas do planeta. Assim, a Internet pode assumir-se como canal de vida da língua portuguesa e não necessariamente como via para a sua absorção pelo inglês, como temem alguns… Sendo que a melhor defesa terá que passar pelo reforço de conteúdos em português, pelo apoio governamental e institucional aos mesmos (nomeadamente a Wikipedia Lusófona) e porventura organizando ate uma enciclopédia Lusófona na Internet com os padrões de validação académica e cientifica que não podem caracterizar (pelo seu voluntarismo e dinamismo muito próprios a Wikipedia). A esse proto-projeto chamaríamos nos de “Lusopedia” e permitiria disponibilizar aos estudantes dos primeiros níveis de ensino a informação que hoje só encontram na nem sempre muito fiável Wikipedia ou que lhes surge em língua inglesa. Pelos seus custos, validação cientifica e âmbito educacional o projeto teria que ser patrocinado pelos ministros da Educação dos países da CPLP, mas os seus benefícios poderiam ser enormes quer para a educação das camadas mais jovens, quer ate para a sobrevivência da Lusofonia a longo prazo.

9. A Lusofonia como elemento diferenciador e esteio de independência nacionalista

A aproximação da Guiné-Bissau à Francofonia e a adesão de Moçambique à Commenwealth são sinais desencorajadores para quem quer que almeje para a Lusofonia voos mais largos. Mas decorrem sobretudo de uma pressão económica e cultural tremenda que a francofonia (no caso da Guiné-Bissau) e a anglofonia (no caso de Moçambique) exercem sobre as antigas colónias portuguesas em África aproveitando o recuo nítido da cooperação portuguesa e o desinteresse estratégico dos últimos governos nestas questões da língua e do desenvolvimento das competencias e funções da CPLP.

Neste contexto, se Moçambique e a Guiné-Bissau podem manter a sua individualidade e ate, a sua independência não o podem fazer nem etnicamente nem pelas línguas locais já que partilham umas e outras com os seus vizinhos. A afirmação da sua independência terá sempre que se fazer assim, pela diferença, e esta, mercê da juventude da sua Historia escrita só pode ser buscada na língua portuguesa, verdadeiro pilar destas jovens nacionalidades africanas.

A língua portuguesa, em países frequentemente por dilacerados por conflitos étnicos e tribais intensos e resultantes de linhas fronteiriças traçadas a esquadro e a independências apressadas pela teimosia colonial do Antigo Regime, pode alem do mais afirmar-se como elemento estabilizador, pacificador e ate, unificador nesses países. Nesse sentido e nestas geografias, defender o português falado e sentido pode ser uma forma de defender a paz e o desenvolvimento social e económico destas nações…

10. Agostinho da Silva; Quinto Império e Reino do Espírito Santo: Formas de Lusofonia e do Futuro da mesma

Agostinho da Silva não apreciava particularmente o termo “Quinto Império” e preferia a designação “Reino do Espírito Santo”, precisamente porque acreditava que aquilo que uniria as várias partes dessa nova instituição, de um novo e revolucionário tipo de organização social era a devoção do Espírito Santo. Seria este culto, muito particular e único pela capacidade de reunir sobre o mesmo tecto todas as religiões do Livro que uniria as populações dispersas pelo mundo e pelo credo religioso e que serviria de primeiro e maior esteio para a nova forma de organização política e social que se designaria por “Quinto Império” e que hoje julgamos poder antever como a manifestação simultaneamente passada e futura da Lusofonia.

A essência da nova sociedade do Quinto Império seria a adoção da inocência infantil como o modelo social fundamental, algo que no culto do Espírito Santo era expresso pela coração do “Imperador-menino”, que ainda hoje persiste neste culto nos Açores. Esta sociedade ideal era também a da gratuitidade, da partilha e da liberdade, exemplificadas pelas ceias gratuitas e pela ritual libertação dos prisioneiros.

Adaptando o conceito de “Quinto Império”, à Lusofonia, o linguista brasileiro Sílvio Elia divide o espaço lusófono entre:
Lusitânia Antiga: Portugal
Lusitânia Nova: Brasil
Lusitânia Novíssima: países africanos de expressão Lusófona e Timor
Lusitânia Perdida: incluindo os territórios perdidos de Goa, Damão e Diu. Assim como Malaca, Flores e outras partes dispersas da Lusofonia.

Foi também o professor brasileiro Celso Cunha que escreveu: “Essa república do português não tem uma capital demarcada. Não está em Lisboa, nem em Coimbra; não está em Brasília, nem no Rio de Janeiro. A capital da língua portuguesa está onde estiver o meridiano da cultura.” É impossível descrever com maior clareza a mais verdadeira natureza deste “império” de um novo tipo que sem um “centro político imperial”, como aqueles que caracterizaram todos os impérios do passado, possa servir de pólo agregador e de baluarte contra as investidas de culturas mais hegemónicas (anglófona ou chinesa) que se procuram hoje, impor ao mundo, já que tendo a uni-los, critérios e factores culturais e linguísticos, mais do que económicos e militares, estes povos da Lusofonia serão o protótipo e o arquétipo cumprido de um novo tipo de organização social que os profetas e visionários do passado viram na forma a que designaram de “Quinto Império”, na falta de melhor expressão.

11. O Próximo Passo da Lusofonia

A Lusofonia só faz sentido enquanto caminho para um local que se chama “universalismo”. Essa é a razão pela qual a Lusofonia se encontra hoje dispersa por cinco continentes. Tal não acontece por um acaso da História – que tal tipo de eventos não conhece – mas por um determinismo causal que brota do inconsciente colectivo que determinou a fundação dessa “ideia de sociedade” que cristalizou no século XI no extremo ocidental da Península Ibérica, para depois se propor no mundo e – muito especialmente – em terras brasílicas, alcançando aqui a sua expressão mais acabada de pensamento criativo, alegria de viver, optimismo imanente e poder de imprevisão. Qualidades característica da cultura portuguesa, extrapoladas pelas particularidades geográficas e climáticas brasileiras e pelo cruzamento de tantas e tão diversas etnias e culturas migrantes.

O “humanismo universalista” dos portugueses de Jaime Cortesão é a energia que pode impulsionar Portugal para além do confinamento “pequeno europeu” onde os senhores do Norte da Europa o querem encastrar. Portugal só terá futuro, na medida em que souber – enquanto entidade colectiva – transgredir estas regras e regulamentos castrantes que lhe querem impor. Portugal, os portugueses de Portugal e aqueles que vivem (por vezes com maior liberdade) no coração de cada lusófono, só podem exprimir a sua vocação universalista transformando a Lusofonia num novo tipo de organização política que dê substância, assentamento e alicerce à cultura Lusófona. A essa forma, chamou António Vieira e Fernando Pessoa de “Quinto Império”, Agostinho da Silva, “Império do Espírito Santo” e hoje… chamaríamos nós (passo a injusta comparação) de… “União Lusófona”.

Fontes na Internet:

http://www.noticiaslusofonas.com/view.php?load=arcview&article=12401&catogory=CPLP
http://ciberduvidas.com/lusofonias.php?rid=102
http://www.portugal-linha.pt/literatura/com12.html
http://www.teiaportuguesa.com/programalusofonia.htm

Fontes Escritas:

A Língua Portuguesa no Mundo, de Sílvio Elia, Ática, S. Paulo, 1989
Disperso, de Agostinho da Silva, Icalp, Lisboa, 1988
Fernando Cristóvão (texto publicado originalmente na revista “Humanidades”, Lisboa, Setembro de 2002)
Francisco Manuel Napoleão, Notícias Lusófonas
História do Futuro, do Padre António Vieira, in Obras Escolhidas, Sá da Costa, Lisboa, 1953
Pessoa Inédito de Teresa Rita Lopes, Livros Horizonte, Lisboa, 1993

SOBRE A ACTUALIDADE DA IDEIA DE PÁTRIA: NOVE NOTAS & UM NOVO PARADIGMA PARA PORTUGAL

Intróito:

O homem não é, ou não é apenas, uma “pura abstracção”, mas um ser concreto, universalmente concreto, um ser que, de resto, será tanto mais universal quanto mais assumir essa sua concretude, a concretude da sua própria circunstância. Dessa circunstância faz axialmente parte a “pátria”, isso que, segundo José Marinho, configura a nossa “fisionomia espiritual”. Nessa medida, importa pois assumi-la, tanto mais porque, como escreveu ainda Marinho, foi “para realizar o universal concreto e real [que] surgiram as pátrias”.

1. A questão da actualidade e da importância

Antes da questão da “actualidade”, dever-se-á discutir a questão da “importância”. Se não considerarmos importante a “ideia de Pátria”, fútil será discutir a sua “actualidade”. Se a ideia de Pátria não fosse importante, como para nós é, o facto dela não ser uma ideia actual, como manifestamente não é, não seria para nós motivo de lamento, mas de regozijo.

2. Porque é importante a ideia de Pátria?

A importância da Pátria denota para nós a importância da Cultura. O que “une” os portugueses, se é que ainda algo “une”, é isso: a pertença a uma mesma Pátria, ou seja, a uma mesma Cultura histórica. Se ela não existisse, de facto, nada haveria que realmente “ligasse” os portugueses. Decerto, não é essa uma Cultura unívoca. O seu sentido histórico pode ser discutido. A nosso ver, aliás, só se devem discutir assuntos importantes e, nessa medida, a Pátria pode e deve ser discutida.

3. Porque não é actual a ideia de Pátria?

A nosso ver, para além de algumas razões conjunturais, a ideia de Pátria deixou de ser actual pela extremação do individualismo contemporâneo – e por isso caracterizou José Marinho a nossa época como a “época da cisão extrema”. Também por isso, a política, cada vez mais, parece reduzir-se a uma mera gestão económica, sem qualquer Horizonte. Não que essa gestão económica não seja importante. Simplesmente, não é isso o que faz de um conjunto de pessoas uma real comunidade. Para que isso aconteça, o elo não pode ser apenas económico – tem que ser, sobretudo, cultural. Sem esse elo maior, de resto, qualquer sociedade se desagrega, em particular uma sociedade materialmente pobre, como a portuguesa.

4. Porque, não sendo uma ideia actual, deverá de novo sê-lo?

Trata-se, em última instância, da sobrevivência de Portugal. Se o que liga os portugueses é apenas o Estado, se tudo se resume à questão dos impostos e das reformas, se a ideia de Pátria passou de vez à História, então vale mais, desde já, fechar a porta e apagar a luz. E integrarmo-nos, de vez, na Espanha. Viveríamos, materialmente, bem melhor…

5. Fundamento (a Cultura) e Firmamento (União Lusófona).

Por tudo isso, dizemos: o Fundamento maior de Portugal é a Cultura. Geográfica, económica e politicamente, Portugal é um absurdo. À luz dessa visão axialmente cultural do país, o nosso Firmamento, o nosso Horizonte último, só pode ser a União Lusófona, ou seja, a religação com todos os outros países com quem Portugal tem mais afinidades linguísticas e culturais, ou seja, com todos os outros países lusófonos, obviamente numa relação já por inteiro pós-colonial.

6. Portugal e Europa.

Nós somos a “Turquia do Ocidente”. Tal como a Turquia não é, de facto, um país europeu, Portugal também não é, ou é apenas numa pequena parte. Tal como a Turquia, tendo uma parte europeia, é sobretudo uma pátria asiática, a pátria lusa, tendo também uma parte europeia (a nação portuguesa), estende-se por África, pela América, pelo Oriente…

7. O caminho do Horizonte.

É do interesse dos próprios países de expressão portuguesa a promoção da Lusofonia.
Vimos e vemos isso em Timor, bem como em todos os países africanos de expressão portuguesa.
A Lusofonia é para todos esses países, sem excepção, o garante da independência e da coesão nacional.
Por isso são os próprios governos desses países que promovem a língua lusa, por mais que, paralelamente, alguns deles, insistam numa retórica anti-portuguesa, de modo a alimentar a má-consciência de alguns e, sobretudo, a desviar as atenções…

8. A semente a germinar.

Essa ideia já deu lugar à CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), idealizada por Agostinho da Silva, logo nos anos cinquenta, mas esta, tal o seu modelo, não nos levará longe. Provavelmente, não poderia: apesar de ter sido criada já nos anos 90, foi ainda criada sob o trauma da descolonização, reflectindo, por isso, na sua génese, os complexos dos ex-colonizadores e dos ex-colonizados. Havia, para além disso, uma dessintonia: o país ex-colonizador vivia por esse tempo a sua provinciana paixão europeísta; os países ex-colonizados, apesar da queda do Muro de Berlim, ainda seguiam a miragem de uma “união internacional dos povos”. Havia, já não há: nem paixão europeísta, nem miragem internacionalista. É, pois, tempo de lançar de novo à terra (ou, mais exactamente, ao mar) a semente da União Lusófona…

9. Um exemplo para o resto do mundo.

Dir-se-á que esta ideia de Nação e de Pátria está, a priori, condenada ao fracasso, dada a lógica trans-nacional do sistema económico dominante: como é hoje usual dizer-se, “o capital não tem Pátria”. Reconhecendo que a resistência a esse capitalismo trans-nacional só se pode fazer num grande Bloco, num grande Movimento inter-nacional, direi que a União Lusófona poderá ser, para nós, esse Bloco. No seu conjunto, os países dessa futura União Lusófona têm força suficiente para promoverem um outro tipo de sistema económico. E serem um eventual exemplo para outros países, para outros Blocos. Nunca fui um daqueles que acham que é a Portugal que cabe “salvar o mundo”. Nem a União Lusófona o fará. Mas pode tornar-se um exemplo de um mundo alternativo. Um exemplo contagioso…

Tese, Antítese e Síntese: por um novo paradigma de Portugal

Tese – Paradigma do 24 de Abril:

Tenho da História uma visão hegeliana. Por isso, considero que todos os regimes que caiem merecem cair. O Estado Novo não foi excepção. A 24 de Abril de 1974, estava em inteiro colapso. Por isso, caiu. E, com ele, o seu paradigma de Portugal: um Portugal que mantinha um império colonial completamente anacrónico, sem qualquer perspectiva de Futuro.

Antítese – Paradigma do 25 de Abril:

Todas as revoluções são, por natureza, antitéticas. A revolução de 25 de Abril de 1974 também não foi excepção. Por isso, se o Estado Novo defendia um Portugal do Minho até Timor, o paradigma saído da revolução defendeu exactamente o contrário: daí que Portugal tenha virado as costas às suas antigas colónias (com as consequências imediatas que se conhecem e que ainda hoje se fazem sentir), tornando-se apenas em mais um país da Europa.

Síntese – Paradigma do 26 de Abril:

Passado todo este tempo (mais de 34 anos), em que os traumas dos ex-colonizadores e dos ex-colonizados já cessaram (senão por inteiro, pelo menos em grande medida), urge um novo paradigma, que faça a devida síntese: recuperando essa visão maior não já de Portugal mas do Espaço Lusófono, em Liberdade e Fraternidade, à luz da qual Portugal, não virando as costas à Europa, recentre de novo o olhar no azul. Não o azul tingido (e, por isso, fingido) da bandeira da União Europeia, mas o azul vivo (este sim, verdadeiro) do Mar…

* Publicado in: NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI, 1º semestre de 2008, nº 1.

Por um patriotismo trans-patriótico e universalista: Oito considerações para uma fundamentação do MIL

1. A milenar tradição da introspecção meditativa e os progressos contemporâneos da microfísica e das neurociências (que hoje se juntam numa convergência histórica, como nas experiências realizadas no MIT, em Massachusetts, e nos encontros Mind and Life, o último dos quais de 6 a 12 de Junho deste ano, em Nova Iorque) parecem indicar não ser possível encontrar, quer na constituição da chamada matéria, quer na da chamada mente, ou seja, nisso cujo conjunto designamos por realidade, uma mínima entidade que exista em si e por si e que permaneça idêntica a si mesma, ou seja, que tenha características próprias. Todas as dimensões da chamada realidade parecem obedecer assim a duas leis fundamentais, a de interdependência e a de impermanência, que se resumem na sua ausência de características ou qualidades intrínsecas. Como se pode constatar na mínima experiência perceptiva e como a observação científica confirma, sujeito e objecto constituem-se mutuamente e interagem num dinamismo e numa metamorfose constantes, como meros fenómenos recíprocos, sem essência própria. O conceito de identidade parece ser assim uma abstracção desadequada para expressar o real, sem outro fundamento senão o de ser uma ficção convencional e funcional, que serve o reproduzir de uma tradição fortemente entranhada nos hábitos culturais, psicológicos e sociais do senso comum humano.

2. O conceito de identidade nasce, como o seu correlato, o de alteridade, de uma experiência ingénua e irreflectida, na qual, devido a hábitos inconscientes, o sujeito se crê distinto do objecto, o eu do não-eu, o mesmo do outro, o idêntico do diferente, ao mesmo tempo que esses termos da experiência se crêem reais e existentes em si e por si, com características e qualidades próprias, positivas, negativas ou neutras, que nunca são mais do que projecção da percepção inconscientemente condicionada. Este estado, que se pode chamar de ignorância dualista, origina três tendências da experiência mental-emocional na relação sujeito-objecto: 1 – o fascínio e o desejo-apego, caso o objecto seja percepcionado como atraente e positivo; 2 – o medo e a aversão, caso o objecto seja percepcionado como repulsivo e negativo; 3 – a indiferença, caso o objecto seja percepcionado como neutro. Qualquer destas experiências resulta em conflito e sofrimento, primeiro interno e depois externo, indissociável de uma extrema vulnerabilidade perante todas as vicissitudes da vida, pois a mente dominada pelo apego e pela aversão não pode assegurar de modo algum a posse do que deseja nem a exclusão do que rejeita, devido à lei da impermanência e metamorfose constantes de tudo, sujeitando-se assim constantemente à carência do que deseja ou ao medo de o perder, bem como à ameaça do que rejeita ou ao medo de o não evitar. Por outro lado, a indiferença é uma falsa alternativa, que apenas gera a experiência de solidão, de entorpecimento mental e despotenciamento vital.

Da ignorância dualista e da combinação das três tendências referidas resultam as pulsões emocionais inerentes a todos os actos e omissões, mentais, verbais e físicos, que as tradições ético-espirituais, teístas ou não-teístas, religiosas ou laicas, designam como actos negativos, faltas, pecados ou toxinas mentais, como hoje alguns preferem: desejo possessivo, ódio e cólera, inveja e ciúme, orgulho e arrogância, avidez e avareza, torpor mental e tristeza, entre muitas outras. Em qualquer dos casos, antes de lesarem os outros, estas pulsões lesam a mente do próprio sujeito a partir do primeiro instante em que nela surgem, distorcendo a percepção da realidade, gerando ignorância, insensibilidade e tormento interior. Por isso são objectivamente negativas, independentemente de qualquer doutrina moral ou revelação religiosa.

3. Um olhar desapaixonado e realista sobre o processo e a história da civilização humana, desde os seus primórdios até hoje, não pode deixar de constatar que tudo – a organização social, a ciência, a técnica, a política, a economia, a cultura, a educação e a religião – tem sido predominantemente movido pela ignorância dualista, o apego, a aversão e a indiferença, bem como por todas as suas combinações possíveis, com o resultado evidente, em termos gerais, de a humanidade até hoje sempre ter obtido precisamente o que mais rejeita, o sofrimento, e sempre haver falhado o que mais deseja, a felicidade: prova evidente de que o desejo-apego e a aversão resultam precisamente no contrário do que buscam. As únicas excepções a esta monumental ilusão e fracasso colectivo, habitualmente camuflado com os nomes de “progresso”, “evolução”, etc., são os seres que despertam e se libertam da ignorância dualista e das suas consequências mentais e emocionais: aqueles que nas várias tradições se designam como sábios, santos, etc., e que se consideram mestres espirituais quando à libertação individual acrescentam o amor e a compaixão de continuarem a agir para disso libertarem os outros.

4. Aplicada à questão das sociedades, das culturas, das nações e das pátrias, esta visão constata que nenhuma delas existe em si e por si, com uma identidade e características irredutivelmente próprias. Todas, pelo contrário, apesar de apresentarem singularidades em devir, nascem, vivem e morrem ou metamorfoseiam-se de acordo com as leis fundamentais de interdependência e impermanência que abrangem todas as dimensões do real. Com efeito, quem pode, por exemplo, pensar o que é Portugal separando a sua história e cultura das de todos (ou quase) os povos europeus, africanos, sul-americanos e orientais? O conceito de identidade nacional é pois, tal como o de identidade pessoal – e sobretudo se pensado de forma essencialista ou substancialista – , uma mera abstracção que em última instância apenas funciona na lógica da ignorância dualista que predomina na mente humana.

5. Tal como acontece quando se extrema a bipolarização eu-outro, o extremar da suposta identidade cultural ou nacional como uma essência única, permanente e independente das demais, leva ao nacionalismo ou patriotismo ensimesmado que potenciam essa ignorância dualista e esses complexos de apego ao que parece ser próprio e de indiferença ou aversão ao que parece ser alheio que já vimos serem as causas fundamentais de insensibilidade, sofrimento e conflito para quem por elas se deixa dominar e para os demais. O nacionalismo ou patriotismo comum, levando a amar a sua cultura, nação ou pátria acima das demais, é pois injustificável e condenável em termos sapienciais e éticos, sendo incompatível com qualquer projecto de emancipação da consciência e de serviço do bem comum a todos os homens e a todos os seres.

6. Há todavia a possibilidade de se conceber e praticar uma outra forma, não de nacionalismo, mas de patriotismo, o patriotismo trans-patriótico e universalista, que apenas preze, cultive e promova, numa determinada tradição cultural e numa determinada pátria, aquilo que nela houver de melhor, ou seja, de aspiração ao bem comum universal, não só dos homens, mas de todos os seres. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o que em última instância aspira a orientar as energias de uma dada nação para que progressivamente se superem todas as fronteiras e barreiras, primeiro mentais e afectivas, e depois institucionais e territoriais, entre todos os povos e culturas, de modo a que a comunidade humana possa expressar o mais possível a estrutura e as leis fundamentais da própria realidade: ausência de id-entidades com características intrínsecas, interdependência, impermanência. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o que aspira a romper o círculo vicioso e infernal em que tem decorrido e decorre a história da civilização humana e a devolver humanidade e mundo ao Paraíso que em si intimamente encobrem. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o único que está de acordo com a milenar tradição sapiencial da humanidade e com a ciência contemporânea, convergindo para a verdadeira evolução que é a da consciência e para o verdadeiro progresso que é o espiritual, entendendo por tal o despertar da dualidade que permita ver e sentir o outro como a si mesmo e assim visar a emancipação mental, cultural, social, política e económica de todos os homens e o respeito por todas as formas de vida.

7. Este patriotismo trans-patriótico e universalista é o que encontro no melhor da ideia de Portugal e da comunidade lusófona que – depurada do lastro de muitos condicionantes – interpreto em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, para apenas referir os mais destacados. Foi ele, embora ainda informulado e sem a fundamentação aqui apresentada, que inspirou o Manifesto da Nova Águia e a Declaração de Princípios e Objectivos do MIL – Movimento Internacional Lusófono – , cujos textos iniciais redigi e dos quais oitenta por cento ou mais permaneceu nas versões finais. É apenas à luz do patriotismo trans-patriótico e universalista, como projecto fundamentalmente ético-espiritual e só a partir daí cultural, cívico, social e político, que considero fazer sentido a existência do MIL. Não acredito, aliás, noutra possibilidade de real transformação do mundo que não se enraíze primeiro numa profunda transformação da mente que o percepciona. A grande revolução futura e já presente, em todo o planeta, é a união inseparável dessa transformação mental – a que alguns chamam meditação – e de todas as esferas da actividade humana, incluindo a económica e a política. Quando digo transformação mental refiro-me ao simples treino da mente para ver as coisas como são, para além da dualidade, do apego e da aversão, para além do medo e da expectativa, para além do passado e do futuro, no aqui e agora presente. Nada de necessariamente religioso, místico, esotérico ou exótico e que não vem do Oriente porque a mais profunda cultura ocidental, clássica ou cristã, sempre o conheceu. É a redescoberta disso, mais do que qualquer ideologia laica ou religiosa, a grande novidade que cresce hoje como bola de neve em todo o mundo.

8. Creio que os resultados do inquérito feito aos aderentes do MIL, para além das conclusões extraídas pelo Renato Epifânio, mostram que na maioria dos que responderam predomina não um patriotismo nacionalista, mas antes lusófono e universalista. Com efeito, se 63% declaram que a pátria é “um valor da maior importância”, apenas 21% considera que a sua pátria é o seu país, enquanto 38% a identificam com a Lusofonia e 41 % afirmam que a sua pátria é “trans-lusófona”. Isto mostra que as pessoas aderiram ao essencial da nossa Declaração de Princípios e Objectivos e que isso as responsabiliza por os porem em prática, contribuindo, num momento crítico do mundo, para uma cultura de paz e de elevação da consciência. Exorto pois a que se criem mais Núcleos MIL, onde se difundam e pratiquem estas ideias e se traga desde já para a nossa vida quotidiana essa diferença que consideramos melhor para o mundo: abertura, clareza e paz da mente e do coração, capacidade de diálogo e compreensão, amor aos homens e aos seres vivos – para além das diferenças de nação, língua, etnia, cultura, religião, ideologia e espécie – , promoção e pedagogia dos valores mais benignos e universais das nossas culturas lusófonas, intervenção cívica e social que afirme estes valores na esfera pública, política e económica.

Para que se cumpra o nosso lema: Por um novo Portugal, uma nova Comunidade Lusófona e um Novo Mundo.