Arquivo da Categoria: Conferências Públicas

1º Lançamento do nº7 da Revista Nova Águia

Debate “CPLP nos Media e na Blogoesfera” 19 de Março de 2011 16:00

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Debate “A Importância da Lusofonia”

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Participei recentemente num debate intitulado “A Importância da Lusofonia”, na secção de Sintra, do PS, em Agualva-Cacém. O debate conheceu uma assistência muito numerosa – para estes tipo de debates – contando na assistência com mais de 30 participantes, um feito para o qual muito contribuiu o esforço organizativo do Filipe Barroso, nosso camarada nas andanças de Campanha de Fernando Nobre e coordenador local da Juventude Socialista.

O debate começou por ser uma apresentação daquilo que é o MIL, da sua escala lusófona, com representantes, membros e sócios honorários provenientes de todas as paragens da lusofonia, da Galiza a Timor, passando por Cabo Verde e pelo Brasil.

Numa segunda parte, foi dada uma passagem global sobre os princípios e objetivos do MIL com especial foco no papel crucial que o pensamento de Agostinho da Silva teve como inspiração para o MIL. Especial foco foi dado sobre a defesa de uma Regionalização Municipalista, a opção por União Lusófona em caso de colapso da União Europeia no desfecho da atual crise económica e de valores que atravessa, de Economias e Moedas Locais, no direto decurso do Municipalismo defendido pelo MIL sob a inspiração da “federação de municípios livres e independentes” de Agostinho da Silva.

Na terceira parte do debate, foi abordada a ação cívica do MIL, desde a petição “Não Destruam os Livros”, apresentada e já debatida na Assembleia da República (tendo estado presente um deputado do PS que era sabedor desta presença), assim como as campanhas do MIL a favor da ONG Ajuda Amiga de envio de livros para a Guiné-Bissau, e em cuja distribuição iremos participar pessoalmente em março e a campanha para Baucau, em Timor.

Apresentámos as mais importantes propostas do MIL, como a Força Lusófona de Manutenção de Paz, o Banco Lusófono de Desenvolvimento e o Passaporte e a Cidadania Lusófona. A intervenção foi concluída com referencias ao Prémio Personalidade Lusófona do Ano de 2009, onde foi agraciado o embaixador Lauro Moreira e um convite à audiência para estar presente no próximo dia 21 de fevereiro na cerimónia de entrega do mesmo prémio a D. Ximenes Belo na Academia de Ciências de Lisboa.

O debate aberto que encerrou este interessante e muito animado encontro versou sobre temas muito polémicos, como o Acordo Ortográfico, o estado do Instituto da Língua Portuguesa, o papel do Brasil no futuro da língua portuguesa, a presença da Galiza na Lusofonia, Portugal e a sua vocação como “território-ponte”, a presença de Portugal na União Europeia e a crise do Euro. Entre vários, destacamos Filipe Barroso (coordenador da JS Local), Eduardo Quintanova (coordenador do PS do Cacém) e Ana Loureiro (ex-deputada).

No global tratou-se de um debate muito aberto, dinâmico e participativo que abordou aquilo que é o MIL, para onde o Movimento objetivo o destino de Portugal e da Lusofonia e onde a necessidade de um reenfoque lusófono da política externa portuguesa e da própria integração das comunidades migrantes lusófonas foram temas especialmente importantes.

Esta sexta, às 19h, na sede do MIL: Apresentação da Antologia Poética “Nudos” de Eduardo White – 06Fev2011 22:44:00

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Vídeos da Cerimónia de Homenagem a Carlos Pinto Coelho

Homenagem MIL a Carlos Pinto Coelho (fotografias)

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Debate aberto MIL: “Os 15 anos da CPLP”

Debate MIL de 18 de dezembro: Os 15 anos da CPLP (com o Secretário Executivo da CPLP)

Debate Público (entrada gratuita):
Debate MIL de 18 de dezembro: Os 15 anos da CPLP (com o Secretário Executivo da CPLP)
Tendo como orador o Secretário Executivo da Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa
Eng. Domingos Simões Pereira
18 de dezembro (sábado), 16:00

na
Sociedade de Língua Portuguesa
Rua Mouzinho da Silveira, 23 (junto ao Marquês de Pombal)
Lisboa,

Com recolha de livros para Timor-Leste
(os presentes poderão levar livros para esta campanha do MIL em parceria com a Associação de Amigos da Diocese de Baucau)

Organizado por:
MIL: Movimento Internacional Lusófono
www.movimentolusofono.org

Evento Facebook: Debate MIL: Os 15 anos da CPLP (com o Secretário Executivo da CPLP)

Vídeo: 1º Debate “Desígnios Nacionais” do Dr. Fernando Nobre: Lusofonia Global e Dinâmica (24 de julho de 2010)

Debate: Lusofonia global e dinâmica

Sábado, 24 de Julho

Debate: Lusofonia global e dinâmica
Onde: Sede Nacional da Candidatura
Quando: Sábado, 24 de Julho das 18:30 às 21:00

Oradores: Miguel Real e Renato Epifânio

Debate Público: Portugal, 100 anos depois da República (completo)

Professor Mendo Castro Henriques (IDP) e Dr Pedro Martins
O Futuro da Lusofonia, com Alonso Novelhe
e Breve sessão de perguntas e respostas

Debate Público: “Portugal, 100 anos depois da República”


DEBATE PÚBLICO

PORTUGAL

100 ANOS DEPOIS DA REPÚBLICA

ORADORES

Mendo Castro Henriques – Pedro Martins

22 de Maio, Sábado, 16h00

Sociedade de Língua Portuguesa

Lisboa, Rua Mouzinho da Silveira, 23 (junto ao Marquês de Pombal)


RECOLHA DE LIVROS PARA TIMOR-LESTE

(todos os presentes deverão levar alguns livros para esta campanha do MIL, em parceria com a Associação de Apoio da Diocese de Baucau; quem não consiga estar presente, poderá deixar os livros antes ou depois na morada acima indicada)


MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO (www.movimentolusofono.org)
(blogue: www.mil-hafre.blogspot.com)
(facebook: http://www.facebook.com/group.php?gid=2391543356)

Vídeo (quase integral) do Debate Público de 5 de dezembro: O Futuro da Galiza no Espaço Lusófono

Fotografias do Debate Público: O Futuro da Galiza no Espaço Lusófono (5 de dezembro de 2009)

Uma sala bem composta…

José Manuel Barbosa, Renato Epifânio (moderador) e Alexandre Banhos

José Manuel Barbosa, Renato Epifânio (moderador) e Alexandre Banhos

Alexandre Banhos

José Manuel Barbosa, Renato Epifânio (moderador) e Alexandre Banhos

J. Carlos M. Fortunato, presidente da Ajuda Amiga, tomando notas…

Cuidando da parte técnica…

José Manuel Barbosa, Renato Epifânio (moderador) e Alexandre Banhos

A mudança de paradigma e a recuperação da memória histórica na Galiza

José Manuel Barbosa
Membro de número da AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa)

“Ignorar a história é permanecer sempre sendo crianças” Cícero

0- A importância da História para as nações

Imaginemos um caçador paleolítico a seguir umas pegadas dum veado. Ele sabe que num tempo passado mais ou menos distante ou próximo que por aquele lugar transitou um animal. Pelo conhecimento das pegadas, o nosso caçador pode reconhecer o tipo de animal e as condições nas que ele está para poder ser caçado. A inteligência do nosso homem junto com a sua experiência passada e a trabalhada técnica de caça fazem com que continue o rasto e consiga dar com a peça para poder dar-lhe captura e poder assim alimentar à sua família que teria assegurada a sobrevivência durante uma boa temporada.

O caçador soube pelos restos dum passado manifestado numas pegadas que havia uma peça de caça e pude completar o seu labor.

Isto não aconteceria se o caçador fosse um leão, um crocodilo ou qualquer outro depredador. Eles só responderiam ao estímulo de verem ou cheirarem à presa, nunca por terem conhecimento dum passado reconhecido por uns sinais ou marcas no chão a partir dos quais reconstruírem uma realidade com a qual pudessem prever um futuro provisor. Eis a importância do conhecimento do passado, sempre por meio dos restos que deixa e que são interpretados no presente para nos ajudarem a garantir o nosso futuro.

Também o conhecimento do passado para os povos é uma necessidade para a sua sobrevivência do mesmo jeito que é para o nosso caçador paleolítico ou para qualquer de nós individualmente. Podemos dar algumas provas: o tratado de Nanquim de 1842 foi de utilidade para a China para poder reivindicar com total legitimidade a devolução do Hong-Kong por parte do Reino Unido; o tratado de Utreque serve de utilidade para o próprio Reino Unido não ter de ver qualquer legitimidade por parte da Espanha na sua reivindicação de Gibraltar ou o a legislação saída do Congresso de Viena faz reconhecer que Olivença legalmente é Portugal embora não seja de facto.

01 – Compreender o presente

O conhecimento do passado nos ajuda a compreender o presente e isto permite mexer-nos no mundo no que estamos de forma prática, útil e de forma que o conjunto funcione sob critérios de saúde social que favorecem a estabilidade, a paz e a harmonia do grupo e com outros grupos.

Essa compreensão do presente nos leva a tolerância por conhecimento da dinâmica social. Assim poderemos compreender as razões que levaram a exercer a moral vitoriana e compreenderemos igualmente a falta de pudor dum ameríndio da Amazónia ou um nativo da polinésia e ver o absurdo da imposição do primeiro sobre os segundos.

Teremos uma ideia clara de porque a Generalitat de Catalunha é uma instituição ao serviço da liberdade do seu país mas poderemos reconhecer como a instituição da Junta da Galiza (Xunta de Galicia) tem conotações que derivam duma ideia de dependência e anti-autonomismo na Galiza (por isso a razão do “Conselho da Galiza” presidido por Castelão no exílio…).

Haveremos de compreender porque o Samhain, o Halloween e o Magusto têm a mesma origem e as mesmas feições básicas mas nem são exactamente o mesmo, nem nos corresponde aos galegos a identificação com o Samhain por muito que se lhe queira dar Bilhete de Identidade galego. O nosso é o Magusto com castanhas, bruxas, mortos que saem do Além, cabaças, etc… e não por isso é menos céltico. É igualmente céltico e ainda é a expressão da nossa celticidade galaica.

Poderemos perceber porque na Andaluzia existe o tratamento de “desrespeito cordial” insultando às mães dos amigos com um bom afã de “colegueo”(1) enquanto essa prática na Galiza ou em Portugal seja impensável por ofensiva.

Haveremos de perceber porque nas construções galegas há soportais e no entanto não há em Castela ou no Algarve…

02 – O conhecimento do passado nos orienta de cara o futuro

É este um ponto importante e de grande utilidade. O conhecimento do passado ajuda a assegurar a sobrevivência do grupo e não só a individual. O exemplo mais próximo que temos é o pensamento e sobre tudo a prática reintegracionista surgida na Galiza nos últimos trinta anos. A ideia de as falas galegas fazerem parte dum conjunto linguístico mais amplo conhecido internacionalmente com o nome de “português” leva a implementar para as falas galegas medidas que não só garantiriam a sobrevivência das falas galegas mas mesmo ajudariam a ver a Galiza como elemento importantíssimo da chamada lusofonia gerando uma mudança nas consciências dos galegos e das galegas que passariam dum conceito duma Galiza regional e periférica a uma Galiza central e importadora de modelos a seguir por uma civilizaçom que visa atingir num futuro próximo níveis de importância e de influência internacionais de carácter político, social, moral, económico, cultural e linguístico que a dia de hoje possui o mundo anglófono.

03 – O conhecimento do passado favorece o relacionamento com outros grupos humanos (próximos no tempo e/ou no espaço).

É fácil pensar como a Galiza pode se relacionar fluidamente com as nações atlânticas europeias pela sua proximidade física e pelos seus vínculos étnicos mas também é fácil pensar que embora não haja a mesma distância física ou genética, o relacionamento com os países africanos como Moçambique ou Cabo Verde ou outras mais longínquas como o Timor são viáveis e possíveis por termos uma língua comum. Esse pensamento vem dado pelo nosso conhecimento do passado e pela compreensão do presente.

04 – O conhecimento do passado tem um forte componente anto-identificativo

Os povos não existem sem memória e é essa a razão pela qual os Estados investem muito dinheiro no ensino do seu passado nacional e nos seus planos de estudo assim como para a sua construção nacional do mesmo jeito que conhecem perfeitamente com quais outros países se devem relacionar para defenderem os seus interesses.

1 – Que História se ensina no Reino da Espanha

1.1 – O paradigma da historiografia castelhanista

Primeiramente temos que dizer que por Paradigma entendemos o sistema ou modelo conceptual que orienta o desenvolvimento posterior das pesquisas, estando na base da evolução científica. Se o paradigma está errado, tudo o que se construa a partir dele também vai estar errado e dentro da historiografia peninsular é base conceptual a ideologia castelhanista, quer dizer, o pensamento nacionalitário centrado em Castela a partir da qual se exprime e exemplifica todo o anterior e todo o posterior. Castela é o centro e nem só geográfico da península pelo qual também se exprime a periferia também não só geográfica.

Para o paradigma castelhanista há uma série de dogmas irrenunciáveis que exprimem o que é a península, e são os seguintes:

Espanha é Hispânia

Durante a Idade Média se foi construindo um jogo de hegemonias que tinham por finalidade o domínio e controlo da península. Houve a tentativa muçulmana e a tentativa cristã. Esta última começou sendo um projeto galaico mas após o século XIII, Castela começa a apanhar poder e visa unificar a Hispânia sob projeto linguístico e nacionalitário castelhano. Como elemento estratégico, o nome de Castela ou Grande Castela pareceria pouco acaído, pelo qual a adopção de “Espanha” como herdeira da “Hispânia” pode parecer mais inteligente e mais viável para conseguir adesões e evitar resistências. É por isso pelo que o nome de Espanha foi o nome desse projeto que tentava, e tenta, como indica o seu nome, a unificação da península, de toda a península, mas sobre chefia castelhana. Esta dirigência de Castela nunca teve vontade de partilhar poder com as outras nações hespéricas. Quis, em troca, impor e dominar sobre elas, eliminando-as ou reduzindo-as a regiões satélites ou mesmo absorvendo-as.

Portugal é um erro histórico

Na península houve desde tempos antigos vários polos ou centros etno-linguísticos e/ou nacionalitário-culturais. São estes:

1. Um polo mediterrânico ou ibérico que se pode corresponder com os Países Catalães (Catalunha, Valência, Baleares) e mesmo Aragão e Múrcia.

2. Um polo Sul ou Tartéssico que se corresponderia com a actual Andaluzia

3. Um polo Nortenho-Pirenáico que se corresponderia com o povo vascão e o actual País Basco

4. Um polo Atlântico ou Galaico-Lusitano que viria corresponder com a velha Gallaecia (actual Galiza, Astúrias e Leão mais o Norte de actual Portugal) e a Lusitânia (Portugal do Douro para Sul e aproximadamente a actual Estremadura espanhola)

5. O Centro peninsular mesetenho.

Todos esses povos em maior ou menor medida caíram posteriormente, da Idade Média até hoje na órbita de Castela e todos foram mais um menos castelhanizados. Uns mais (Aragão, Múrcia, Andaluzia, Leão, Estremadura e Astúrias) e outros menos (Catalunha, Valência, Baleares, País Basco e Galiza). Mas de todos eles houve um território que ofereceu uma grande resistência apesar de ficar incluído dentro da Monarquia Hispânica durante um tempo, e esse foi o Reino de Portugal.

Castela não conseguiu a sua anexação e ainda menos a sua assimilação. É  por isso porque o domínio castelhano da península não é  total e graças a ele outros territórios podem pensar em se livrar dessa hegemonia mesetenha ao saber que isso é possível.

Portugal é portanto para o castelhanismo um erro histórico, um fracasso, e na narração oficial dos factos históricos apresenta-se sempre como algo que quase nem existe no melhor dos casos ou algo que há que desprezar no pior, mas que sempre apareceu nos mapas do domínio castelhano da península como algo estranho que nem era Espanha nem deixava de sê-lo.

É difícil achar um mapa da Espanha sem Portugal.

Para o castelhanismo historiográfico Espanha é uma criação de Castela

Para o castelhanismo, a Espanha é uma criação de Castela e do seu génio, não deixando outra possibilidade. A partir daí as outras regiões ou são apêndices da própria Castela ou aderiram o projeto castelhano.

Andaluzia, foi conquistada aos muçulmanos, mas foi definida em palavras do hispanista e presidente da “Real Academia Española” Pedro Laín Entralgo de “Castela-a-novíssima”. Assim diz no seu livro “A que llamamos España”(2) tendo em conta que o velho Reino de Toledo foi desde muito tempo atrás “Castela-a-nova” ou a dia de hoje segundo a nomenclatura “autonômica” Castela-a-Mancha. Se a Mancha seria “a nova”, Andaluzia seria “a novíssima”. Etnocentrísmo sem qualquer dúvida.

Astúrias e Leão foram as origens do projeto unificador peninsular esquecendo que se correspondem com a Gallaecia asturicense, atlântica, céltica e sueva. A dia de hoje Astúrias está separada de Leão e da actual Galiza e é uma região que nada tem a ver com a Espanha taurina, flamenca e castelhana que se vende no exterior como ícone. Astúrias é muito próxima em cultura, estética e sentir à Galiza, embora o sentimento asturianista cresça como oposição ao galaico, construindo-se a partir dum anti-galeguismo contrário à história, absurdo e inútil que obstrui tanto o desenvolvimento identitário tanto asturiano como o galego.

A região de Leão, Sul da Gallaecia asturicense simplesmente foi absorvida por Castela numa região autónoma comum denominada Castela-Leão mas onde os leoneses são identificados e nomeados facilmente pelo resto dos espanhóis de castelhanos. Muitos leonesistas se opõem a isto, mas o achegamento a Astúrias não se sente como necessário e muito menos o achegamento à Galiza.

As regiões mediterrânicas de Aragão e Valência são também territórios em grande parte castelhanizados e desenvolvidos num anti-catalanismo forte e visceral, já que Catalunha é o único território espanhol que é capaz de fazer frente ao castelhanismo com um sentimento e uma praxe eficaz que poderia derivar numa ruptura que faria fracassar pela segunda vez (a primeira foi Portugal) a ideia da Hispânia castelhana e unitária.

Por outra parte o País Basco cuja parte mais ocidental deu origem à  primitiva Castela é um país de fortes contrastes. Por um lado onde a resistência anti-castelhanista e anti-espanholista é mais forte incluso dum ponto de vista físico mas por outra onde o castelhanismo ou espanholismo tem apoios mais extremos, de tal jeito que poderiam chegar a inviabilizar o projeto nacional basco fora do contexto espanhol.

Finalmente o caso galego é um caso muito especial, com avanço importante do projeto nacional castelhano mas também com mais possibilidades de futuro se este depender da consciencialização a partir do seu passado anti-castelhano. A Galiza em potência é um autêntico perigo para o castelhanismo porque ela partilha língua e cultura com Portugal, o grande insucesso de Castela. Galiza foi historicamente quem criou o projeto unionista não castelhano e de unificação hispânica em épocas medievais e quem a dia de hoje pode olhar para Portugal e o mundo lusófono como via de saída para evitar a sua castelhanização completa e forçosa e a consequente desgaleguização.

Como vemos, a hegemonia castelhana chega a quase todos os pontos da península e isso é traduzido numa forma de contar os factos passados, isto é, a história da península e de descrever as origens das diferentes culturas e línguas da Hespéria. Esse poder faz pensar a esse castelhanismo que ele tem direito para impor a sua forma de perceber a realidade e sente que deve ser obriga de todos os povos hespéricos seguirem os mesmos objectivos e verem-se satisfeitos com os mesmos interesses, forem estes povos atlânticos ou mediterrânicos; forem estes nortenhos e verdes com as conseguintes implicações económico-sociais ou sulistas e quase desérticos; forem estes mesetenhos ou montanhosos… e o mérito é todo, sempre de Castela que foi a que se diz criadora e construtora da Espanha.

Espanha surge com Roma e os Visigodos

Como Castela tem de justificar o seu protagonismo e tem de possuir razões para cumprir com o seu destino unificador, deve haver uma realidade anterior que legitime, explique, fundamente e prove que as cousas são como ela diz que são.

A unidade da península deve ter uma origem e uma razão e esta vai estar baseada em unidades anteriores. A Espanha castelhana surge em Covadonga (Astúrias) , onde um pequeno e valoroso grupo de rebeldes cristãos luta numa batalha contra os invasores muçulmanos que curiosamente também queriam unificar a península. Os, já, “espanhóis” de Covadonga, uma vez consolidados com um poder político alternativo ao cordovês botam mão dum ideologema -o “goticismo”- que lhes dá uma razão para lutar contra os ilegítimos ocupantes muçulmanos da península até despejá-los da mesma e recuperarem o reino visigodo tal qual era anteriormente do ponto de vista territorial.

A cousa não acaba de ficar assim, porque anteriormente aos visigodos a Hispânia já estava unificada sob domínio romano de forma que a península deveria estar unida porque assim o esteve sempre. O pensamento castelhanista quereria conseguir manter e preservar essa unidade e banir do jogo político qualquer derivação que atentasse contra esse ideal de unidade o qual seria um erro grave ou mesmo um pecado. Para isso estava destinada Castela.

Os conceitos de Reconquista e Repovoação

A ideia paradigmática que dá o castelhanismo para “reconquistar” Espanha é por meio do avanço cristão sobre o território muçulmano limpando de islamitas as regiões ocupadas e repovoando-as com gente procedente do Norte. Esse jeito de limpeza étnica levaria à “união de todos os espanhóis” e sempre Castela a protagonista do projeto.

Reconquista é porque nunca foi legítima a entrada e ocupação da península por parte do islão e porque ainda havia a obriga moral e mesmo religiosa de recuperar, daí o termo, os territórios hispânicos anteriormente visigodos e cristãos. A Reconquista obrigava à expulsão dos invasores e a repovoação com cristãos ou como mal menor a reconversão de elementos islâmicos ao cristianismo.

A Galiza nem existe nem tem importância nenhuma.

Em todo este avatar histórico a Galiza não é nada, quase nem existe nem tem a menor importância nem protagonismo para a construção da futura Espanha. Desde o 711 em adiante quase de forma repentina a Galiza deixa de ser o país que ocupa as actuais terras nortenhas de Portugal, Astúrias e Leão para passar a ser uma triste regiãozinha cujos limites já são os que conhecemos hoje, que se vê ocupada pelos muçulmanos e que há que repovoar novamente com elementos humanos que se supõe provenientes irremediavelmente das Astúrias. Ovedo já não é Galiza, Leão é um reino desde o 910 quando esta cidade se passa a ser o lugar da Corte (3) e Portugal era Galiza “ma non tropo”.

1.2 Qual é a metodologia para ensinar a História de Espanha

A História que se estuda no ensino primário, secundário e universitário na Espanha atende a programas elaborados até certo ponto pelo Ministério de Educação mas em boa parte pelas Conselharias de Educação das Comunidades Autónomas. Aquelas Comunidades Autónomas com competências em educação, que a dia de hoje são todas, elaboram um temário com matéria relacionada com a Comunidade Autónoma correspondente mas exceptuando Catalunha e o País Basco que aplicam um paradigma diferente do castelhanista todas as outras seguem fielmente os ditados do arquétipo centralista. Foi por isso pelo qual estas duas Comunidades Autónomas tiveram problemas nos média durante os anos 90: por, segundo os média, manipularem a história de Espanha e inventarem umas histórias do País Basco ou de Catalunha que não se ajustavam ao passado real.

A Galiza teve problemas ultimamente (nomeadamente durante o governo do bipartido PSOE-BNG) embora os autores que defendiam o que chamaremos mais adiante “paradigma galeguista” já tivessem publicado as suas bibliografias anteriormente. O ataque foi mais do que nada político. Embora isto seja assim, os programas de estudo seguem uma história da Galiza bastante pouco séria do ponto de vista científico, que não atende às fontes documentais e que aprofunda pouco no passado do País partindo dos conceitos inamovíveis do padrão elaborado por Castela.

A metodologia no que diz respeito à história que se estuda no Reino da Espanha está baseada em dous pontos fundamentais:

1. A filosofia arquetípica castelhanista da qual vimos falando e que será tanto mais extremista na medida na que o regime ou o partido do governo em Madrid tiver menor vocação democrática. Filosofia, esta, que na prática é indiscutível, inamovível, falsamente científica e dogmática. Conhecemos casos de perseguição e acosso laboral de pessoas vinculadas à Universidade até o ponto de perderem o seu trabalho e a sua saúde por defenderem posicionamentos científicos discrepantes com a filosofia oficial, mesmo em época democrática (estou a falar dos anos 90 do século XX) e protagonizadas em alguns casos por professores ou professoras que nada teriam a ver com posicionamentos políticos galeguistas. Simplesmente por honradez e honestidade científica.

2. O presentismo cartográfico que nos faz entrar pelos olhos configurações territoriais próprias do tempo presente aplicadas a épocas históricas nas que não se correspondiam as realidades em questão.

2 – Que se ensina na Galiza

A Galiza é politicamente um apêndice da Espanha, e isto é assim do ponto de vista legal-institucional como até o dia de hoje também é o País Basco ou a Catalunha. A Galiza também é um apêndice da Espanha no seguimento oficial da ideologia, muitas vezes, anti-galega, cousa que não acontece nos dous países antes nomeados que sabem defender os seus interesses políticos e económicos por acima do poder estatal. Assim, a Galiza reproduz o paradigma castelhanista tanto no ensino como maioritariamente na investigação, exceptuando honradíssimos casos como os de Camilo Nogueira, Anselmo López Carreira, João Bernárdez Vilar, José António López Teixeiro, André Pena Granha, Higino Martins Esteves, ou os históricos Ricardo Carvalho Calero e Ernesto Guerra da Cal, e ainda mais alguns que não nomeio por falta de espaço.

Nos estudos oficiais na Galiza ensina-se o seguinte:

* A Cultura chamada Castreja e os Celtas têm pouco ou nada a ver, de forma que qualquer elemento civilizacional galaico se diz de origem mediterrânico. Na época romana a Gallaecia quase não existe. Tudo é latino do ponto de vista cultural e latim do ponto de vista linguístico. O elemento indígena não achega nada útil à formação da futura Galiza e Roma é quem a inventa. Antes de Roma não há nada. É o vazio.
* Os suevos são um povo bárbaro, no senso pejorativo da palavra, que não deixa pegada nenhuma e o seu Reino é anedótico. Os suevos são bárbaros e os visigodos estão romanizados, o que significa que são mais civilizados. São estes últimos os que marcam a personalidade de toda a península incluída a Galiza. Não há elementos importantes e interessantes a salientar para a historiografia europeia no Reino Suevo, nunca Reino de Galiza ou Gallaeciense Regnum.
* Os muçulmanos ocupam também a Galiza (porque ocupam “Hispania tota”) que já nesta altura se identificava territorialmente com a Galiza actual. Astúrias é um Reino que “reconquista” e “repovoa” Galiza (4) para a causa cristã e a importância do País do apóstolo São Tiago descoberto por um Rei asturiano é mínima. Galiza é um ninguém, não tendo qualquer protagonismo nem militar, nem social, nem económico, nem quaisquer outros. Nesta altura é Astúrias a importante que lhe passa a testemunha a Leão e esta finalmente a Castela. Durante toda a Idade Média a Galiza é um objecto passivo nos acontecimentos da parte cristã da península e passa a ser um “Reino” pontualmente duas ou três vezes por acidentes políticos que se reencaminham da mão de Reis com interesses leoneses ou castelhanos (que finalmente vinha a ser o mesmo). Ser Rei de Galiza (a Galiza entendida territorialmente como a de hoje, não como a real daquela altura) é como não ser nada e normalmente nem se nomeia na historiografia geral peninsular porque os Reis da Galiza são Reis muito pontualmente ou são segundões sem transcendência histórica. Tudo em função de Castela (ou Castela-Leão) (5)
* A independência de Portugal conta-se como um acontecimento que tem “algo” a ver com a Galiza.
* Algum Rei chamado o Sábio deu-se-lhe curiosamente por escrever em galego porque era esta uma língua muito linda e poética mas esse rei era castelhano e a língua por excelência de toda a historiografia oficial é a de Castela falada pelos personagens realmente importantes como o Cid,  ou o Rei do qual era bom vassalo como Afonso VI, também castelhano mas mal Senhor porque não defendia os interesses castelhanos.
* Os séculos XIII e XIV são séculos de lutas dinásticas entre Reis e revoluções sociais, mas nada se diz do lugar que ocupa a Galiza em tudo isto, as autênticas motivações, interesses, apoios e projectos da Galiza nestes séculos. Também nada se diz do que Portugal faz a respeito de Galiza.
* Os Reis chamados Católicos, Isabel e Fernando, foram os que “domaram e castraram” Galiza mas também são os que lhe dão gloria e unidade a Espanha. Há alguns que mesmo defendem na Galiza a conversão da Isabel I Trastâmara de Castela em beata como primeiro passo para a sua ascensão a Santa.
* Nos chamados Séculos Obscuros (de final do S. XV até a chegada de Napoleão à península) só há história económica (6), a história política está reservada para a Coroa de Castela ou o Reino da Espanha que vinha ser o mesmo. Galiza era um país de camponeses e marinheiros sem qualquer poder político e por algum personagem mais conspícuo do que os outros porque serve à Coroa.
* Durante os séculos XIX e XX Galiza só achegou escritores e galeguistas que não andavam metidos na política e por isso foram importantes. Todos eles sentiram-se muito espanhóis e o galeguismo é um pensamento mais do que nada cultural embora tivesse uma expressão regionalista que o espanholismo assume com normalidade. Mesmo o galeguismo nacionalista tinha disto último só o nome, porque todos os galeguistas defendiam a ideia de Espanha.

3 – Qual é o paradigma galeguista?

Diz-se habitualmente que a história é contada sempre pelos vencedores. Neste caso, o paradigma galeguista é o que não triunfou e é por isso pelo que para além de não ser oficial, nem se ensina, nem se acredita nele. Mesmo as provas, as evidências, os documentos, os textos e as pessoas que os expõem tenham da sua parte toda a autoridade e a veracidade.

* Antes de Roma o N.W. peninsular estava habitado por um povo proto-celta matriz dos celtas do mundo Atlântico. Assim é como no-lo demostram os estudos de várias universidades britânicas seguindo estudos genéticos e mesmo a moderna Teoria da Continuidade Paleolítica de Mário Alinei, Francesco Benozzo e ainda o anteriormente o Professor galego André Pena Granha que já expus esta teoria, pelo menos no que diz respeita ao Noroeste peninsular vários anos antes do que fosse exposto pelos professores italianos, mas como na Galiza tudo passa pela peneira castelhanista não houve forma de que transcendesse.

* A língua dos chamados galaicos e lusitanos era a mesma e ocupava todo o Norte e o Oeste da península até o Tejo aproximadamente. Portanto, o parentesco galaico-lusitano era já anterior a Roma. Roma só dividiu pelo Douro com o fim de dividir para vencer. Prova importante para isto é que nas guerras lusitanas participassem tropas galaicas. Se os galaicos forem outro povo muito distante e alheio aos lusitanos essas guerras não seriam da sua incumbência e portanto não participariam.

* Durante a ocupação romana, a Gallaecia foi uma das províncias do império mais sucedidas economicamente, culturalmente e do ponto de vista artístico sendo o elemento indígena fulcral. Figuras como Prisciliano, Egéria, Paulo Orósio, e Idácio Lémico foram prova da importância da Nossa Terra. A figura de Prisciliano poderia equiparar-se a outras paralelas dentro do mundo céltico e atlântico como São Patrício, São Davide ou Santo André. Aliás, Prisciliano, pode dar pistas a respeito do fenómeno Jacobeu já que há quem assegura que quem realmente está (ou estava) em Compostela não era São Tiago, mas Prisciliano. As provas não são determinantes, mas a lógica leva por esse caminho.

* Os suevos, um povo germânico dos mais evoluídos e “romanizados”, constituíram na Gallaecia, a zona mais rica e desejável para eles da península, o primeiro Reino independente de Roma com um projeto militar e político de unificação peninsular com capital em Braga e com o apoio, colaboração e implicação dos galaicos que o sentiam como seu. A importância dos mesmos é grande: Com eles a Gallaecia constituiu-se no primeiro Reino medieval da Europa; foram os primeiros em emitirem moeda, o Sólidus suevo; os primeiros em legislar, administrar e construir um Estado; o primeiro Reino cristão após Roma; os criadores da mal chamada “letra visigótica” já que na realidade começou a existir na Gallaecia antes da chegada dos godos; os criadores da primeira arte pré-românica com elementos como o chamado arco de ferradura que na historiografia castelhanista diz-se visigodo; os primeiros em assumirem o cristianismo católico antes do que qualquer outro povo germânico, por isso a sua aceitação pelos galaicos. Na historiografia castelhanista diz-se que foram os visigodos os primeiros em aceitarem o catolicismo…

* Durante a unificação suevo-visigótica a Galiza manteve a sua personalidade política e administrativa, cultural, social e económica, contrariamente à ideia castelhanista dum Reino unificado visigótico com capitalidade centralista em Toledo e primeira amostra de Estado Espanhol pan-peninsular. Os Reis tinham o título de “Reis de Espanha, Galiza e a Gália” entendendo que a Galiza e a Espanha eram realidades diferentes. A Gália num princípio ocupava a actual Ocitânia para posteriormente ficar só na Septimánia ou Narbonense.

* A entrada dos muçulmanos na península deve-se à chamada dos vitizanos galegos. O domínio muçulmano da Espanha excluía por definição a Galiza fazendo desnecessária qualquer intervenção militar por parte destes por contarem com o apoio dos seus aliados vitizanos que eram quem tinham o poder na Galiza. Posteriormente a Galiza manteve um vazio de poder no conjunto do País mas governado por régulos de entre os que haveria que salientar os das Primórias, nome que se lhe dava naquela altura às comarcas do actual oriente asturiano e que levaram a iniciativa na posterior unificação de toda a Galiza. Da territorialidade da Galiza suevo-visigótica, só a região conimbriguense fez parte da Spânia (ou Al-Ândalus) para posteriormente ser recuperada e volta a perder por várias vezes por e para a Galiza.

* O nome do “Reino de Astúrias” ou “Reino de Leão” não é o que está recolhido nos documentos andalusis, carolíngios, papais, germânicos, anglo-saxónicos, bizantinos e escandinavos. O nome que figura neles é o de “Reino de Galiza” ou mais justamente em latim “Gallaeciense Regnum” (às vezes “Christianorum Regnum”). Dentro dos textos peninsulares, só uns poucos safaram da manipulação posterior do século XIII e posteriores. Os outros, redigidos muito posteriormente aos eventos que narram (7) não são fiáveis.

* Os conceitos de “Reconquista” e “Repovoação” não são interpretados igualmente pela historiografia galega e a castelhana. Para a castelhana é a recuperação do território nacional perdido por conquista e invasão muçulmana, mas para a historiografia galega nunca existiu um programa consciente durante a Idade Média de ocupação da Espanha muçulmana, nem um processo cronológico continuado de conquista. Desde a reunificação da Galiza após a entrada muçulmana até o século XI não houve variações importantes de limites territoriais. Contrariamente houve variações desde a anexação de Toledo, momento desde o que começa realmente o avanço cristão desde o Norte. Por outra parte “Repovoar” é interpretado para o castelhanismo como “tornar a povoar o que antes estava vazio ou povoado com outras pessoas alheias dum ponto de visto étnico e que houve de expulsar para manter a uniformidade nacional”. No entanto, segundo a versão galega a palavra “Repovoar” vem do latim originário REPOPULARE que vem sendo tornar a organizar um território, não do ponto de vista demográfico mas do administrativo e do político.

* Segundo o paradigma galego, o Reino de Galiza foi o protagonista da maior parte da Idade Média e o projecto de unificação peninsular. Castela surgiu quando esse projecto já estava encaminhado fazendo-se com ele e manipulando a historiografia. Para Castela, a Galiza simplesmente não existe, nem antes nem depois. Durante o Século XIII em adiante se vai levar a cabo por meio de determinadas pessoas com nomes e apelidos a eliminação do nome da Galiza dos documentos e o processo histórico leva a eventos que consolidam Castela como a construtora da actual Espanha (8). A separação de Portugal, a castelhanização de Leão e a união de Castela com Aragão fecham o processo.

* Os chamados “Séculos Obscuros” enquadrados dentro da Idade Moderna para o nosso paradigma não são tão obscuros. Na Galiza houve vida política embora dependente e com vontade de recuperação em alguns casos. O maior e mais importante episódio desta época é o seu final, quer dizer, a guerra contra os franceses no que a Galiza de facto agiu com total independência, com o seu governo, o seu exército, a sua política fiscal e diplomática e de facto quem conseguiu com ajuda do exército aliado britânico a expulsão dos franceses da Espanha e a derrota de Napoleão. O nosso País foi o primeiro da Europa em ficar livre de franceses. Infelizmente a ideia de fidelidade a um Rei fez com que essa independência de facto fosse cedida a uma monarquia quem poucos anos depois (em 1833) eliminaria o “Reino da Galiza” da cartografia, da legalidade, da diplomática e da nomenclatura para criar quatro províncias sem mais conexão entre elas do que pudesse haver com outras do novo “Reino da Espanha”.

* No que diz respeito da língua, o paradigma galeguista sempre defendeu a unidade linguística galego-portuguesa e a necessidade da unificação e confluência entre as falas galegas e as portuguesas. Há hoje um galeguismo que isso não aceita, mas é o “galeguismo” oficial e dependente chefiado pela mesma ideia que gere o paradigma castelhanista. A origem da nossa língua está naquele “Gallaeciense Regnum” medieval que se quer negar desde Castela e ainda naquele “Galaico” ou “Proto-Galaico” do século X do que nos falam Carvalho Calero ou Rodrigues Lapa está mesmo a origem do castelhano que não é mais do que uma variante oriental extrema do Asturo-leonês ou galaico-oriental em contacto com o substrato basconço. O galego-português é a variante que os nossos vultos denominam como galaico-ocidental. O famoso “Mio Cid” não está redigido originalmente em castelhano medieval porque este não existia, mas em navarro-aragonês como nos dizem mesmo prestigiosos autores espanhóis como Rafael Lapesa ou Alonso Zamora Vicente. As chamadas “glosas emilianenses” e “glosas silenses” origem do castelhano segundo nos contam na escola, no liceu e na universidade não estão em castelhano, mas em navarro-aragonês. O castelhano é uma língua que se elabora a partir das falas de contacto entre o galaico-oriental (ou astur-leonês), o basco e o navarro-aragonês que era uma fala emparentada com o gascão e o catalão. No tema da língua o supremacismo castelhano e castelhanista agiu do mesmo jeito: destruindo documentação, manipulando informação e reduzindo o protagonismo da Galiza e do galego(-português)

4 – Porque isto é assim?

Para o castelhanismo a funcionalidade deste paradigma é político-ideológico. Com esta forma de contar as cousas, o histórico imperialismo castelhano procura justificar a sua hegemonia na península e para isso não lhe é obstáculo falsificar a história, tanto mais se a Galiza foi quem chefiou originariamente o projecto de unificação peninsular que hoje leva sobre si a própria Castela com o nome de Espanha.

Fomos concorrentes e mesmo, acreditam, ainda poderíamos sê-lo se nos identificarmos com o mundo português e lusófono já que por aí viria um acréscimo de forças que como mínimo fariam que Castela visse em perigo a sua hegemonia peninsular.

Essa manipulação de factos históricos, essa forma de fazer da Galiza um ninguém é uma maneira de desidentificação com ela própria e com a sua família etno-linguística para debilitá-la e mesmo anulá-la.

Castela hoje é forte na península e nunca por parte dum português deveria haver um ideia iberista, porque com isso joga Castela para continuar o seu labor assimilador. A força de Portugal, o que ainda fica daquele projecto nacional galaico, estaria em debilitar Castela e essa debilidade está na aliança com a Galiza e o galeguismo. Isto, juntamente com estreitar laços de amizade e colaboração com outros povos da península ainda não castelhanizados fariam com que o hegemonismo castelhano não chegasse muito para além

5 – Conclusão

Se a Galiza se identificar linguisticamente e mesmo historicamente com os povos que conformam a sua família faria com que as forças tornassem a ela. Isto só nos ia trazer benefícios de todo tipo: políticos, económicos, sociais, culturais… por isso devemos saber agir com uma estratégia adequada mesmo sem poder político galeguista na Galiza que poderia tornar às nossas mãos mercê a essa inércia e sinergia. Qual seria essa estratégia?

1. Ligações com o mundo céltico que reforçassem a ideia de Matriz da mesma e partilhando interesses atlânticos. Isso ligar-nos-ia com as Ilhas Britânicas e não só o mundo céltico, mas também o mundo anglo que a dia de hoje é o mais poderoso do planeta.

2. Ligações com o mundo lusófono, com a galeguia, da qual também somos Matriz. Também isto achegaria benefícios já que pela nossa língua e os nossos recursos humanos estaríamos muito bem situados em relação a outros povos em vias de desenvolvimento. Para os galegos, a nossa fala deixaria de ser uma fala regional para ser a Matriz duma civilização com o que isso traz de beneficio. A riqueza material, e não só espiritual que a nossa língua ia trazer seria muito grande em relação com a que nos traz hoje e mesmo a que lhe traz a outros povos e outras língua que ainda com grande dignidade não têm o número de utentes que tem o português. O nosso relacionamento não seria o duma região periférica, mas de ônfalon à par de Portugal e Brasil com a força suficiente para evitarmos agressões culturais às que hoje estamos expostos e ainda com o futuro duma lusofonia que joga a ser potência mundial da mão do grande Brasil.

3. Dentro da Galiza haveria que estruturar a conformação político-partidária de forma inteligente criando formações políticas que atendessem todas as camadas sociais sem excepção. A dia de hoje, só uma formação política de esquerda é que pode agir com certo poder político na Galiza (e para isso limitado). É o BNG (Bloco Nacionalista Galego), mas este não pode concorrer pelo voto com o PP já que os votantes são diferentes sociologicamente. Por outra parte o BNG não poderia governar nunca só e menos com maioria absoluta pelas circunstâncias que actuam na Galiza. O BNG não tem aliados nacionalistas pelo que qualquer oposição seria sempre brutal e maciça. A necessidade duma formação partidária de centro ou centro-direita dividiria o voto da direita, deixando o PP com menos força, menos votos e menos representação não permitindo mais maiorias absolutas desta formação não defensora dos interesses galegos perante os do Estado. A falta de maiorias obrigaria a pactuar para governar e mesmo poderia dar-se o caso no que o nacionalismo com o tempo chegasse a ter maiorias que levassem o projecto nacional galego a uma maior e melhor viabilidade. O nacionalismo poderia andar com os dous pés recorrendo à aliança quando for possível e à discrepância quando for útil. Só assim poderia ser possível evitar dar passos atrás no que diz respeito dos direitos dos galegos, da língua… Poderiam ser mais fáceis os avanços na construçom nacional podendo conseguir novos marcos legais que obrigassem o castelhanismo a recuar e mesmo a construirmos novas entidades políticas que garantissem a soberania social, cultural, linguística, política e mesmo mental da Galiza. Poderíamos colaborar com outras nações da península com o fim de equilibrar forças e reduzir o castelhanismo e torná-lo humilde num contexto que sempre o fez soberbos. Poderíamos evitar racismos e xenofobias anti-galegas como há hoje no Reino da Espanha e ainda dentro da Galiza .

Do nosso ponto de vista o nacionalismo galego deveria ter em conta esses três pontos de tal forma que a discussão de se somos rabo de leão ou cabeça de rato seria absurdo. Pela nossa história, pela nossa língua e pelo futuro que se nos poderia abrir, estaríamos a jogar a ser cabeça de leão.

Notas

1. Estou-me a referir à expressão “Hijo de Puta” dirigida a um amigo. Com isso se leva a cabo o “colegueo” que é uma palavra castelhana que vem de “colega” que significa “companheiro, amigo… Com esta expressão exprime-se a acção de fazer e/ou desfrutar duma boa amizade com alguém.

2. Lain Entralgo, Pedro: A que llamamos España. Circulo de lectores. Barcelona. 1994. Página 48.

3. Casualmente para o castelhanismo o Reino de Leão também é identificativamente um Reino diferente do que o Reino de Astúrias. Curioso caso no que o nome do país muda segundo muda a capital do mesmo… ou quiçá por serem Reinos diferentes sejam também mundos diferente que não têm a ver uns com os outros. É curioso como ainda hoje no Principado de Astúrias consideram “Reis de Astúrias” todos os monarcas entre 711 e 910 quando a Corte se passou para a cidade de Leão. Não cabe na cabeça de ninguém que esse “Reino de Leão” desde Ordonho II em 910 possa ser o mesmo Reino do que surgiu em Covadonga ainda com capital diferente. Ao passar o Cordal Cantábrico já não é “Reino de Astúrias” mas de Leão porque dum ponto de vista presentista hoje Leão não é Astúrias.

4. Portanto os galegos de hoje não são mais do que descendentes de asturianos medievais.

5. No filme “El Cid” protagonizado por Charlton Heston o Fernando I e posteriormente Afonso VI são Reis de “Castela, Leão e Astúrias”. A palavra Galiza não aparece por nenhures e Leão e Astúrias que faziam parte do mesmo território político na altura são consideradas como dous Reinos diferentes. Nesse mesmo filme aparecem dous dos três filhos varões do Rei Fernando: Sancho e Afonso. O terceiro filho, Garcia, que levou em herança as actuais Galiza com Portugal mais as taifas de Badalhouce e Sevilha não apareceu em todo o filme nem se nomeou.

6. De penúrias, fomes, e falências o qual leva aos galegos à incultura e à ignorância muito salientada pelos clássicos castelhanos desses séculos chamados de “Séculos de Ouro” em contraposição aos “Séculos Obscuros” galegos.

7. Segundo Anselmo López Carreira, autor do livro “O Reino Medieval de Galicia” editado por “A Nosa Terra” em 2005 diz-nos nas páginas 131-133 que autores como Barrau-Dihigo consideram fiáveis muito poucos documentos da época chamada asturiana (711-910). De 68 diplomas, só 19 são autênticos “ou le paraissent”, dos quais só 5 são originais, os outros 14 parecendo fiáveis chegaram até os nossos dias em cópias antigas ou modernas, portanto susceptíveis de serem alterados. O professor Floriano, sendo considerado menos crítico considera 5 documentos autênticos de 15 estudados desde 711 ate o ano 799; de 800 até 866 recolheu 69 dos quais só lhe pareceriam autênticos 44, de 867 até 910 estudou 120 dos quais só 92 seriam autênticos. Posteriormente o Professor Floriano num segundo estudo chega a considerar que só 7 originais nos chegam do período astur depois de afirmar que “no llegan a medio centenar los conservados”. Diz-nos também o Professor Carreira que dos investigados por ele e dos 313 documentos apanhados da Catedral de Compostela, só 12 se transmitiram independentemente dalgum cartulário e menos do 2% são originais. As crónicas não saem melhor qualificadas. O seu aproveitamento só é aceitável após uma grande poda. Inclusivamente as bases historiográficas nas que se baseia o castelhanismo como são as “Crónicas Asturianas” e  chamada “Crónica de Afonso III” questionam o denominado “Reino Astur” e o seu valor fica relativizado pela intencionalidade política com a que foram redigidas. O seu fim era legitimar a autoridade monárquica exercida desde Ovedo. Mesmo o episódio de Covadonga só se pode interpretar em chave mítica.

8. O Bispo Pelayo de Ovedo, Rodrigo Ximénez de Rada e Lucas de Tui foram os que levaram a cabo durante o século XIII o movimento de eliminação da palavra “Galiza” dos documentos, refazendo-os, manipulando-os, destruindo-os, etc… A razão era o privilegiar Toledo como cidade principal tanto do ponto de vista religioso como político em detrimento de Compostela e ainda fortalecer o poder castelhano na península e debilitar o projecto nacional pan-peninsular galaico.