Arquivos Diários: Maio 20, 2010

O TRUNFO DO MERCANTILISMO

Por Artur Alonso.

Os mercantilistas estão de em hora boa, o remate do capitalismo financeiro e a inauguração da nova etapa do “Despotismo ou Totalitarismo Bancário”, em que uma parte ínfima da sociedade (as elites financeiras) controla e organiza baixo seu interesse, a vida do resto dos seus congêneres, esta imposta ao fim; não sem um largo percurso e tentativas diversas, como a que existiu a princípios do século XX, mas que não pode ser levado à frente dado o Estado estar, nessa altura, mais fortalecido que o capital.

Este assalto encoberto as populações e a autonomia dos governos, terá repercussões muito importantes na vida das presentes e futuras gerações, assim como na forma de relacionamento entre estas e o novo Estado Gestor das políticas ditadas pela Elite Financeira global.

Os mercantilistas precisavam socializar suas perdas, após transferirem milhões de milhões de dólares de dívida podre dos seus activos tóxicos financeiros para a dos governos, é agora hora de devorar ao próprio Estado que lhe forneceu os recursos para a recuperação dos seus grupos lobistas, seus bancos e corporações multinacionais correspondentes, a conta das poupanças da cidadania e das classes trabalhadoras.  Se alguém não descobriu ainda este perverso jogo é hora de se despertar, por que do contrario ficara eternamente alienado, e perdera a capacidade de discernir.

Em estes momentos que os défices estatais estão inflados, forçados ao máximo para salvar ativos tóxicos bancários, jogados em alto risco com recursos provenientes duma cidadania ocidental altamente endividada, são precisamente quando nos mencionam, num dos maiores exercidos de hipocrisia jamais imaginados, que os Estados foram negligentes assumindo tanto risco. A hipocrisia chega a superar qualquer forma de cinismo quando precisamente são utilizados estes fluxos provenientes das dividas Estatais para atacar maçicamente aos Estados e obrigá-los fazerem as políticas desenhadas pelos mesmos que iniciaram a crise sistêmica. São precisamente estes poderes os que estão a desenhar as políticas de arrecadação que induzem os governos a recuperar esses capitais dilapidados na salvação da banca, dos contribuintes.

Sabemos, por cima, que os défices estatais, em contra do tão almejado desequilibro econômico que provocam, segundo a mídia de referencia oficial, pelo contrario são precisos e ate imprescindíveis para vigorar a recuperação económica, criar emprego e aumentar a produtividade e consumo, dentro da própria lógica do sistema.

Pela contra a contração destes défices de forma não ordenada e precipitada, provocará perda de emprego, falência de pequenas e medianas empresas, contração nos salários e no poder de compra dos trabalhadores, e pelo tanto diminuição prolongada do consumo, … Mas a dia de hoje não é possível seguir uma linha diferente a marcada pelos novos organizadores do mundo: os Banqueiros Globais. Governo que decida tal suicídio será imediatamente atacado por todo tipo de especuladores, sua divida passara a ser classificada a baixa pelas agencias de Classificação que pouco tem de independentes, forçando com estes movimentos aos Estados Ocidentais da periferia a aplicarem as suas políticas. Estas mesmas agências de classificação que qualificaram de triple A as inversões em ativos hipotecários podres tipo subprime.

Dentro desta estratégia do capital uma vez obtida a salvação a custa de enfraquecer as receitas do Estado, o seguinte passo, que se esta a dar nestes dias, será a implementação de políticas anti-sociais, que dificultarão a recuperação dos países periféricos, impondo-se o centro bancário, como no caso da Europa a periferia denominada de PIIGSS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha); não há que esquecer que os bancos alemães e franceses ainda dentem o 80% da divida externa (já nunca mais soberana) grega. Quantos dinheiros terão ganhado estes bancos com a elevação do custo desta divida? Sem deixar de lado os multimilionários contratos de armamento que a França e Alemanha tem subscrito com a Grécia, e que agora a Grécia terá de pagar com parte do dinheiro emprestado, alem de reembolsar a percentagem dos juros.

Numa segunda volta a Oligarquia Mercantil, exigirá o enfraquecimento do Estado por médio das privatizações dos poucos sectores que ainda permanecem sob controle publico, a começar pelo transportes públicos (por certo, esta a ocorrer na Grécia) e tal vez depois pela sanidade.

A privatização da sanidade se efetuará previsivelmente em diversas etapas: privatizando primeiro a gestão, e por ultimo modificando o modelo de sanidade pública a um modelo sanitário privado encoberto, se antes a cidadania não se organiza e logra paralisar o embate. A privatização da educação é outro dos objetivos em médio e longo prazo.

Realmente ao que estamos assistindo a uma luta de classes encoberta, que segue a lógica iniciada trás a queda da União Soviética, de desmontar um Estado Providencia que já não é estrategicamente valido, e por riba opõe travões a expansão do mercantilismo. Para expandir o espaço mercantil, precisam enfraquecer o poder Estatal, para enfraquecer este poder precisam converter o Estado em um mero gestor das suas decisões, para o qual também é preciso rumar do Capitalismo Financeiro ao Despotismo Bancário: hoje chegamos a esse momento, estamos nesse ponto.

O mercantilismo global também vai tentar controlar países em vias de desenvolvimento por médio do FMI e o Banco Mundial, tal qual sempre fez, com o chamado terceiro mundo.

Este tipo de políticas postas em marcha agressivamente, desde o inicio da crise sistêmica, tem provocado já efeitos muito perniciosos por todo o mundo, gerando mais pobreza e pior distribuição da renda.

Para poder vencer ao trabalho uma vez superado o entrave estatal, o capital prefere atacar isoladamente cada país a travar uma luta global ou europeia contra a cidadania. Mas a cidadania deverá unir-se a nível europeu e global para poder enfrentar o embate, alem terão de ultrapassar ao movimento sindical como movimento único de combate, e chegar a uma coligação cívica com capacidade de defrontar um capital vigoroso e sedento de liquidez. Para isso será necessária uma luta combinada de todas as organizações sociais, em um pacto mínimo de reivindicações comuns, aonde ao movimento trabalhista se una o ecologista, o ambientalista, o feminista, e outros movimentos cívicos e culturais de âmbito diverso.

Senão a Europa ficar-há em mãos dos amos e senhores do dinheiro inventado, saído do nada, a consta da nossa precariedade.