Arquivos Diários: Agosto 30, 2008

Da ideia de Pátria ao sentido de Portugal e da Comunidade Lusófona

I – Cada pátria é um lance em devir do e no infinito, imponderável e metamórfico jogo do mundo. Um lance do modo como esse jogo se joga pelos indivíduos e povos em comunidade de terra e céu, língua e cultura, história e trans-história. Um lance onde se entrelaçam os lances do modo individual e comunitário de viver o in-ex-istir (o ser em e a partir de) em união-cisão no fundo sem fundo e absoluto de tudo, a matriz primordial e lúdica que a cada instante se re-vela (se manifesta ocultando-se) na totalidade do universo e no imo de todo e cada ser. Um lance onde se entrelaçam e entrelançam os modos individuais e comunitários de viver a ilusão e a realidade, o visível e o invisível, a liberdade e a necessidade, o trabalho e a vacância, a alegria e a dor, a paz e a guerra, o amor e a morte, o tempo e a eternidade.

II – Cada pátria procede do modo como indivíduos e povos jogam o e se deixam jogar pelo jogo do mundo, radicando por seu intermédio no fundo ignoto a partir do qual a cada instante se descobre e inventa a realidade. Cada pátria, povo, língua e cultura é uma irradiação de energias criadoras, uma atmosfera espiritual e psicofísica que se expressa e recria nos homens, nos seres visíveis e invisíveis, nas forças do céu e da terra, na natureza e na paisagem, na convivência de todos entre si e com a totalidade do in-ex-istente. Cada pátria, povo, língua e cultura é uma potência em devir e metamorfose contínuos, tal como tudo quanto in-ex-iste, modulando-se na dinâmica trama da interdependência universal em função do modo como nela a cada momento se plasmam as energias do espírito e da matéria mediante a acção individual e colectiva processada pelo sonho, imaginação, pensamento, sentimento, palavra e actos físicos. Cada pátria, povo, língua e cultura assume assim vários níveis de manifestação e inscrição no lúdico e dinâmico corpo do mundo, desde os mais interiores e subtis da atmosfera rarefeita em que mais intimamente consiste e se enraíza nas visões, aspirações e inquietações dos indivíduos em comunidade, aos mais exteriores, densos e grosseiros das condições materiais de existência e da organização sócio-económico-política. Estes níveis interagem, embora os mais subtis, desde que operativamente consciencializados, subordinem os mais grosseiros, tal como na relação entre as dimensões profundas da mente e o corpo físico dos indivíduos humanos. Uma meditação, uma oração, um poema ou um pensamento, desde que invoquem e manifestem o, ou irrompam a partir do, fundo primordial de tudo, podem ser mais decisivos para o destino de uma pátria, povo, língua e cultura do que todos os decretos, constituições, movimentos, reformas ou revoluções aparentes, se estas não ultrapassarem o domínio da exterioridade e não modificarem o íntimo núcleo das consciências e das vidas.

III – Cada pátria, povo, língua e cultura, mais um poder ser e um devir criador do que uma essência ou id-entidade definida e definitiva, assume todavia, ao longo do tempo, figuras simbólicas singulares que re-velam e prefiguram o curso e o sentido do seu íntimo modo de jogar o jogo do mundo. Essas figuras são os símbolos e metáforas fundamentais de uma cultura, o modo pelo qual nela se expressa o seu âmago inefável, o “não sei quê” da sua atmosfera e da sua alma, o profundo cerne pelo qual se articula com a relação mais íntima que indivíduos e comunidades entretêm com a totalidade e o seu fundo absoluto. Essas figuras não só emergem nas grandes obras da cultura popular e erudita e nos próprios homens que as criam e recriam, mas também nas acções individuais e colectivas, com nome ou anónimas, visíveis ou invisíveis, patentes, entremostradas ou ocultas no corpo em devir da história do mundo. Certos homens, mais sensíveis – por natural empatia ou pontual distracção das ocupações-distracções quotidianas – a essa vida latente das coisas e da comunidade mais próxima onde se inscrevem, dão-lhes privilegiada voz e protagonismo: podem ser os chamados loucos, inspirados, poetas, profetas, pensadores, artistas, heróis, educadores, guias, bem como, em momentos excepcionais de aproximação da vida colectiva à sua oculta intimidade, o homem comum e o povo anónimo do qual aqueles são inseparáveis.

IV – O lance de cada pátria, povo, língua e cultura no infinito jogo do mundo entrelaça-se e entrelança-se nos lances de todas as demais pátrias, povos, línguas e culturas, entrelaça-se e entrelança-se nos lances de toda a comunidade humana e cósmica. Cada pátria está ligada a todos os homens, a todos os seres e a todo o universo na dinâmica trama da interdependência universal e nos múltiplos níveis da sua constituição, do mais grosseiro ao mais subtil.

V – Porque no fundo sem fundo e matriz lúdica do mundo o nada-tudo poder ser é mais real, amplo e rico do que o ser isto ou aquilo, enquanto possibilidade já de-terminada e actualizada, o lance de cada pátria no infinito jogo do mundo é mais fecundo pelas possibilidades que entreabre do que pelas que realiza, aquelas que realiza são mais fecundas pelas possibilidades que entreabrem e as mais fecundas das possibilidades realizadas são as que entreabrem a possibilidade de se reconhecer o fraterno entrelaçamento de todas as pátrias, povos, línguas e culturas, bem como de todos os homens e seres, no imenso corpo em devir do jogo do mundo e no fundo sem fundo da sua matriz primordial. A esta luz, o mais fecundo sentido de cada pátria, e logo a sua mais elevada missão, é contribuir para essa visão da totalidade e do infinito em cada fenómeno, ente e aspecto parcial da realidade, ou seja, para a gestação, em cada indivíduo, de uma consciência iluminada e solidária, planetária e universal.

VI – O lance mais fecundo do aspecto do jogo do mundo chamado Portugal, cultura e comunidade lusófona, o lance mais fecundo da sua lusitana i-lusão (ou, etimologicamente, do seu jogar-se criador/decriador, em que todo o lance decria e recria o que resulta do anterior), é precisamente a saudade da matriz primordial e o sentido da dinâmica e fraterna totalidade nela inscrita, a saudade/sentido desse espaço sem limites onde a cada instante se constela a totalidade em devir do in-ex-istente e se entrelaçam todas as pátrias, povos, línguas e culturas, todos os seres e todos os mundos. Essa saudade – do e no eterno instante que transcende passado, presente e futuro – , é não só memória-desejo, mas simultaneamente vislumbre e comunhão desse âmago festivo da manifestação onde, sem sacrifício da sua superabundância criadora, nenhuma das potências e figuras do jogo do mundo se separam e todas fraternamente se adunam: Império do Espírito Santo, Ilha dos Amores, Quinto Império. Estes os símbolos e metáforas fundamentais da nossa cultura e da sua íntima energia criadora, simultaneamente os mais singulares e os mais universais, revelados, recriados e protagonizados por algumas das suas figuras humanas mais paradigmáticas, elas mesmas simbólicas: Dinis e Isabel, o povo que viveu e vive, até hoje, o culto popular do Espírito Santo, Luís de Camões, Bandarra, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Raul Leal, Natália Correia, Agostinho da Silva, entre muitos outros, conhecidos ou não.

Império do Espírito Santo, Ilha dos Amores, Quinto Império, a Saudade que é a sua alma e espírito mais profundos – não do passado nem do futuro, mas do sempiterno instante da Presença-Ausência total – , eis a nossa vocação e possibilidade mais funda e, por isso, mais autêntica, aquela que nos pode investir como autores conscientes de um destino aberto, aquela que nos elege para que a possamos eleger.

VII – Movidos pela saudade/sentido do primordial e festivo âmago da totalidade em devir, Portugal e a comunidade lusófona, em fraterna colaboração com todas as pátrias, povos, línguas e culturas onde a mesma ou semelhante vivência e vidência desponte, têm uma imensa tarefa e responsabilidade em relação a toda a humanidade e comunidade cósmica. A tarefa de se porem ao seu serviço, o serviço do bem do mundo, ou seja, de todas as possibilidades de aumento da fraterna consciência do todo e do seu íntimo fundo sem fundo, convertendo isso em vida plena e renovada, pela libertação de tudo o que, material, social, cultural, psíquica e espiritualmente, oprime os homens e os seres. A nossa tarefa é aprendermos o que de melhor nesse sentido cada cultura descobriu e descobre, aprofundá-lo, praticá-lo, conjugá-lo e partilhá-lo com todas as culturas e povos. Só assim reduziremos o atraso em que de há muito estamos relativamente à evolução da consciência do sentido de Portugal e da comunidade lusófona, de Camões a Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva: converter-nos num espaço espiritual e mental, cordial e físico de pontes, transições, mediações, diálogos e intercâmbios entre povos, culturas, civilizações, ideologias, religiões e irreligiões, entre Norte e Sul, Ocidente e Oriente, passado e futuro; converter-nos numa pátria alternativa mundial, que dê exemplo de ser livre do comum egoísmo nacional e nacionalista veiculando ideias, valores e práticas tão universais e benéficas que todos os cidadãos do mundo nelas se possam reconhecer, independentemente das suas nacionalidades, línguas, culturas, ideologias e religiões. Uma pátria-mátria-frátria que esteja sempre na primeira linha da expansão da consciência, da defesa dos valores humanos fundamentais e das causas humanitárias, da sensibilização da comunidade internacional para todas as formas de violação dos direitos humanos e dos seres vivos e do apoio concreto a todas as populações em dificuldades. Uma pátria alternativa mundial que promova uma globalização distinta da que hoje triunfa e morre, arriscando arrastar consigo o planeta: não a da ignorância, da ganância e da opressão, mas a da sabedoria e do amor, da liberdade e da criatividade. Uma pátria trans-patriótica, que realize e cumpra a sua superior possibilidade no encaminhamento das consciências individuais para a realização do bem universal.

VIII – Para tal há que refundar Portugal. Porque o Portugal que (mal) sobrevive institucionalmente existe para cumprir outros fins e funções: a integração no sistema que planetariamente falha, porque só triunfa à custa da felicidade dos povos e dos indivíduos e da regressão das suas faculdades superiores de conhecer, amar e criar; porque só triunfa à custa da possibilidade de continuar a existir. Há que criar uma nação alternativa, fiel ao sentido da pátria-mátria-frátria profunda e universal que no mais íntimo dos nossos corações reside. Essa é a tarefa das novas confrarias que devem ser os núcleos do Movimento Internacional Lusófono espalhados por Portugal e por todo o mundo: associações de consciências livres, fraternas e solidárias, que antecipem desde já, nas suas intenções, actividades e vidas, o novo Portugal, a nova comunidade lusófona e o novo mundo a que aspiram.

Novas confrarias, de irmãos servidores do bem comum, que, libertas dos regimes e instituições do passado, podem desfraldar hoje uma nova bandeira: branca e imaculada como o espaço livre e incriado que a tudo engloba; no centro a esfera armilar, símbolo da totalidade, da perfeição e do abraço cósmico; ao centro da esfera armilar o escudo português com as cinco quinas, símbolo da renovada continuidade do impulso que nos funda e de muito mais, a promessa e potencialidade do Quinto Império, símbolo e realidade da consciência plena, fraterna e universal.

Valete, Fratres !

Saúde, Irmãos !